Oriente Próximo

Irá a Turquia intervir no Iêmen?

O que mais preocupa os sauditas é que a Turquia, na esteira de seu triunfo no Azerbaijão, poderia desafiá-los em duas áreas centrais: a guerra no Iêmen; e sua liderança no mundo islâmico.

Por Abdel Bari Atwan, via Raialyoum, tradução de Eduardo Pessine

O rei saudita Salman e o presidente turco Recep Erdogan. Foto por Umit Bektas.
O rei saudita Salman e o presidente turco Recep Erdogan. Foto por Umit Bektas.

…e como Riade reagirá ao papel regional e islâmico cada vez mais proeminente de Ancara?

Na véspera da cúpula do G-20 realizada na Arábia Saudita, o rei Salman fez uma ligação para o presidente turco Recep Erdogan, onde entraram em acordo sobre a resolução das enormes diferenças entre seus países através do diálogo. Essa jogada não apenas refletiu a ânsia de seu reino em garantir que Erdogan participasse pessoalmente do encontro virtual, sendo a Turquia o único membro muçulmano do G-20, além da Arábia Saudita. Foi também uma tentativa de compensar o perigo representado pelo papel cada vez maior da Turquia no mundo islâmico aos interesses e a presumida liderança da Arábia Saudita – especialmente após a derrota de seu aliado comum, Donald Trump, e o advento de um governo democrata nos Estados Unidos não muito afeito a ambos países. Além disso, há também a vitória da Turquia na última rodada de conflitos entre o Azerbaijão e Armênia.

As relações turco-sauditas estão em uma baixa histórica, e devem se deteriorar ainda mais graças a cinco acontecimentos importantes:

1. O anúncio “não-oficial” de um boicote total aos serviços e bens turcos por parte da Arábia Saudita. Os alertas aos seus cidadãos para que não comprem produtos turcos ou viagem à Turquia foram um duro golpe à deteriorada economia turca, e poderão causar uma retaliação.

2.  A emissão de uma fátua pelo Conselho de Ulemás Veteranos da Arábia Saudita que rotula a Irmandade Muçulmana, avalizada pelos turcos, como uma organização terrorista e um grupo “desviante” que não segue o Islã, mas visa explorar a religião e semear a dissensão para conquistar objetivos políticos. Isso cruza uma linha vermelha para a Turquia, já que o movimento é sua mais importante plataforma política no mundo árabe.

3. O sucesso da intervenção militar turca ao lado do Azerbaijão na guerra em Nagorno-Karabakh contra a Armênia, apoiada indiretamente pelos sauditas, rendendo elogios adicionais a Erdogan no mundo islâmico.

4. O apoio turco ao Qatar em sua disputa com a Arábia Saudita e seus aliados nos Emirados Árabes, Egito e Barém. Isso inclui a instalação de uma base militar turca no Qatar que, de acordo com reportagens da mídia ocidental, acomoda 30.000 soldados e armamentos pesados, juntamente ao estabelecimento de bases turcas na Somália, Líbia e na parte norte do Chipre (ocupada pela Turquia).

5. O uso do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi pela Turquia como meio de escalar periodicamente a pressão sobre os sauditas, constrangendo-os e atacando sua imagem internacional ao destacar suas violações de direitos humanos.

O que mais preocupa os sauditas é que a Turquia, na esteira de seu triunfo no Azerbaijão, poderia desafiá-los em duas áreas centrais: a guerra no Iêmen; e sua liderança no mundo islâmico pela custódia de locais sagrados em Meca e Medina. As duas questões são, é claro, interligadas.

Na semana passada, Yasin Aktay, o conselheiro presidencial turco e um dos confidentes mais próximos de Erdogan, publicou um artigo no veículo porta-voz do partido governista (AKP), o Yeni Safak, que foi amplamente divulgado e traduzido pelos meios de comunicação pró-turcos. Seu título é “Comparando a situação do Iêmen ao sucesso turco na Líbia, Azerbaijão e Somália”.

O artigo é como um aviso aos sauditas e aos Emirados Árabes sobre a próxima manobra da Turquia. O peso da Turquia na guerra do Iêmen alteraria toda a equação política e militar do país, dada a imensa experiência adquirida pelos turcos em suas intervenções na Líbia, Síria, Somália e, mais recentemente, no Azerbaijão.

Após louvar as conquistas de seu país nos países citado acima, Aktay escreveu sobre a Arábia Saudita e os EAU: “Suas intervenções no Iêmen nos últimos cinco anos não estão apenas longe de uma solução, mas também aprofundaram o problema, levando-o a um beco sem saída. O objetivo da Operation Decisive Storm… era defender o governo iemenita legítimo contra os houthis apoiados pelo Irã… Entretanto, os houthis não foram derrotados ao longo destes cinco anos. Isso, é claro, não é graças ao enorme poder dos houthis… entretanto, enquanto as forças da coalizão lutavam contra os houthis, elas também buscaram políticas inconfiáveis que enfraqueceram as outras forças iemenitas”.

Ele continua: “A forma de trazer estabilidade ao Iêmen seria reconhecer todas as facções do povo iemenita, e pavimentar o caminho para uma atmosfera de diálogo que garantiria uma coexistência pacífica”.

E conclui: “Caso uma solução e a estabilidade sejam realmente desejáveis no Iêmen, seria benéfico aprender com os modelos comprovadamente bem-sucedidos da Turquia na Síria, Líbia, Somália e Azerbaijão. Mas isso apenas se uma solução é realmente desejável…”

Aktay é um grande proponente da teoria do neo-otomanismo, sucessor do seu colega e doutor Ahmet Davutoglu, o ex-primeiro-ministro que rompeu com o AKP e criou seu próprio partido (Gelecek Partisi). Seu artigo pode ser visto como um rascunho do futuro papel da Turquia na Península Arábica.

Para a Arábia Saudita, isso equivale a um cerco por meio de seu ponto fraco, o Iêmen, onde foi incapaz de dar um fim, pacífico ou militar, à guerra que lançou, e onde em breve poderá enfrentar dois rivais regionais (e rancorosos) ao mesmo tempo: Turquia e Irã.

Está a atual liderança saudita atenta e consciente de tais acontecimentos? E quais políticas e posicionamentos ela propõe para combatê-los – dada a iminente derrocada de seu aliado Donald Trump, a piora nas relações com a maioria das potências regionais e muçulmanas, e seu colapso na opinião pública arábe e islâmica?

A Arábia Saudita tem apenas três opções: negociar e resolver suas disputas com a Turquia; fazer as pazes com a Síria, Irã e seus aliados do “eixo da resistência”; ou normalizar as relações e se alinhar com Israel, assim como fizeram os Emirados Árabes. Qual opção irá escolher?

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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