Oriente Próximo

Abutres, lobos e tubarões em torno do Irã

A prática do Pentágono agora é “reforçar a estabilidade” sendo abertamente hostil contra qualquer país digno de sua atenção, e a política de Washington, neste aspecto, tem total aprovação de Israel.

Por Brian Cloughley, via Strategic Culture Foundation, tradução de Eduardo Pessine

Cerimônia em homenagem ao cientista iraniano Mohsen Fakhrizadeh, assassinado no dia 27 de novembro. Foto via Ministério da Defesa do Irã.
Cerimônia em homenagem ao cientista iraniano Mohsen Fakhrizadeh, assassinado no dia 27 de novembro. Foto via Ministério da Defesa do Irã.

A República Islâmica do Irã é dirigida por um grupo de teocratas cujo poder é total. Seu governo afirma oficialmente que “junto ao Líder, o Presidente será a mais alta autoridade do Estado, sendo responsável pela implementação da Constituição e, como Chefe do Executivo, pelo exercício dos poderes executivos, com exceção das questões diretamente relacionadas ao Líder”.

A PBS (U.S. Public Broadcasting Service), uma organização midiática sem fins lucrativos que é admiravelmente independente (e por isso o governo Trump tentou destruí-la), resumiu o sistema política iraniano observando que “na superfície, os governos estadunidenses e iranianos têm muito em comum: um presidente que é popularmente eleito, uma legislatura turbulenta e um judiciário poderoso. A diferença óbvia se encontra no fato de que o Irã é uma teocracia islâmica, e que um homem, o Líder Supremo, exerce controle político e ideológico sobre um sistema dominado por clérigos, que rondam cada função importante do Estado”. Em outras palavras, é uma ditadura, assim como, por exemplo, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes, o Barém, Brunei e o Egito, cujos todos os líderes são aliados notáveis do governo Trump.

Mas salvo o despostismo dos mulás iranianos, o Irã é um país independente que não representa nenhuma ameaça aos Estados Unidos, a despeito do que afirmam os extremistas de Washington. O regime de Teerã já vociferou e proferiou ameaças irrealizáveis, mas é absurdo imaginar que seja uma ameaça à “pátria sagrada”. Até mesmo a avaliação de risco feita pelo Departamento de Segurança Interna só trouxe um alerta de que os iranianos poderiam realizar ataques cibernéticos, interferência eleitoral, terrorismo e a disseminação de desinformação sobre a Covid-19. Não há nenhuma evidência de nada disso, mas Washington não é conhecida por fornecer evidências para apoiar alegações contra o inimigo da vez (Veja, por exemplo, as travessuras verbais de seu presidente quase-psicótico a respeito de sua derrota eleitoral).

O maior erro internacional do Irã foi adotar uma implacável postura anti-Israel. Em maio, por exemplo, o Aiatolá Ali Khamenei proclamou que “o regime sionista é um tumor mortal na região. Ele será sem dúvidas removido e destruído”, uma afirmação tola que se provou um alerta vermelho para muitos dos “leões” na arena. Khamanei escancarou a porta para uma onda de propaganda e manobras militares anti-Irã, das quais o último episódio foi a reunião de abutres e lobos na Arábia Saudita em 22 de novembro, quando, segundo o Washington Post, o primeiro-ministro israelense Netanyahu “encontrou-se com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman e o Secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo”.

Isso foi uma semana após o Comando Central dos EUA (CENTCOM) anunciar o deslocamento de caças F-16 de sua base na Alemanha para os Emirados Árabes, com o Comandante da 9th Air Force afirmando que “o destacamento do 480º Esquadrão de Caças demonstra a agilidade da Força Aérea dos EUA e o compromisso do CENTCOM com seus aliados e parceiros para fortalecer a segurança e estabilidade da região”. Acrescentando à estabilidade, no dia do encontro entre Netanyahu, Salman e Pompeo, o CENTCOM despachou uma força-tarefa de bombardeiros B-52 para o Oriente Médio, “para deter a agressão e acalmar os parceiros e aliados dos EUA”, que é presumivelmente o objetivo do USS Nimitz Carrier Battle Group, que foi destacado no Golfo Pérsico em 25 de novembro.

