Ásia

Uma China sem extrema pobreza

O fim da extrema pobreza na China é a culminação de um longo caminho de várias gerações, que permitiu desvencilhar centenas de milhões de pessoas do subdesenvolvimento e da miséria mais brutal.

Por Xulio Ríos, via Observatorio de la Política China, tradução de Eduardo Pessine

Foto via ChinaFotoPress.
Foto via ChinaFotoPress.

A notícia foi divulgada há alguns dias atrás. A China informava que os últimos e mais remotos distritos do país haviam se livrado da pobreza extrema. É a culminação de um longo caminho de várias gerações que permitiu desvencilhar centenas de milhões de pessoas do subdesenvolvimento e da miséria mais brutal. É difícil acreditar na conquista da China, coisa que muitos davam como segura a vista do progresso alcançado nos últimos anos, ainda que o anúncio não tenha recebido a atenção que merecia ao redor do mundo: essa vitória da China equivale a mais de 70% da redução da pobreza global, e foi alcançada 10 anos antes do prazo estabelecido pela Agenda 2030 das Nações Unidas. Na China, a linha da pobreza é considerada uma renda anual de 4.000 yuans (510 euros) ou 1,9 euros por dia (os padrões internacionais são de 1,8 euros).

Ainda existem, naturalmente, desigualdades e desequilíbrios a serem resolvidos, mas a tendência aponta para isso. Com os esforços contínuos na redução da pobreza, o coeficiente Gini da China, o indicador da desigualdade de riqueza, foi reduzido a 0,465 em 2019, desde o nível máximo de 0,491 em 2008. No período do XIII Plano Quinquenal (2016-2020), a desigualdade de renda disponível per capita entre os residentes urbanos e rurais seguiu diminuindo, com uma taxa de 2,64:1 em 2019, o que representou uma melhora em relação aos 2,73:1 registrados em 2015. O PIB per capita da China superou os 10.000 dólares e sua população de renda média já soma mais de 400 milhões de pessoas.

Tratando-se de desequilíbrios regionais, em 2019, por exemplo, o PIB total de três províncias do nordeste da China, que sofreram com o enfraquecimento da economia e o êxodo populacional, representou apenas cerca de 47% do PIB de Guangdong, a província mais rica do país, segundo dados oficiais.

Em ambos aspectos constata-se uma realidade complexa que obrigará uma ação sustentável durante anos para conquistar uma maior coesão territorial e justiça social.

A China ter conquistado a erradicação da pobreza extrema, é, primeiramente, uma comprovação de que isso é possível. Certamente exige perseverança e vontade política, além de um modelo que permita lidar com o problema com respostas adaptadas às condições locais. A China, por exemplo, priorizou a fórmula do desenvolvimento: infraestrutura, comércio, emprego, inovação, tecnologia, educação, serviços públicos, etc. A experiência do Partido Comunista Chinês assegura que o desenvolvimento é a chave para erradicar a pobreza.

Devemos também reconhecer que seu êxito torna nosso fracasso ainda maior. A pregação sobre os benefícios do livre-mercado e do liberalismo torna vergonhosa nossa incapacidade de acabar com o flagelo da pobreza – que só aumenta, assim como os desequilíbrios e as desigualdades. Regredimos a passos largos, talvez porque isso seja realmente inerente ao nosso sistema. Na China, a ação foi determinada pelo Estado – não pelo mercado – o que tornou possível alcançar este tremendo sucesso.

Além disso, a China conquistou este marco sem a participação de ONGs, e essencialmente através de meios próprios, utilizando sobretudo muita planificação e um sistema peculiar de apadrinhamento interno, com forte investimento público e definição de objetivos com o protagonismo das regiões mais desenvolvidas do leste do país, incluindo muitas empresas, sobretudo estatais, mas também privadas. Todos estes atores destinaram durante anos parte de seus recursos para incentivar o desenvolvimento das zonas mais empobrecidas. Seria muito conveniente aprofundar este modelo, estabelecendo um diálogo Ocidente-Oriente sobre o desenvolvimento e a pobreza para melhorar o sistema de ajuda internacional, que tem a duras penas reduzido timidamente a pobreza em algumas comunidades que, entretanto, não conseguiram livrar-se dos problemas estruturais e sistêmicos que as levaram a tal situação.

Mas pode, entretanto, ocorrer o mesmo que acontece em relação à administração da pandemia. Os imperativos geopolíticos e ideológicos parecem prevalecer sobre o reconhecimento das evidências. Neste caso, não interessa falar do tema. A China conseguiu erradicar a pobreza extrema em plena pandemia enquanto os contágios, mortes e a fome crescem tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Assim, examinarão em detalhes a conquista e reduzirão o seu valor, primeiro, resumindo-a a mera propaganda; e segundo, questionando os dados e a própria sustentabilidade deste feito, uma vez que é apoiada por subsídios governamentais.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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