Internacional

A RCEP embarca nas Novas Rotas da Seda

A RCEP marca definitivamente o fracasso irreversível da falácia do “desacoplamento”, assim como todas as tentativas de provocar uma cisão entre a China e seus parceiros comerciais do Leste Asiático.

Por Pepe Escobar, via Asia Times, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

A Índia anunciou em novembro a saída da RCEP, temendo que seu setor agrícola fosse inundado por importações. Ilustração por Hiroko Oshima.
A Índia anunciou em novembro a saída da RCEP, temendo que seu setor agrícola fosse inundado por importações. Ilustração por Hiroko Oshima.

Ho Chi Minh, em sua morada eterna, contempla isso tudo com um sorriso celestial. O Vietnã foi o anfitrião (virtual) da 37ª cúpula da ASEAN, onde ocorreu, no último dia, a assinatura da Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP, em inglês) entre as 10 nações da ASEAN, China, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia.

A RCEP, em construção há 8 anos, reúne 30% da economia global e 2,2 bilhões de pessoas. É o primeiro marco promissor dos “Raging Twenties”, que iniciaram-se com um assassinato (do general iraniano Soleimani), seguido de uma pandemia e, agora, insinuações nefastas de um “Great Reset”.

A parceria sela inegavelmente o Leste Asiático como o eixo primário da geoeconomia. O Século Asiático já estava sendo construído, na verdade, desde os anos 1990. Dentre os asiáticos e expatriados ocidentais que o identificaram, eu publiquei meu livro em 1997: 21: O século da Ásia (trechos aqui).

Este acordo poderá forçar o ocidente a fazer o dever de casa, e compreender que o ponto central aqui não é que a RCEP “exclui os Estados Unidos”, ou que é “projetada pela China”. A RCEP é um acordo do Leste da Ásia, iniciado pela ASEAN, e debatido entre iguais desde 2012, incluindo o Japão, que na prática, posiciona-se como parte do Norte Global industrializado. É o primeiro acordo já feito que une pesos-pesados asiáticos como a China, Japão e Coreia do Sul.

Já está claro, ao menos em vastas faixas do Leste da Ásia, que os 20 capítulos da RCEP reduzirão tarifas em todos os setores; simplificará impostos, com ao menos 65% dos setores de serviços totalmente abertos, com maiores limites de participação acionária estrangeira; solidificará as cadeias de fornecimento ao privilegiar regras comuns de origem; e codificará novas regulações de comércio virtual.

Tratando do essencial, as empresas economizarão e poderão exportar para qualquer lugar dentre o espectro de 15 nações sem preocupar-se com requerimentos extras de cada país. É disso que se trata um mercado integrado.

Quando a RCEP encontra a BRI

O mesmo disco arranhado continuará tocando sobre como a RCEP facilita as “ambições geopolíticas” da China. Esse não é o ponto. O ponto é que a RCEP evoluiu como uma companhia natural do papel da China como principal parceira comercial de virtualmente cada ator do Leste da Ásia.

O que nos leva ao ponto de vista geopolítico e geoeconômico central: a RCEP é uma companhia natural à Belt and Road Initiative (BRI, ou “Novas Rotas da Seda”), que como uma estratégia comercial e de desenvolvimento sustentável, abrange não apenas o Leste da Ásia, mas também mergulha na Ásia Central e Oeste.

A análise do Global Times é correta: o ocidente não cessou de distorcer a BRI, sem reconhecer como “a iniciativa que eles têm difamado é, na verdade, muito popular na vasta maioria dos países incluídos nas Novas Rotas da Seda”.

A RCEP irá reenquadrar a BRI – cujo estágio de “implementação”, de acordo com o cronograma oficial, começa apenas em 2021. O financiamento de baixo-custo e os empréstimos especiais de câmbio estrangeiro oferecidos pelo Banco de Desenvolvimento da China se tornarão muito mais seletivos.

Haverá muita ênfase na Rota da Seda da Saúde – especialmente através do Sudeste Asiático. Projetos estratégicos serão prioridade: eles giram ao redor do desenvolvimento de uma rede de corredores econômicos, zonas logísticas, centros financeiros, redes 5G, portos chave e, especialmente no curto e médio-prazo, tecnologia de ponta relacionada à saúde pública.