A prática do Pentágono agora é “reforçar a estabilidade” sendo abertamente hostil contra qualquer país digno de sua atenção, e a política de Washington, neste aspecto, tem total aprovação de Israel, que é o mais determinado inimigo do Irã, além de ser o nação favorita dos Estados Unidos.

Mesmo que seja improvável que existam provas cabais de que foi Israel que assassinou o cientista nuclear iraniano Mohsen Fakhrizadeh no dia 27 de novembro, o Guardian publicou que “Fakhrizadeh foi identificado pelo primeiro-ministro israelense em uma apresentação pública em 2018 como o diretor do programa nuclear iraniano. ‘Fakhrizadeh, lembrem-se deste nome’, afirmou Netanyahu durante a apresentação”. Bem, este nome foi certamente lembrado por alguém, e o Líder Supremo do Irã não tem dúvidas de que “os mercenários do opressivo regime sionista” foram responsáveis pelo assassinato, que foi conduzido de maneira magistral.

A responsabilidade por tais empreitadas, como assassinatos, são naturalmente negadas veementemente por qualquer país ou agência suspeita, mas é interessante fazer o antigo questionamento: Cui Bono? – quem se beneficia com o assassinato de Fakhrizadeh?

O desenvolvimento nuclear do Irã é há tempos um ponto crítico para Israel, sendo que o país tem seu próprio arsenal nuclear internacionalmente não-declarado e ilegal. Uma das maiores conquistas do governo Obama foi a formulação e a adoção de um acordo nuclear com o Irã, o Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA) de 2015, sob o qual, segundo a BBC, “o Irã concordou em limitar suas atividades nucleares sensíveis e permitir inspetores internacionais, em troca do fim das brutais sanções econômicas”. O acordo dificilmente poderia ter funcionado de maneira mais efetiva, já que “inspetores da International Atomic Energy Agency (IAEA), o cão de guarda nuclear global, monitoravam continuamente os supostos sítios nucleares do Irã, além de verificar se nenhum material físsil era movido secretamente para a construção de uma bomba. O Irã também concordou em implementar o Protocolo Adicional ao Acordo de Salvaguarda da IAEA, que permitia aos inspetores que acessassem qualquer local considerado suspeito no país”.

Não havia nenhuma evidência de que o Irã estava rompendo o acordo de qualquer maneira. No dia 6 de março de 2017, o diretor da IAEA afirmou que “nossa agência está monitorando a implementação dos compromissos nucleares do Irã sob o JCPOA por mais de um ano. Em janeiro, a agência verificou o deslocamento de centrífugas e infraestruturas excedentes da planta de Fordow para a planta em Natanz, onde atualmente estão armazenadas sob monitoramento contínuo… A agência continua verificando o não-desvio de material nuclear declarado pelo Irã em seu Acordo de Salvaguarda. As avaliações sobre a ausência de material e atividades nucleares não-declaradas no Irã continuam”.

Mas como tudo que foi feito pelo presidente Obama, Donald Trump chamou de “o pior acordo possível”. Ele descartou um pacto sensível que poderia ter fortalecido a estabilidade mais efetivamente do que qualquer um de seus F-16s, B-52s ou porta-aviões que agora ameaçam o Irã. E no dia 22 de novembro, Netanyahu declarou que “não deve haver nenhum retorno ao acordo nuclear anterior. Nós devemos continuar uma política intransigente para garantir que o Irã não desenvolva armas nucleares”.

Espera-se que o governo Biden descarte Netanyahu e retome o acordo nuclear de Obama, apesar da nova equipe em Washington ser simpática à postura e política de Israel nas questões internacionais.

Mas os abutres, lobos e tubarões cercaram o Irã, e talvez, seja otimista demais esperar que sejam substituídos por pombas da paz.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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