América Latina

Com Biden, tudo muda e nada muda para a América Latina e o Caribe

O triunfo de Joe Biden levantou diversas dúvidas: entre elas, se conseguirá e para quê assumirá o comando. A grande vantagem que tem em relação ao seu antecessor é que, ao menos, sabe onde se encontra seu quintal.

Por Aram Aharonian, via CLAE, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Imagem por Soohee Cho.
Imagem por Soohee Cho.

Não há dúvidas de que nada mudaria para a América Latina e  o Caribe caso Donald Trump conquistasse sua reeleição. O triunfo de Joe Biden levantou diversas dúvidas: entre elas, se conseguirá e para quê assumirá o comando. A grande vantagem que tem em relação ao seu antecessor é que, ao menos, sabe onde se encontra seu quintal.

O novo presidente receberá enormes pressões para frear muitas das mudanças radicais em temas que vão desde a política externa, até a crise climática. Considerando o que tentou até os últimos dias, Trump buscou algum êxito em matéria de política externa, que incluíam um acordo de paz para o Oriente Médio, a retirada de tropas de distintos países e conseguir a liberação de reféns estadunidenses que supostamente se encontram capturados na Síria.

Mas não se pode esquecer que Biden, o ex-vice-presidente de Barack Obama, está em idade muito avançada, já incapaz de falar coerentemente. Ele será o rosto do governo, e não quem tomará as decisões – que estarão a cargo do lobby da elite globalista, do grande capital transnacional, da Rede Atlas e sua rede de think tanks de direita, de Wall Street, do estado profundo e, obviamente, do complexo industrial-militar.

Ele pode parecer bobo, mas é tão poderoso quanto o próprio globalismo. Por sorte, Kamala Harris, a primeira vice-presidente mulher eleita dos EUA, tem 56 anos, 22 anos mais nova que o próximo presidente. E quando assumirem, em janeiro de 2021, já poderão ter morrido mais de 350 mil estadunidenses devido ao coronavírus.

As relações com o quintal

Se vence Biden, haverá uma aceleração da realocação de indústrias, muitas delas na América Latina, que é muito mais próxima do ponto de vista não só geográfico, mas também ideológico. Indústrias em setores como tecnologia, armazenamento de dados, suprimentos médicos e até mesmo de energia.

A Argentina, Chile e Bolívia, em particular, são muito importantes, pois um dos setores estratégicos para a economia verde norte americana é a mineração de recursos estratégicos como o lítio, e também das terras raras que se encontram na América Latina (e assim não será necessário importar da China), imprescindíveis para o desenvolvimento de setores estratégicos como o militar e de supercomputadores.

Acredita-se que Biden deverá apostar em um grande ‘Plano Marshall’ para a América Central e gerar emprego nestes países. Assim melhoraria a economia… e acabaria com a imigração ilegal. O que propõe é o ‘rebuild better’, ou reconstruir melhor. Não se pode voltar atrás, pois o mundo já não é e não será igual.

Para a equipe econômica do democrata, a nível de sustentabilidade, é preciso basear a recuperação da economia em um eixo ‘verde’, apostar em infraestruturas, eficiência energética, energias renováveis, armazenamento de energia; ou seja, para todos estes setores, a inovação e pesquisa são absolutamente estratégicos. E isso, vindo das mãos das grandes transnacionais estadunidenses, também tem um impacto na América Latina.

Expectativas

Quatro anos depois de se sacudir com a chegada de Donald Trump ao poder, muitos esperam que a política estadunidense em relação à América Latina sofrerá uma mudança brusca, dadas as declarações de Biden sobre aumentar a cooperação continental em questões relacionadas ao êxodo na região, como a violência, pobreza e a importância de outros assuntos da agenda hemisférica, incluindo os direitos humanos, meio-ambiente e corrupção.

Isso colocará à prova o vínculo de Washington com países como o México e Brasil, segundo especialistas. Diplomatas e ex-oficiais estadunidenses sustentam que suas posições em matéria de comércio, direitos humanos, mudança climática e luta contra a corrupção poderiam resultar em incômodos para alguns dos governantes da região, acostumados com a ‘vista grossa’ de Trump.

Teme-se que a posição de Biden em relação ao comércio, trabalho e meio-ambiente será muito mais dura que de Trump..

A América Latina não será uma prioridade, especialmente para um presidente que enfrentará uma grave crise econômica e sanitária, com o México sendo o principal foco de atenção devido a sua grande fronteira terrestre – fonte de imigração ilegal e narcotráfico – e a sua condição de grande sócio comercial e de investimentos. Biden prometeu dar fim a muitas das políticas imigratórias de Trump e cessar a construção do muro na fronteira mexicana. Veremos.

Isso traz seus próprios riscos. Thomas Shannon, um ex-oficial do Departamento de Estado, afirmou: ‘O maior desafio, a princípio, talvez seja o tema da imigração. Há uma pressão real para que se revertam as medidas migratórias, de refugiados e asilo, mas se isso não for feito com cautela, poderia levar muitos centroamericanos a decidirem que este é o momento de se dirigir ao norte’.