As discussões que levaram ao rascunho final da RCEP focaram em um mecanismo de integração que poderá burlar facilmente a OMC, caso Washington insista em sabotá-la, como ocorreu durante o governo Trump.

O próximo passo será a constituição de um bloco econômico mais forte do que a União Europeia – uma possibilidade não muito remota, quando temos China, Japão, Coreia do Sul e a ASEAN trabalhando juntos. Geopoliticamente, o incentivo principal, para além de uma matriz de compromissos financeiros imperativos, seria solidificar algo nas linhas de “faça comércio, não faça guerra”.

A RCEP marca o fracasso irreversível do TPP de Obama, que seria o braço comercial do “pivô para Ásia” da OTAN, sonhado pelo Departamento de Estado. Trump esmagou o TPP em 2017. O TPP não tratava-se de um “contrapeso” à primazia chinesa na Ásia: tratava-se de um “vale-tudo” para as 600 multinacionais que estavam envolvidas em seu rascunho. O Japão e a Malásia, especialmente, perceberam isso desde o início.

A parceria também marca definitivamente o fracasso irreversível da falácia do “desacoplamento”, assim como todas as tentativas  de provocar uma cisão entre a China e seus parceiros comerciais do Leste Asiático. Todos estes atores asiáticos irão agora privilegiar o comércio entre si. O comércio com nações não-asiáticas será agora secundário. E cada uma das economias da ASEAN dará prioridade total à China.

Ainda assim, as multinacionais americanas não estão isoladas, já que poderão lucrar com a RCEP através de suas subsidiárias nos 15 estados membros.

E a Grande Eurásia?

Chegamos então à trapalhada proverbial da Índia. A desculpa oficial de Nova Deli é que a RCEP “afetaria o sustento” de indianos vulneráveis. Se referem, na verdade, à invasão de produtos chineses baratos e eficientes.

A Índia fez parte das negociações da RCEP desde o início. Abandoná-la – com uma condicionante de “talvez entraremos depois” – é novamente um caso espetacular de tiro no próprio pé. O fato é que os fanáticos hindutva por trás do modismo apostam no cavalo errado: a parceria Quad e a estratégia do Indo-Pacífico, promovidas pelos Estados Unidos, que fedem à contenção da China e, assim, impedem laços comerciais mais estreitos.

Nenhuma “Make in India” compensará a gafe geoeconômico e diplomática – que implica crucialmente o distanciamento da Índia em relação à ASEAN. A RCEP solidifica a China, não a Índia, como o motor incontestável do crescimento do Leste Asiático, em meio ao reposicionamento das cadeias de abastecimento pós-Covid.

Uma sequência geoeconômica muito interessante será a atitude da Rússia. Por enquanto, a prioridade de Moscou envolve um trabalho sísifo: administrar a relação turbulenta com a Alemanha, o maior parceiro de importações da Rússia.

Mas há também a parceria estratégica Rússia-China – que deverá ser aprimorada economicamente. A concepção russa da Grande Eurásia engloba um envolvimento mais profundo entre ocidente e oriente, incluindo a expansão da União Econômica Eurasiana (EAEU, em inglês), a qual, por exemplo, possui acordos de livre-comércio com nações da ASEAN, como o Vietnã.

A Organização de Cooperação de Xangai (SCO, em inglês) não é um mecanismo geoeconômico. Mas é intrigante observar o que foi dito no discurso de Xi Jinping para o Conselho de Chefes de Estado da SCO, na semana passada.

Essa é a citação principal de Xi: “Nós devemos apoiar firmemente países relevantes no avanço estável de grandes agendas políticas domésticas de acordo com a lei; mantendo segurança política e estabilidade social, e opondo-se categoricamente à interferência de forças externas em assuntos internos de estados membros sob qualquer pretexto”.

Aparentemente, isso nada tem a ver com a RCEP. Mas existem algumas interseções. Não interferência de “forças externas”. Pequim levando em consideração a carência de vacinas de Covid-19 dos membros da SCO – o que poderia se extender à RCEP. A SCO – assim como a RCEP – como plataformas multilaterais para mediar disputas entre estados membros.

Tudo acima aponta para a interseccionalidade entre BRI, EAEU, SCO, RCEP, BRICS+ e AIIB, o que se traduz em maior integração geoeconômica e geopolítica da Ásia – e da Eurásia. Enquanto os cães da distopia ladram, a caravana asiática – e eurasiana – continua marchando.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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