EUA

A retirada de Trump no Afeganistão é motivada por princípios ou razões maquiavélicas?

A decisão de Trump de reduzir o número de tropas estadunidenses no Afeganistão levantou dúvidas se ele está simplesmente cumprindo uma promessa de campanha ou apostando em obstruir a futura política externa de Biden.

Por Andrew Korybko, via OneWorld, tradução de Eduardo Pessine

Foto por Olivier Douliery.
Foto por Olivier Douliery.

A decisão de Trump de reduzir o número de tropas estadunidenses no Afeganistão, de 4500 para 2500, levantou dúvidas se ele está simplesmente cumprindo uma promessa de campanha por princípios, ou se está apostando maquiavelicamente em obstruir antecipadamente a possível política externa de Biden, caso seu oponente realmente assuma o poder após a disputada eleição presidencial.

Os americanos estão divididos sobre se Trump é um homem de palavra ou apenas um derrotado, após ter decidido reduzir o número de tropas estadunidenses no Afeganistão de 4500 para 2500. Seus apoiadores recordam como ele fez campanha sobre isso com o objetivo final de retirar completamente a presença militar dos Estados Unidos do Afeganistão, enquanto seus oponentes acreditam que ele está tentando obstruir antecipadamente a possível política externa de Biden, caso ele realmente tome o poder após a acirrada eleição presidencial. A realidade provavelmente se encontra entre os dois palpites. O presidente avança com seus planos iniciais confiando que será o vencedor da disputa eleitoral, mas também compreende muito bem que essa manobra dificultaria muito a implementação dos planos de Biden na região, no cenário em que o ex-vice-presidente assuma a liderança do país.

Ainda que Trump seja criticado até mesmo por alguns de seus apoiadores por ter bombardeado a Síria em 2017, e pelo assassinato do General Soleimani no começo deste ano, ele ainda mantém a distinção de ser o primeiro presidente estadunidense em cerca de quatro décadas a não envolver os Estados Unidos em uma nova guerra. Ao contrário, apesar de sua política agressiva do “America First” e dos chamados “ataques cirúrgicos” e “pressão máxima”, e outras medidas coercitivas contra os adversários do país, Trump se manteve comprometido em dar um fim às “guerras sem fim” dos EUA ao redor do mundo. Em nenhum lugar isso fica mais evidente do que no Afeganistão, local da guerra mais longa da história americana. A seriedade de Trump em executar essa visão ambiciosa é tanta que ele aprovou até mesmo negociações entre seu governo e o Talibã, ainda sendo este último designado oficialmente como grupo terrorista, contradizendo sua promessa de campanha em 2016 de “tolerância zero” em relação ao que chama de “terroristas islâmicos radicais”.

Para Trump, o pragmatismo é mais importante do que a politicagem, algo que é geralmente apreciado por sua base, em contraste ao seus antecessores. Ao contrário do que seus oponentes alegam, entretanto, ele não está apenas retirando-se imprudentemente de uma região devastada pela guerra sem nenhum “plano B”, mas vislumbra um engajamento americano com o país e a Ásia Central que seja mais economicamente motivado no futuro, como elaborado por Pompeo em fevereiro. O autor analisou essa nova visão, na época, em um artigo sobre como “a estratégia estadunidense para a Ásia Central não é sinistra, mas isso não significa que será bem-sucedida”. No essencial, significa que os EUA podem expandir os recentes ganhos infraestruturais do Paquistão sob o CPEC para usar o “estado pivô global” como uma plataforma para estrear um corredor comercial trans-afegão para a Ásia Central. Essa seria uma forma mais pacífica dos EUA competirem com a Rússia, China e Turquia nesta região estratégica.

Biden, entretanto, deu sinais de que poderá nomear a falcão neoliberal Michele Flournoy como Secretária de Defesa caso “vença” a eleição. Ela tem sido criticada por muitos como uma belicista que poderá levar os EUA novamente à estratégia de “guerras sem fim” e “intervenções humanitárias”, o que seria o exato oposto de como a política externa tem sido conduzida por Trump nos últimos quatro anos. Os democratas já estão repudiando sua retirada do Afeganistão como “perigosa”, então é provável que eles pretendiam ao menos manter o número anterior de tropas por mais tempo, ou possivelmente até mesmo aumentar esse contingente, como uma variação mais branda da “escalada” da era Obama. Não parece que há muito apetite até mesmo dentre esses ideólogos em ampliar a guerra em qualquer sentido tradicional, especialmente quando a situação geoestratégica na região mudou tanto desde os governos Obama, mas seus planos seriam, ainda assim, menos pacíficos do que de Trump.

Já que ainda é incerto se o atual presidente continuará ou não no cargo, faz sentido que ele também tente obstruir as políticas de seu potencial sucessor, não apenas por uma implicância mesquinha, mas para garantir seu próprio legado. Ao reduzir a presença estadunidense no Afeganistão quase pela metade da atual (que já é muito menor do que herdou do governo anterior), Trump dificulta que a equipe de Biden sabote o sensível processo de paz que ele supervisionou nos últimos quatro anos. Isso não significa que eles não poderiam, ainda assim, arruinar tudo caso assumam o poder, mas que terão mais dificuldades e que seus esforços subversivos serão muito mais evidentes. É, portanto, com esses pontos em mente, que o autor conclui que Trump tomou essa decisão tanto por princípios, quanto por razões maquiavélicas.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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