Oriente Próximo

Marrocos embarca no trem da normalização

Já está claro que os regimes em muitos países árabes, sejam monarquias ou repúblicas, esperam resolver seus problemas econômicos e de segurança vendendo a causa palestina e os valores árabes essenciais.

Por Abdel Bari Atwan, via Raialyoum, tradução de Eduardo Pessine

Os protestos contra o acordo de normalização de relações entre Marrocos e Israel em Rabat foram reprimidos pelas forças de segurança marroquinas. Foto por Mosa’ab Elshamy.
Os protestos contra o acordo de normalização de relações entre Marrocos e Israel em Rabat foram reprimidos pelas forças de segurança marroquinas. Foto por Mosa’ab Elshamy.

Os regimes árabes são tão covardes que até mesmo um presidente patético como Donald Trump consegue fazer com que cumpram suas ordens e de Israel.

O tweet do presidente estadunidense já de saída Donald Trump revelando que os governos marroquino e israelense entraram em acordo para normalizar suas relações não foi nenhuma surpresa. Havia sinais claros de que isso iria ocorrer: os Emirados Árabes e a Jordânia abrindo consulados na cidade sarauí de Laayoune, e a visita do genro e assessor sênior de Trump, Jared Kushner, a Rabat, recebido com festividades pelo rei marroquino Mohamed VI.

Este acordo entre Israel e a monarquia marroquina está dentro da fórmula terra-pela-paz – exceto que a terra em questão não se trata do território palestino ocupado por Israel. É o território do Saara Ocidental, que Trump reconheceu em seu tweet como totalmente soberano do Marrocos. O presidente estadunidense também ofereceu ajuda financeira para o Marrocos, enquanto a companhia aérea nacional de Israel anunciou que planeja voos para aeroportos marroquinos. Sem dúvidas ainda virão mais coisas.

Trump não estava mentindo quando afirmou que nove estados árabes estavam na fila da normalização. Ele nomeou os Emirados Árabes, Barém, Sudão, Arábia Saudita, Qatar, Omã, Marrocos, Tunísia e Mauritânia. Os acordos de normalização seguiram-se, um após o outro. Não fique surpreso caso a normalização do estado de ocupação israelense acabe sendo um componente da reconciliação saudita-qatariano mediada por Kushner. Apenas alguns momentos após o acordo Marrocos-Israel ser revelado, ele declarou que a normalização saudita com Israel seria “inevitável”. E isso apesar da forte crítica do príncipe Turki al-Faisal à Israel em um fórum no Barém, que tomou as manchetes nesta semana. Provavelmente seremos informados, no devido tempo, que o ex-chefe de inteligência e embaixador nos EUA e no Reino Unido não representa a posição oficial ou reflete as visões da Arábia Saudita.

O Ministro de Inteligência israelense, Eli Cohen, havia nomeado a Arábia Saudita, Qatar e Marrocos como estados que estabeleceriam relações com Israel como parte de uma entente regional iniciada por Trump. Agora que os marroquinos cumpriram as ordens que lhes foram dadas, farão os sauditas e qatarianos o mesmo antes que Trump saia da Casa Branca?

Trump tem o hábito de mentir sobre praticamente todos os aspectos da política interna e externa. O Washington Post já identificou milhares de afirmações falsas ou enganosas feitas por ele desde que assumiu o cargo. Mas a experiência nos mostra que praticamente tudo que ele diz sobre os governos do “Oriente Médio” é certeiro. Isso porque a maioria dos regimes árabes são tão fracos, comprometidos e covardes que estão preparados para se submeter aos ditames estadunidenses e israelenses até mesmo sob um presidente patético – e são especialistas em desinformar e mentir para sua própria população.

Já está claro que os regimes em muitos países árabes, sejam monarquias ou repúblicas, esperam resolver seus problemas econômicos e de segurança – causados essencialmente por sua própria corrupção e fracassos políticos – vendendo a causa palestina e os valores árabes essenciais. Ironicamente, as recompensas financeiras que buscam consistem de dinheiro árabe: seja “reciclado” nos EUA de fundos soberanos através da venda de armamentos, ou com pagamentos diretamente ordenados como propinas para a normalização.

Estamos observando a emergência acelerada de uma aliança árabe-israelense que visa confrontar o campo liderado pelo Irã na região. Assim como o dinheiro árabe banca os acordos de normalização, ele poderia acabar pagando pela possível guerra contra os iranianos – e seria travada principalmente em territórios árabes e nas bases estadunidenses localizadas ali, com o enganado povo árabe como as maiores vítimas.

Novos anúncios de normalização, ou notícias sobre companhias aéreas, produtos e turistas israelenses aparecendo neste ou naquele estado árabe não surpreende mais ninguém. A maioria dos governos árabes perderam qualquer senso de vergonha quando se trata de apaziguar os Estados Unidos. Mas confiamos que, em breve, esses regimes serão surpresos com o preço que será cobrado pelo seu próprio povo pela traição e deslealdade à causa palestina.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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