Brasil

Anti-imperialismo ou puxadinho do Partido Democrata?

Não há nenhum indício de que Bolsonaro sairá enfraquecido com uma vitória democrata – e mesmo se saísse, isso não significaria automaticamente uma vitória popular, como pregam os supostos ‘pragmáticos’.

Por Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Foto por Marie Hippenmeyer.

Ao contrário do que afirmam os meios e organizações da esquerda liberal, em coro com a mídia hegemônica estadunidense, ainda não está definido o vencedor das eleições presidenciais dos Estados Unidos. A decisão oficial será feita no dia 6 de janeiro, após uma reunião do Congresso, que contará os votos do Colégio Eleitoral – lembremos, não há voto direto para a presidência nos Estados Unidos, de acordo com a constituição – e declarará finalmente o próximo líder imperial.

Sendo assim, observamos no plano internacional o silêncio dos estadistas dos poucos países soberanos (Rússia e China, por exemplo). Isso não é mera coincidência. As eleições dos EUA possuem um caráter internacional, já que definem em alguma medida a política imperial em relação ao restante do mundo. Entretanto, é indispensável, para um país de dimensões como a do Brasil, e para aqueles que aspiram e praticam a soberania política, um distanciamento de seu processo. Em outras palavras, Putin e Xi, por exemplo, não são cativos de ilusões em relação ao resultado das eleições, e compreendem que, acima do mandatário estadunidense, a política de estado da nação “excepcional” é uma política imperialista e agressiva. Isso é uma constante na história norte-americana.

Agora vejamos a situação brasileira. Além das vexaminosas comemorações (!) em relação à “vitória” de Biden – um criminoso de guerra, genocida, corrupto e pervertido – e Kamala Harris – com um amplo histórico de associação ao estado profundo e de atuação racista e anti popular como promotora-chefe de São Francisco – que se estenderam desde ‘radicais trotskistas’ até protofascistas neoliberais e que escancaram a brutal ingenuidade política da qual o liberalismo de esquerda é cativo, diversas lideranças políticas da ‘esquerda’ se adiantaram para parabenizar o ‘vencedor’.

Ciro Gomes, um dos proponentes da dita ‘frente ampla’ contra o ‘bolsonarismo’ (e não contra a dominação imperialista no país), chegou ao ponto patético de enviar um telegrama ao candidato democrata, parabenizando-o. É, na prática, um pedido de joelhos pelo cargo de emissário do Partido Democrata no Brasil.

Lula foi ainda mais longe em suas declarações: afirmou que “o mundo respira aliviado com a vitória de Biden”. Só esqueceu-se de definir a qual ‘mundo’ se refere – certamente não é a periferia do mundo, aquela que sofreu com milhões de mortes graças às ações imperialistas de Barack Obama e Joe Biden na última década,  seja pelas intervenções militares em África e no Oriente Médio, seja pela brutais sanções econômicas contra Cuba, Irã e Coreia Popular, que estrangulam seus povos pelo simples ‘crime’ de desejar sua autodeterminação.

Afirmou também que “o povo norte-americano se manifestou contra o trumpismo e tudo o que ele representa, de rejeição de valores humanos, ódio, abandono da vida e agressões contra nossa querida América Latina” – omitindo deliberadamente que o ‘golpe’ e a espionagem contra o governo de Dilma Rousseff, a ofensiva brutal contra o povo venezuelano, ocorreram todos pelas mãos de Barack Obama e Joe Biden. Uma postura miserável.

Ambos expoentes da ‘frente ampla’ – ou podemos chamar de ‘puxadinho do Partido Democrata” – escolhem o lado do imperialismo, ignorando o inferno causado no mundo pela ação do governo estadunidense. Esquecem-se (ou fingem) que, no caso de uma verdadeira libertação nacional do Brasil, todas essas ações sanguinárias e desumanas do império que ousam esconder se voltariam imediatamente contra nós, brasileiros.

O suposto ‘pragmatismo’ em relação a Bolsonaro

O principal argumento dos supostos ‘pragmáticos’ é que, apesar dos enormes defeitos de Joe Biden – dos quais todos eles estão ‘cientes’, sem entretanto tirar disto quaisquer consequências políticas – sua vitória nas eleições estadunidenses seria motivo de comemoração por, supostamente, enfraquecer o governo Bolsonaro.

Ora, isto representa outra ilusão colossal. Primeiro, alude à idéia de que Bolsonaro em si seria o eixo central da destruição nacional levada a cabo por seu governo. Esquecem-se de que a ‘queda’ de Bolsonaro poderia facilmente ser seguida de uma figura mais ‘palatável’ que, na prática, aplicaria as mesmas políticas, o que não mudaria em nada a condição do Brasil tanto no plano interno, quanto do plano internacional.

Segundo, compreende erroneamente que o recente alinhamento (ou subordinação) total do Brasil aos Estados Unidos se daria por uma simples ‘afinidade ideológica’ entre Trump e Bolsonaro, e que com Biden, essa relação estaria comprometida. Esquecem-se completamente que a subordinação do Brasil, e da América Latina como um todo, representa uma política de estado secular para os Estados Unidos, e tem relação direta com sua doutrina imperialista e de segurança nacional. A recente ofensiva tem relação com o aprofundamento da crise econômica e social dentro dos EUA, requerendo uma maior drenagem de recursos, o que casa com os interesses da burguesia interna, que necessita de uma maior exploração da força de trabalho. Vêem as coisas de maneira invertida: Bolsonaro seria a causa, e não a consequência da ofensiva imperialista, o que não se sustenta sob uma análise da realidade concreta.

Não há então, nenhum indício de que Bolsonaro sairá enfraquecido com uma vitória democrata – e mesmo se saísse, isso não significaria automaticamente uma vitória popular, como pregam os supostos ‘pragmáticos’. Não há – caso se vá além das picuinhas midiáticas sem nenhuma importância envolvendo Bolsonaro – absolutamente nada a se comemorar.

Onde foi parar o anti-imperialismo brasileiro?

Observando estas circunstâncias, fica claro que não existe, ao menos nas fileiras da ‘esquerda’ hegemônica, uma consciência anti-imperialista. Consciência essa que é determinante para a ação política – principalmente aqui, na América Latina, o ‘quintal’ dos Estados Unidos.

Enquanto houver imperialismo não haverá soberania para o Brasil. Mas para as grandes lideranças da esquerda liberal, como Ciro e Lula, o imperialismo é um mero detalhe, e a atuação genocida do governo norte-americano ao redor do mundo é apenas um ‘detalhe’ que não merece menção.

É urgente resgatar uma tradição anti-imperialista e verdadeiramente nacionalista para o Brasil. Sem isso, seremos eternamente o ponto irradiador da dominação estadunidense na América Latina. Não há outra saída.

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