África

A guerra na Etiópia ameaça engolir o Chifre Africano

O plano de fundo da guerra na Etiópia é a tentativa de Washington e dos estados do Golfo Árabe de dissociar a Etiópia dos planos de desenvolvimento econômico global da China.

Por Finian Cunningham, via Strategic Culture Foundation, tradução de Eduardo Pessine

Membros da milícia amahara, que lutam juntamente às forças federais e regionais contra a região do Tigré, ao norte, atravessam a cidade de Gondar, na Etiópia, 8 de novembro de 2020. Foto por Eduardo Soteras.
Membros da milícia amahara, que lutam juntamente às forças federais e regionais contra a região do Tigré, ao norte, atravessam a cidade de Gondar, na Etiópia, 8 de novembro de 2020. Foto por Eduardo Soteras.

As duas semanas de guerra civil na Etiópia estão agora envolvendo o país vizinho, a Eritreia. Os dois países já travaram uma guerra fronteiriça de dois anos (1998-200) que resultou em 100.000 mortos. Mas em uma reviravolta singular, o governo central etíope em Addis Ababa está aliando-se com a Eritréia para travar uma guerra contra seu próprio povo, na região do Tigré, ao norte.

O governo central eritreu também exigiu que o Sudão do Sul enviasse 4.000 soldados para fortalecer a ofensiva contra o Tigré.

As lideranças da Frente de Libertação Popular do Tigré (TPLF, em inglês) assumiram o lançamento de alguns foguetes contra o aeroporto em Asmara, a capital da Eritreia, no fim de semana. Aparentemente não houveram mortes, mas a TPLF afirmou que o aeroporto era um alvo legítimo pois estava sendo utilizado para despachar aviões das forças federais etíopes para atacar o Tigré. Zonas civis em Mekelle, a capital regional do Tigré, foram atingidas por bombardeios aéreos. Washington condenou o ataque contra Asmara como “injustificável”, entretanto não condenou os ataques aéreos contra o Tigré.

Os líderes tigrés afirmam que travam uma guerra em duas frentes: contra as forças federais da Etiópia vindas do sul, e contra as forças armadas eritreias, vindas do norte.

Ainda mais alarmante, há relatos de que os Emirados Árabes Unidos estão utilizando drones de combate para apoiar o eixo Eritreia-Etiópia. Os EAU mantém uma base aérea na cidade portuária eritreia de Assab, no Mar Vermelho, de onde têm enviado drones ao Iêmen, na guerra contra os rebeldes houthis.

O primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed tem rejeitado os apelos das Nações Unidas por negociações de paz. Eles acusa a TPLF de traição e terrorismo, e tem chamado sua ofensiva contra a região de cinco milhões de habitantes uma “operação de lei e ordem”. Isso é desmentido pelas escancaradas táticas de cerco e punição coletiva contra a população civil. A região teve a eletricidade e o abastecimento de água cortados. Os aviões de Abiy bombardearam uma estação hidroelétrica em Tekezé, no Tigré, na última semana, além de uma fábrica de açúcar. Os bombardeios contra zonas civis feitos por suas tropas equivalem a crimes de guerra e terrorismo de estado.

Lembremos que Abiy foi premiado com o Nobel da Paz no ano passado, além de ser retratado pela mídia ocidental como um “reformador liberal”. Abiy venceu o prêmio pela suposta pacificação com a Eritreia logo após tornar-se primeiro-ministro da Etiópia, em abril de 2018. Como ele ascendeu ao poder ainda é um mistério que envolve acordos políticos de bastidores. Ele não foi eleito.

