EUA

Por que os Estados Unidos estão no Mar do Sul da China?

Os EUA consideram-se como a “polícia global”, mas nunca foram delegados para cumprir esse papel pela comunidade internacional. Ao contrário, agem mais como interventores delirantes do que como legítimos oficiais da lei.

Por Andrew Korybko, via OneWorld, tradução de Eduardo Pessine

O HMAS Parramatta, USS America, USS Bunker Hill e USS Barry no Mar do Sul da China, em abril de 2020. Foto pro Nicholas Huynh.
O HMAS Parramatta, USS America, USS Bunker Hill e USS Barry no Mar do Sul da China, em abril de 2020. Foto pro Nicholas Huynh.

Os EUA consideram-se como a “polícia global” – daí suas ações arrogantes – mas nunca foram delegados para cumprir esse papel pela comunidade internacional. Ao contrário, agem mais como interventores delirantes do que como legítimos oficiais da lei.

O Secretário de Defesa Nacional filipino alertou na semana passada que seu país “será envolvido, queira ou não” caso “aconteça uma troca de tiros” entre a China e os Estados Unidos no Mar do Sul da China. Ao invés de especular em qual lado do conflito as Filipinas estariam neste cenário, é muito mais relevante se perguntar por que, para início de conversa, os Estados Unidos estão presentes no Mar do Sul da China. Afinal, é o envolvimento militar estadunidense nessa região que gera o risco de uma guerra, e não o chinês.

O Mar do Sul da China não é apenas historicamente uma região chinesa, mas grande parte dele é parte legítima do território da China. A presença militar estadunidense se dá, logo, não apenas às portas do país asiático, mas dentro de seu ‘saguão de entrada’, mesmo sem ter sido convidado por Pequim. Washington alega que está protegendo a chamada “liberdade de navegação”, mas na verdade, dando sequência à metáfora, está irrompendo dentro da casa dos chineses por uma disputa com alguns de seus vizinhos.

Alguns dos vizinhos marítimos da China se opõem às suas reinvindicações territoriais, mas estas são todas disputas bilaterais que devem ser resolvidas entre Pequim e cada uma das partes envolvidas. Os Estados Unidos não têm razões para se envolver nestas questões, mas o fazem mesmo assim para ‘dividir e conquistar’ a região.

Muito barulho foi feito pela mídia americana sobre as atividades chinesas em diversas ilhas, corais e cardumes, mas a verdade é que a China tem o direito de desenvolver seu território da forma que julgar adequada. Não impõe riscos a ninguém, incluindo à legítima liberdade de navegação, mas pretende defender seus interesses assim como cada país tem o direito de fazer. O posicionamento militar e as manobras da China naquelas terras e seus arredores trazem, na verdade, segurança ao Mar do Sul da China, e não desestabilizam-o, ao contrário das ações estadunidenses.

A China nunca nem mesmo ameaçou impedir o fluxo livre de navios comerciais em seu território marítimo, mas autoridades americanas já declaram publicamente sobre atacar navios chineses e até mesmo baní-los do Oceano Índico, através do Estreito de Malaca, por exemplo. As jogadas militares dos EUA no Mar do Sul da China são a extensão de uma estratégia para intimidar a República Popular à submissão às demandas da política externa de Washington. Suas funções são obstruir a liberdade de navegação da China, e não facilitá-la.

O assunto foi discutido tantas vezes ao longo da última década que pode-se perdoar muitos que caem na falsa impressão de que isso sempre foi um motivo de preocupação. O que, entretanto, não é verdade, sendo um acontecimento relativamente recente, que começou a agravar-se durante o chamado “pivô para a Ásia” do governo Obama, que foi agressivamente intensificado durante o atual governo Trump. Os Estados Unidos começaram até mesmo a pressionar seus aliados a seguirem seus passos na violação da soberania territorial marítima da China.

O candidato presidencial democrata, Joe Biden, projetado pela mídia hegemônica como o próximo presidente-eleito, apesar da recusa de Trump em ceder a disputa e interromper as contestações legais, deve aproveitar a oportunidade para reverter essa política de desestabilização ao assumir o cargo. A nomeação de autoridades da era Obama é preocupante, porém, já que podem simplesmente ajustar a variação de Trump do “pivô para a Ásia” de seu antecessor, ao invés de a reconsiderarem como deveriam.

De qualquer maneira, a auto-regulação e moderação dessa política em relação ao Mar do Sul da China – idealmente com uma visão direcionada a revertê-la em prol da paz regional – seria uma melhora comparada ao status quo, caso tenham a vontade política para fazê-lo. Todos os esforços devem ser tomados por Biden e sua equipe para evitar o cenário catastrófico alertado pelo Secretário de Defesa Nacional das Filipinas. Não há razão para uma guerra no Mar do Sul da China, mas caso ela ocorra, será de total responsabilidade dos Estados Unidos.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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