América Latina

O chavismo voltará a ter maioria parlamentar

O chavismo voltará a ser maioria na Assembléia Nacional, após cinco anos. A gama de forças da oposição, por outro lado, sofrerá com um quadro de minorias fragmentadas e heterogêneas.

Por Marco Teruggi, via Resumen Latinoamericano, tradução de Eduardo Pessine

Foto por Jhonn Zerpa.
Foto por Jhonn Zerpa.

O chavismo voltará a ser maioria na Assembléia Nacional (AN) após cinco anos. Terá, a partir do próximo dia 5 de janeiro, quando será juramentado a nova legislatura, a maioria das 277 cadeiras. A gama de forças da oposição, por outro lado, sofrerá com um quadro de minorias fragmentadas e heterogêneas.

Assim ficou o cenário das eleições parlamentares, onde o Grande Polo Patriótico (GPP), a aliança conduzida pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) obteve 4.277.926 votos, totalizando 68,43%, de acordo com o que foi informado no segundo boletim do Conselho Nacional Eleitoral entregue na tarde da segunda-feira, com 98,63% dos votos apurados.

O resultado não foi reconhecido por aqueles governos que haviam antecipado que não o fariam, como os Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, União Européia e o Grupo de Lima – sem o apoio da Argentina e Uruguai. Manterão, consequentemente, o reconhecimento da “presidência interina” de Juan Guaidó, ainda que exista uma nova AN, e aquela presidida brevemente por Guaidó – e sobre a qual foi fabricada sua figura de presidente – tenha cumprido seu mandato.

As declarações de não-reconhecimento foram esperadas. As posições estavam marcadas com antecedência, independentemente do que se sucedesse durante a votação no domingo, na qual, com mais de 300 observadores internacionais, não foram registrados incidentes ou irregularidades. Espera-se que o reconhecimento, por outro lado, vindo de diversos países, como Rússia, Bolívia e Cuba, amplie-se nas próximas horas, com alguns governos que ainda não o fizeram publicamente.

A correlação de forças internacionais não mudou, e seguramente aqueles governos que não reconheceram os resultados de domingo, reconhecerão como válida a “consulta popular” encabeçada por Guaidó dentro do país, iniciada nesta segunda-feira através de uma página da internet e uma aplicação móvel, e que ocorrerá de maneira presencial no dia 12.

A “consulta” será uma mecanismo através do qual Guaidó buscará mostrar que obteve apoio social para que siga sua “presidência interina” sob o argumento da “continuidade administrativa” da AN, que terminará seu atual mandato no dia 5 de janeiro. Não será a primeira vez que a oposição – agora fragmentada em quatro partes – chama uma consulta dessa tipo: em julho de 2017, a direita havia realizado um plebiscito onde pedia às Forças Armadas Nacionais Bolivarianas que se somassem à derrubada de Maduro, construção de instituições paralelas e à formação de um “governo de unidade nacional”.

Naquela oportunidade, em um contexto de grande mobilização da direita dentro de uma esquema de tentativa de derrubada do governo, várias urnas do plebiscito foram queimadas pela própria oposição, e seu resultado não traduziu-se em fatos concretos. Duas semanas depois, foi eleita a Assembléia Nacional Constituinte – que finalizará neste mês de dezembro – que operou como um divisor de águas neste momento do conflito.

Agora também é provável que a “consulta popular” não tenha efeitos dentros do país e não gere apelos ou expectativas, apesar da narrativa de Guaidó e da direita nas redes sociais, o principal espaço de construção do ilusório “governo interino”. A capacidade de mobilização de Guaidó, salvo algumas exceções, tem despencado desde abril de 2019.

Tratam-se dos últimos movimentos políticos de um 2020 que foi particulamente complexo, ainda que, como se sabe, cada ano apresente suas grandes complexidades dentro do conflito na Venezuela, que é tanto nacional quanto internacional. Um dos elementos centrais que marcou a dinâmica deste ano foi a dificuldade, muitas vezes crítica, de abastecimento de gasolina, água, gás e luz – serviços que estão nas mãos do Estado – uma situação levada a um ponto crítico nos marcos da política de “pressão máxima” dos Estados Unidos através do bloqueio econômico.

Esta situação impactou a votação de domingo, onde a participação foi de 31%, com uma pequena quantidade de votos para a oposição, que, em grande parte, adentrou o campo eleitoral a partir da reconfiguração que ocorreu dentro da oposição. Quanto ao chavismo, a conquista de 4.277.926 votos representou um milhão e trezentos mil votos a menos que seu mínimo de 2013 até agora, com 5.625.248 nas eleições parlamentares de 2015.

Esta perda de votos, para além das variáveis econômicas e materiais, parece indicar uma necessidade de revisão dentro do próprio chavismo, em seus diferentes níveis, produto particularmente dos efeitos de desgaste de um governo que está há várias anos à frente do país, do conflito prolongado no qual mergulhou a política, e uma tendência à repetição discursiva e uma linguagem alheia aos problemas cotidianos – “às vezes parece que estamos negando a realidade”, afirmou Maduro na quinta-feira passada.

Serão elementos que formarão parte de um 2021 que começará com a posse da nova AN, e a pergunta, sem resposta, sobre o que ocorrerá com o setor de Guaidó para além das redes sociais. Especula-se que alguns integrantes do “governo interino” sairão da Venezuela, ou também que outros, antes do inevitável precipício, optem por regressar ao terreno eleitoral, ou seja, às eleições municipais e estaduais que ocorrerão durante o ano.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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