De qualquer forma, o que é curioso sobre o dito “entendimento” com o ditador eritreu Isaias Afewerki é que pouco se sabe sobre suas discussões privadas. Nenhum detalhe sobre o perpetrado acordo de paz chegou a ser publicado. Abiy, que vêm da etnia oromo, nunca consultou o povo tigré sobre as negociações com Afewerki, mesmo tendo sido eles a etnia que mais sofreu com a guerra fronteiriça de 1998-2000. Sentiu-se fortemente que Abiy estava acertando um acordo em prol de seus próprios interesses. Estranhamente, além disso, a aparentemente reaproximação foi patrocinada pelos Emirados Árabes Unidos, cuja monarquia doou floreadas medalhas e correntes de ouro a Abiy e Afewerki por seus “esforços de paz” (um pagamento em espécie no valor de alguns milhões de dólares).

Mas na prática, o povo do Tigré e da Eritreia (ambos são etnicamente tigrés e compartilham descendências familiares) não viram normalização nenhuma nas relações. As fronteiras continuam fechadas e as famílias continuam impedidas de visitar umas às outras.

Isso sugere que o Prêmio Nobel a Abiy foi mais uma jogada de relações públicas para construir uma imagem internacional favorável. Os elogios têm sido úteis durante a recente ofensiva contra o Tigré. A mídia ocidental menciona rotineiramente seu Prêmio Nobel juntamente às alegações de conduzir uma “operação de lei e ordem” contra os “terroristas da TPLF”. O Nobel lhe dá uma vital credibilidade. Sem ele, suas ações seriam vistas mais claramente como o que realmente são: crimes contra a humanidade.

Desde que Abiy ascendeu ao poder, a Etiópia tem mergulhado no caos e em embates violentos entre seus diversos grupos étnicos. A mídia ocidental normalmente noticia que a desordem é resultado de “reformas” que, segundo se diz, “abriram os olhos” sobre as tensões internas. A mídia nunca explica como exatamente estas “reformas” magicamente fizeram isso.

O que estas reformas significam é a formação de um regime de partido único sob a liderança de Abiy. Ele dissolveu uma coalizão de partidos no ano passado, conhecida como a Frente Popular Democrática Revolucionária Etíope (EPRDF, em inglês) para formar o Partido da Prosperidade, sob sua liderança. Abiy foi anteriormente Ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo da EPRDF, o que contradiz as alegações de que o antigo regime privilegiava a TPLF. De qualquer forma, a facção tigré recusou a unir-se ao seu novo partido único. Então, Abiy cancelou as eleições marcadas para este ano, alegadamente devido à pandemia de Covid-19. A TPLF acusou-o de almejar poderes ditatoriais e realizou eleições regionais em setembro. Ele nunca foi eleito pelo voto popular.

Isso parece ter sido o motivo que impulsionou Abiy a finalmente subjugar a oposição da TPLF.

Uma ofensiva contra a TPLF sempre foi uma carta na manga de Abiy, desde que ascendeu ao poder há mais de dois anos. Tem sido fácil para ele descartar incumbentes dos nove governos regionais da Etiópia e substituí-los por seus lacaios. Essa remodelação foi o que causou grande parte da violência inter-étnica, ou ao que a mídia ocidental refere-se modestamente como “abrir os olhos” sobre as tensões. Não foi o caso na região do Tigré, que sempre foi forte política e militarmente. Os tigrés suspeitam há tempos de Abiy como um “cavalo de Tróia” cuja função é enfraquecer a independência política e econômica da Etiópia, visando realinhar a nação estrategicamente importante, afastando-a da parceria com a China para abrir-se ao capital ocidental. Fontes etíopes afirmam que Abiy foi recrutado pela CIA quando serviu como tenente-coronel de inteligência militar, criando vínculos com suas contrapartes americanas, antes de adentrar na política. Ironicamente, ele acusa a oposição tigré de “traição”.

Esse é o plano de fundo geopolítico da eclosão da guerra na Etiópia. Washington e os estados do Golfo Árabe visam dissociar a Etiópia dos planos de desenvolvimento econômico global da China, conhecidos como as “Novas Rotas da Seda”.

Ao fazer isso, entretanto, o segundo país africano mais populoso está sendo mergulhado em uma guerra catastrófica que também ameaça engolir o Chifre Africano. É a geopolítica de terra arrasada.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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