As opiniões de Biden sobre o desmatamento da Amazônia e a promessa de ‘consequências econômicas importantes’ caso o Brasil não siga o plano de 20 bilhões de dólares para recuperar a floresta tropical já molestaram Jair Bolsonaro, o êmulo de Trump, que afirmou que o presidente eleito havia dado um ‘claro sinal de desprezo em relação à coexistência cordial e frutífera’.

Para os assessores de Biden, a problemática do meio-ambiente é muito importante, e a idéia é isolar Bolsonaro e seus parceiros, considerando sobretudo que a perda de seu ‘grande amigo’ ao norte poderia ser um grande problema para um governo como o brasileiro, que têm todos seus ovos nesta cesta.

Mas Bolsonaro não é o único que foi operado por Trump. Também foi o colombiano ultradireitista Iván Duque, que agora teme a redução e fiscalização dos bilhões de dólares que recebe anualmente para – supostamente – combater o narcotráfico e a violência.

Acredita-se que, em relação à Venezuela, assim como Cuba, é pouco provável que um governo Biden volte diretamente à trégua da era Obama; a influência dos eleitores latinos ultradireitistas da Flórida se encarregará disto. É mais provável que avance com passos cautelosos para criar confiança.

Dado que os presidentes das nações andinas (Chile, Peru e Equador) deixarão o cargo durante o primeiro ano de um novo presidente estadunidense, o pragmático (e cada vez mais moderado) Alberto Fernández é um dos que podem se beneficiar com um governo Biden.

Rússia e China

O principal desafio para Biden em política externa será a redefinição da atitude em relação à Rússia e China. Cerca de 95% dos antibióticos vendidos nos EUA são produzidos na China, e 62% de todo o material médico utilizado nos hospitais estadunidenses são de fabricação chinesa. Isso dificilmente voltará a ocorrer em um governo democrata.

A mensagem histórica de que os Estados Unidos vão melhor economicamente com os republicanos não passa de um mito. Nunca foi correta – ainda que tenha sido bem vendida – e quando se observa a história, os períodos de maior bonança e riqueza dos Estados Unidos ocorreram sempre sob mandatos democratas.

George H. W. Bush deixou o país com o maior déficit fiscal da história até então. Oito anos depois, Bill Clinton deixou os Estados Unidos com o maior superávit fiscal da história. Com George W. Bush, após oito anos, o país acaba com o maior déficit histórico, superando o recorde de seu pai.

Obama recebeu o bastão e tirou os EUA da pior crise econômica desde os anos 1930, recuperou o país e deixou-o novamente em uma situação muito bem encaminhada. Foi Trump que, em quatro anos, levou o país a bater agora todos os recordes de endividamento público.

Mudança de paradigma

Biden propõe uma mudança de paradigma, um momento decisivo e disruptivo na história dos Estados Unidos, uma mudança de modelo econômico e energético. O objetivo é que, até 2050, os EUA sejam um país neutro em emissões de carbono… levando em conta que é, atualmente, o segundo país que mais emite poluição.

Para que isso ocorra, a mudança será disruptiva e baseada em avanços tecnológicos, em inovação e em uma mudança total da qual os EUA passam a ser parte do problema, saindo de hoje, um país liderado por um negacionista que não reconhece as evidências científicas, para um presidente que impulsiona a recuperação econômica sob um eixo de sustentabilidade.

Diferentemente de Trump, Joe Biden conhece a América Latina in situ e também sabe de sua importância para segurança nacional dos Estados Unidos. E uma das lições deixadas pela pandemia de Covid-19 é que os EUA precisam aproximar suas cadeias de abastecimento, após sofrer problemas com a saída de diversos países dos mercados internacionais, mendigando por máscaras e equipamentos médicos.

Geopolítica

Caso não ocorra uma guerra civil, o que não se pode descartar nas atuais circunstâncias, Biden se oporá ao aumento da multipolaridade. As possibilidades de uma nova guerra mundial são muito maiores, pois uma potência nuclear cuja soberania se baseia na capacidade militar será designada como o inimigo principal desde o início.

Biden atuará no marco da geopolítica clássica, atacando a Rússia e seduzindo ou neutralizando de alguma maneira a China.

Entre Rússia e China, Biden elege a Rússia como principal inimigo, e a China como uma preocupação neutra ou secundária. Preocupa mais aos globalistas o poder militar dos polos alternativos do que seu poder econômico. A Rússia é uma grande potência geopolítica com armas nucleares e política conservadora. Este é o principal obstáculo para o estabelecimento da ordem mundial liberal.

Com Biden, a Rússia será o principal objeto de pressão, ataques e possíveis conflitos. A hegemonia global do ocidente liberal é assegurada pela debilidade da Rússia e da Eurásia. Sendo assim, aos olhos de Biden, a China pode ser considerada como uma parte orgânica do sistema liberal internacional, e a expansão de sua economia não é a principal ameaça para o globalismo.

