Ásia

O romance não-correspondido da Índia com Trump

Os governos Trump e Modi saudaram avidamente seus laços como grandes democracias. Na prática dessa relação, entretanto, a Índia tem emergido como um sócio subalterno do imperialismo estadunidense.

Por Abdul Rahman, via Peoples Dispatch, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Foto por Adnan Abid.
Foto por Adnan Abid.

Os governos Trump e Modi saudaram avidamente seus laços como grandes democracias. Na prática dessa relação, entretanto, a Índia tem emergido como um sócio subalterno do imperialismo estadunidense.

Pouco antes de sua aposta na reeleição, o governo estadunidense de Donald Trump foi bem-sucedido em assinar um crucial acordo de defesa com a Índia. O Basic Exchange and Cooperation Agreement (BECA) permite que ambos os países compartilhem dados geoespaciais confidenciais para funções de defesa. Dada a assimetria de poder entre ambos países, não é nenhum segredo que o acordo garante mais vantagens aos Estados Unidos do que à Índia. A jogada está sendo vista como mais um passo em direção ao processo gradual de submissão da política externa independente da Índia às ambições imperialistas estadunidenses na região.

De forma geral, Trump tem mantido uma postura aparentemente pró-Índia ao longo de seu mandato, chegando a chamar o país de “o maior e mais leal amigo” dos EUA. O governo indiano também nunca perdeu uma oportunidade de se gabar sobre a amizade entre “as duas maiores e melhores democracias do mundo”. Entretanto, tal retórica só tem servido para pressionar a Índia a sacrificar cada vez mais pela manutenção dessa amizade. Na prática, a relação entre Índia e Estados Unidos é assimétrica, na qual o último tem conseguido ditar os termos sem dar nada em troca.

Mito e realidade

O governo do Partido Bharatiya Janata (BJP, em inglês), liderado por Narendra Modi, tem dependido excessivamente de suas similaridades ideológicas com os Republicanos nos EUA, e em particular da “amizade” de Modi com Trump. O retrato das semelhanças entre ambos os líderes é uma das maneiras centrais pela qual o BJP promove o mito de um laço cada vez mais forte entre os dois países. A condição atual da Índia, tornando-se subserviente às necessidades imperialistas dos Estados Unidos na região sul da Ásia é ofuscada por slogans como a “Parceria Estratégica Global”, anunciada durante a última visita de Trump à Índia, em março.

Para destacar alguns fatos cruciais, em comparação com os governos americanos anteriores, Trump causou maiores danos ao comércio indiano quando revogou sua condição comercial preferencial, em junho do ano passado, e ao recusar-se repetidamente a assinar um novo acordo. Durante sua última visita em março, um acordo comercial estava no horizonte, porém ele acabou sendo adiado até as eleições estadunidenses.

Sobre a questão dos imigrantes, o governo Trump primeiramente restringiu e depois utilizou a pandemia de Covid-19 para suspender completamente a emissão de vistos H1B, do qual os profissionais indianos são os maiores beneficiários.

Trump vê a Índia, de um ponto de vista estratégico, como um potencial comprador de armamentos, assim como outros países. Armas americanas estavam em pauta no acordo recentemente concluído entre os EUA e Índia que também levou ao BECA. Na verdade, o governo Trump pressionou a Índia a comprar suas armas em toda ocasião possível. Trump usou sua última visita ao país asiático para assinar um importante acordo de vendas de armas avaliado em mais de US$ 3 bilhões. Os EUA também ameaçaram sancionar a Índia pela compra de sistemas anti-mísseis russos.

O governo Trump também tem forçado a Índia a tomar posturas em questões que prejudicam os interesses indianos. A Índia foi um dos primeiros países a parar de importar petróleo iraniano após a saída unilateral de Trump do acordo nuclear de 2018 e a imposição de sanções unilaterais contra o Irã. A submissão da Índia aos ditames estadunidenses sobre o Irã a custou um fornecedor crucial e confiável de recursos energéticos. A Índia também perdeu uma rota terrestre crucial para a Ásia Central através do Irã, além de possibilidades de investimento em projetos de infraestrutura iranianos, como o porto de Chabahar e os campos de petróleo Farzad B, graças à insistência americana para que a Índia não saísse da linha.

