Oriente Próximo

O acordo nuclear de Joe Biden com o Irã não é uma opção realista

A questão do Irã não é sobre mísseis nucleares. Estes são impraticáveis e o Irã não tem interesse em desenvolvê-los. O problema real é o papel do Irã no Oriente Médio.

Via Moon of Alabama, tradução de Eduardo Pessine

Imagem por Drew Angerer.
Imagem por Drew Angerer.

Alastair Crooke escreveu outro conciso sumário sobre o problema da política externa estadunidense em relação ao Irã:

Biden diz que quer – diplomaticamente – selar um acordo nuclear com o Irã – isto é, um JCPOA ‘Plus + Plus’. Os europeus concordam desesperadamente com essa aspiração. Mas os ‘protocolos’ que sua equipe herda da era Obama sempre carregaram as sementes do fracasso.

A questão do Irã não é sobre mísseis nucleares. Estes são impraticáveis e o Irã não tem interesse em desenvolvê-los. A questão nuclear é usada simplesmente como alavanca para pressionar os persas.

O problema real é o papel do Irã na região. Os xiitas são maioria ao redor do Golfo Pérsico, e as diversas ditaduras árabes sunitas os vêem como ameaça ao regime. Já Israel exagera a questão do Irã para pressionar os Estados Unidos por mais armamentos grátis e subsídios adicionais.

O que o governo Biden e os “poodles” europeus querem do Irã é reduzir sua influência na região e a quantidade de mísseis que possui para defender-se de ataques.

O Irã, obviamente, não irá concordar com nenhuma destas restrições. E por que deveria?

Depois de quatro anos de duras sanções pelo governo Trump, que foram amplamente apoiadas pelos europeus, o Irã mudou sua estrutura e orientação econômica. As exportações de petróleo desempenham agora um papel muito menor no orçamento público do que antes da sanções. A economia adaptou-se ao concentrar em negócios com países não-ocidentais. O Irã está voltado ao leste.

Mais sanções não irão, portanto, modificar a posição do Irã ou seu comportamento. Em algum momento, o governo Biden terá que aceitar este fato.

Isso faz com que sobre apenas a guerra como opção para alcançar os desejos expressados pelo “ocidente”. Mas a “pílula vermelha” da postura militar iraniana previne isso.

Em setembro de 2019, mísseis e drones iranianos cortaram metade da produção de petróleo da Arábia Saudita.

Visão geral dos danos à infraestrutura de gás e petróleo em Abqaiq (áreas danificadas destacadas em vermelho). 15/set/2019.
Visão geral dos danos à infraestrutura de gás e petróleo em Abqaiq (áreas danificadas destacadas em vermelho). 15/set/2019.
Visão geral dos danos à infraestrutura de gás e petróleo em Abqaiq (pontos de impacto destacados em vermelho). 15/set/2019.
Visão geral dos danos à infraestrutura de gás e petróleo em Abqaiq (pontos de impacto destacados em vermelho). 15/set/2019.

Em janeiro de 2020, o Irã vingou o assassinato do General Qassem Soleimani pelos Estados Unidos com um ataque preciso de mísseis em uma base estadunidense no Iraque.

Base aérea de Ain Assad, em Al Ambar, Iraque (áreas atingidas destacadas em branco). 8/jan/2020.
Base aérea de Ain Assad, em Al Ambar, Iraque (áreas atingidas destacadas em branco). 8/jan/2020.

Os mísseis de precisão iranianos com um alcance de 2.000 quilômetros podem ser lançados em massa de silos subterrâneos. Qualquer agressor teria muita dificuldade para destruí-los.

O Irã pode defender não só seus mares, espaço aéreo e território, mas podem também retaliar agressões com ataques de precisão em todas as bases estadunidenses no Oriente Médio, e também destruir todas as instalações árabes de exportação de petróleo. Seus camaradas libaneses, o Hezbollah, têm seus próprios recursos balísticos que são suficientes para destruir a maioria das indústrias israelenses. Caso o Irã seja atacado eles irão, como prometido, “cumprir seu dever”.

Um oficial da marinha estadunidense admitiu ontem que os Estados Unidos estão dissuadidos pelo Irã:

O mais alto oficial da marinha estadunidense no Oriente Médio afirmou no domingo que os EUA atingiram uma ‘dissuasão tênue’ com o Irã após meses de ataques regionais e confiscos no mar, ainda que as tensões continuem altas entre Washington e Teerã em relação ao programa nuclear da República Islâmica.

O vice-almirante Sam Paparo, que supervisiona a 5º Frota da marinha baseada no Barém, adotou um tom acadêmico em seus comentários para o Manama Dialogue, sediado pelo International Institute for Strategic Studies. Ele descreveu um ‘respeito saudável’ tanto pela marinha regular iraniana quanto pelas forças navais da Guarda Revolucionária.

‘Nós atingimos uma tênue dissuasão. Ela é exacerbada pelos eventos mundiais e aqueles ao longo do caminho’, afirmou o vice-almirante.

Sanções não darão ao “ocidente” os resultados que deseja. A única alternativa para conquistar estes resultados é uma guerra de larga escala contra o Irã com o objetivo de derrubar seu governo. Mas uma guerra deste tipo não pode ser travada, pois destruiria o Oriente Médio e levaria a economia global a uma recessão profunda. Resumidamente: não há alternativa.

Como escreve Crooke:

A questão ‘sob a mesa’ é a destreza das forças armadas convencionais do Irã, e não suas supostas armas nucleares. E é por isso que Israel insistirá na pressão máxima – isto é, mais (e não menos) alavancagem das sanções estadunidenses – sobre o Irã, para forçar restrições sobre seus armamentos convencionais, assim como sobre seu programa nuclear. E isso não irá acontecer – o Irã não fará isso. ‘Isso será muito, muito difícil de negociar’, afirma Friedman, ‘É complicado’.

De fato. Buscar negociações alinhadas com os antigos protocolos de Obama irá levar Biden inevitavelmente à ameaça explícita da ‘opção militar’ (o que encaixa perfeitamente com as intenções de Netanyahu).

Paradoxalmente, entretanto, são precisamente estas novas capacidades convencionais ‘inteligentes’ do Irã que poderão deter Biden de adotar o caminho militar – o medo de provocar uma guerra regional que pode destruir os Estados do Golfo. E é essa transformação do Irã que indica o motivo pelo qual a ‘opção militar’ não é uma opção viável: uma opção militar patrocinada pelos Estados Unidos seria uma ‘pílula vermelha’ para a região.

Um JCPOA “Plus + Plus” não irá acontecer. Não há nenhuma forma realista de realizá-lo.

E como isso é óbvio, pode-se imaginar por qual motivo os “poodles” europeus estão pressionando para que ocorra. O que eles esperam conseguir?

Felizmente o Irã deu a Biden outra opção. Ele pode retirar todas as sanções introduzidas por Trump e retornar ao acordo nuclear. O Irã prometeu que iria restringir novamente seu programa nuclear aos limites do JCPOA assim que Biden levantar as sanções. O parlamento iraniano definiu uma data limite para essa opção, instruindo o governo a cessar a adesão ao JCPOA até fevereiro.

Joe Biden pode aceitar essa oferta ou desperdiçar quatro anos quebrando a cabeça sobre a questão do Irã. E o tempo não está do seu lado: o Irã ficará cada vez mais forte, e continuará trabalhando pelos seus justos interesses na sua região, de desempenhar um papel compatível com seu tamanho.

Já é tempo dos Estados Unidos reconhecerem e aceitarem isso.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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