Para o ex-vice-presidente, os Estados Unidos são a vanguarda do globalismo, a fortaleza da hegemonia liberal mundial, do império global com a missão de liquidar com os estados nacionais, impedir o surgimento de novos pólos, e instalar um governo global liderado pelos capitalistas internacionais, as elites e os monopólios de forma geral, incluindo os segmentos ocidentais e não-ocidentais.

As urgências

A tarefa principal e mais urgente de Biden em seus primeiros 100 dias na Casa Branca será colocar em marcha um novo plano nacional de combate ao coronavírus, que já contagiou milhões de pessoas no país e matou mais de 220.000 pessoas (mais do que em qualquer outro país do mundo). Deverá também tomar medidas para reparar suas desastrosas consequências econômicas.

O moderado Biden também será pressionado pela ala progressista de seu partido, que exerce uma influência crescente e aspira grandes mudanças institucionais em resposta às questões mais urgentes sobre o futuro do país – que passa por uma depressão econômica e uma pandemia.

Após os enormes protestos devido ao assassinato de George Floyd pelas mãos da polícia de Minneapolis, também há muita expectativa em relação a um possível pacote legislativo que reforme as forças de segurança. Biden também receberá muitas pressões para dar fim à antiquada regra do Senado connhecida como ‘obstrucionismo’, que permite ao partido na oposição paralizar as nomeações e o processo legislativo.

Os democratas também afirmam que Biden fará com que os Estados Unidos retornem imediatamente à Organização Mundial da Saúde, restaurando suas contribuições financeiras; unirá novamente o país ao Acordo de Paris; e anulará as proibições de entrada impostas pelo governo Trump aos ingressantes de países muçulmanos.

Biden também prometeu retornar ao acordo nuclear de 2015 com o Irã, embora tenha antes que negociar os requisitos a serem cumpridos por Teerã antes de retornar ao pleno cumprimento de suas atividades nucleares limitadas definidas no plano.

A equipe de campanha de Biden propôs convocar uma reunião de democracias em seu primeiro ano de mandato. A ala mais progressista do partido pressionará para que não se limite a replicar a ordem internacional pré-Trump, especialmente em relação a aliados autocráticos como a Arábia Saudita, e firmar o quanto antes uma lei, já definida pelo Congresso, para retirar o apoio dos EUA à guerra dirigida pelos sauditas no Iêmen.

Especulações

Caso Biden vença, seguramente será implodido o ‘governo’ farsesco de Juan Guaidó na Venezuela, arrastando também a União Europeia, que retirará o reconhecimento após 5 de janeiro, um mês após as eleições parlamentares no país caribenho.

Biden retomará a abertura de relações com Cuba para facilitar as relações com a Venezuela e a promoção da paz na Colômbia. Os credores negociam com a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, um alívio nas sanções. A idéia da equipe de Biden é aliviar as sanções sobre Cuba e Venezuela, e não levantar todas, obviamente.

Thomas Shannon e Roberta Jacobson, ex-Secretária de Estado, certamente retornarão ao Departamento de Estado.

A equação regional para o próximo governo será utilizar a desvantagem favorável no terreno militar para negociar o controle do grosso dos recursos estratégicos da região (as melhores jazidas de hidrocarbonetos da Venezuela, o lítio boliviano, o agronegócio brasileiro e argentino, a biodiversidade amazônica).

Para conseguir e tornar isso sustentável, negociará em ‘termos chineses’. Usando o paradigma boliviano: industrialização local do lítio, controle estrito do impacto ambiental, participação acionária e/ou fiscal compartilhada e benefícios para as comunidades do entorno e da província.

Shannon é considerado como o funcionário mais inteligente que passou pelo Departamento de Estado nos últimos anos, e é parte da equipe de Biden. Com ele a diplomacia voltaria como meio de transição, o que é mais racional e lógico, uma vez que qualquer ameaça de invasão, algo permanente durante o governo Trump, será eliminada.

Com o governo Biden, os especialistas assinalam que mudará a dinâmica da Organização dos Estados Americanos (OEA), e Claver-Carone sairá do Banco Interamericano de Desenvolvimento, onde foi imposto por Trump há pouco tempo. Quer sinalizar, dessa forma, o respeito à soberania nacional e a não-interferência nos assuntos internos.

É este o ‘New Deal’ que convém aos Estados Unidos (e até mesmo às Forças Armadas norte americanas, que têm muitos desafios na Ásia). O problema é que este New Deal não é aquele que convém ao ‘pântano’ de Washington, Miami ou ao iceberg do mundo financeiro, que sobrevive graças à lavagem de dinheiro e outras grandes negociações financeiras.

Esta é, logicamente, a hora das especulações, e cada um narrará sua história e análise. A grande interrogação está no título: com Biden, tudo muda e nada muda para a América Latina e o Caribe.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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