A colaboração anti-China

Um grande sucesso do governo Trump tem sido utilizar a “carta chinesa” em sua vantagem, sem benefícios significativos para a Índia. Nessas circunstâncias, os dirigentes indianos recusam-se a examinar se a promoção dos objetivos imperialistas dos EUA na região resolverá a questão Índia-China e se é de interesse indiano. Por outro lado, Trump espera impulsionar suas chances eleitorais assinando acordos importantes como o BECA, para colocar-se como um paladino contra a “crescente ameaça chinesa”.

O Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, tem sido, entretanto, mais claro em relação à verdadeira agenda por trás da crescente bonomia com a Índia. Durante sua recente visita ao país, para assinatura do BECA, Pompeo continuou sua propaganda anti-China, dizendo que “nós [Estados Unidos e Índia] temos muito a discutir hoje, da cooperação no combate à pandemia originada em Wuhan, à confrontação das ameaças do Partido Comunista Chinês à segurança e à liberdade, à promoção da paz e da estabilidade na região”.

O impulso indiano para confrontar a China sob o governo direitista de Modi tem permitido que os Estados Unidos utilizem explicitamente o território indiano para propaganda anti-China. A Índia também se tornou um membro ativo da iniciativa QUAD, que estava em putrefação desde sua formação em 2007-2008. O governo indiano anterior hesitou em relação à postura claramente anti-China do grupo. Entretanto, isso não impediu o governo Modi de desempenhar um papel central em seu avivamento. Além da Índia, o agrupamento anti-China do QUAD inclui dois dos mais próximos aliados militares dos Estados Unidos: Japão e Austrália. A Índia anunciou um exercício naval conjunto com os demais membros do QUAD no próximo mês para preparar-se para a explícita agenda norte-americana de manter a “liberdade de navegação” no Mar do Sul da China e no Oceano Índico.

Os dirigentes indianos têm demonstrado um visão míope vis-a-vis a China, considerando a disputa fronteiriça entre os país como uma razão para se tornarem paladinos das tentativas imperialistas dos EUA em cercar e conter a China. Isto é contrário aos interesses indianos, dado que a China é o segundo maior parceiro comercial da Índia, com imenso potencial de crescimento mútuo. Enquanto isso, a China tem repudiado repetidamente a formação do QUAD, chamando-o de uma tentativa americana de criar uma OTAN do Indo-Pacífico.

Imitando Trump, a Índia também tentou responsabilizar a China pela pandemia de Covid-19 e seu impacto na economia global. Seguindo seus passos, a Índia não apenas baniu algumas empresas chinesas de tecnologia, mas também restringiu os investimentos chineses no país. Haverá também pressões maiores sobre a Índia em relação ao banimento da Huawei e de sua tecnologia 5G.

As eleições estadunidenses e o dilema indiano

O eleitorado norte-americano de origem indiana é de cerca de 1%, assim, eles não terão um papel significativo na escolha do próximo presidente. Os americanos de origem indiana são geralmente considerados pró-democratas, principalmente por serem uma minoria imigrante. Os republicanos, por outro lado, tem sido vistos como anti-imigração e anti-minorias. Nesta eleição, espera-se também que a diáspora indiana nos Estados Unidos vote majoritariamente pelo candidato democrata, Joe Biden. Entretanto, há ao menos um setor da diáspora que tem apoiado a causa de Trump e do Partido Republicano. Isso tem relação com as preferências conservadoras do governo Modi, que têm ganhado espaço, e também com a operação de grupos direitistas dentre a comunidade indiana. Modi foi criticado por apoiar Trump abertamente durante sua última visita aos EUA. Ainda que o governo indiano tenha diminuído recentemente seus apoios estusiasmados, graças à vantagem significativa que Biden alcançou sobre Trump, o viés continua óbvio.

Dado a incerteza sobre os resultados das eleições norte-americanas e a natureza da política de Biden em relação à China, a utilidade futura do QUAD e do BECA para os EUA ainda não está clara. Estes acordos podem ou não ter um impacto prático, mas eles traçam o caminho para a submissão indiana aos planos estadunidenses de cerco à China. Eles também tornam a Índia um sócio subalterno dos Estados Unidos, já que as ambições imperialistas americanas têm pouco a ver com mudanças na presidência.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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