EUA

A resposta à pandemia do ‘America First’: o parasitismo financeiro como o estágio final do imperialismo leninista

Zi Qiu mostra, não apenas que o pensamento de Lenin permanece sempre relevante, mas também que as crescentes contradições enfrentadas pelo povo dos Estados Unidos estão rapidamente chegando a uma conclusão.

Por Zi Qiu, via Qiao Collective, tradução por Saulo R.

Foto via EPA-EFE.
Foto via EPA-EFE.

Para marcar o aniversário de 150 anos de Vladmir Lenin, o blogger chinês Zi Qiu (紫虬) oferece uma análise leninista da resposta estadunidense à pandemia, a natureza de sua hegemonia financeira e o parasitismo de suas classes capitalistas em avanço sobre a china

A postagem original de Zi Qiu (紫虬) pode ser encontrada aqui (link em chinês).

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Nota: Zi Qiu  é um blogger marxista chinês e comentador, cujo trabalho pode ser encontrado em diversas plataformas chinesas, incluindo Weibo, Utopia e Chawang.

Este ensaio foi escrito e publicado (dia 30 de Abril) antes do terrível assassinado de George Floyd, no dia 25 de Maio, mas logo depois do estado de emergência ter sido declarado pelo governo da Califórnia, no dia 4 de Maio, em resposta ao COVID-19, sinalizando a esacala da pandemia nos EUA. Longas filas para conseguir comida, protestos anti-máscara, o desemprego galopante e a insegurança financeira já haviam se tornado elementos da paisagem estadunidense. A frustração popular e as terríveis dificuldades econômicas criaram uma atmosfera tensa, de uma nação à beira da convulção.

Nesse contexto, este ensaio pode até parecer clarividente – descrevendo uma “América” que cada vez mais aliena seus próprios habitantes e até pessoas no exterior. No entanto, a estrutura e organização da hegemonia dos Estados Unidos está apenas um passo adiante do que Lenin observou há muito tempo: o imperialismo, fase superior do capitalismo, definido por monopólios, pela oligarquia financeira, pela exportação de capital, pela formação de associações entre os monopólios capitalistas internacionais e a conclusão da distribuição de territórios ao redor do globo.

Combinando a hábil aplicação da teoria de Lenin ao moderno imperialismo dos Estados Unidos, Zi Qiu mostra, não apenas que o pensamento de Lenin permanece sempre relevante num mundo unilateralista pós-soviético, mas também que as crescentes contradições enfrentadas pelo povo dos Estados Unidos estão rapidamente chegando a uma conclusão.

Os protestos contra a brutalidade policial continuam devastando o país três meses após os primeiros protestos, em Minneapolis, apenas para receberem como resposta a violência e opressão do Estado. A Costa Oeste dos Estados Unidos, neste momento, também enfrenta um desastre ecológico sem precedentes, produto de séculos do genocídio indígena e do ecocídio, cujos fins lucrativos eram incentivados por políticas, e práticas, desastrosamente negligentes, ineptas e até cúmplices. A partir desta perspectiva cataclísmica, a análise de Zi Qiu permanece clara. Mantendo não apenas uma análise marxista que descreve de forma objetiva o atual estado das coisas nos Estados Unidos, como tabém deixa claro a forma como a própria China foi vítima do unilateralismo hegemônico dos EUA, em termos concretos. O caminho para a China é claro, embora seja mais fácil falar que fazer. Implícita nesta análise está a tarefa para quem se identifica politicamente de esqueda e vive nos Estados Unidos continuar avançando: aplicar a análise marxista-leninista para entender o imperialismo dos Estados Unidos, educar o povo e construir movimento sociais para livrar completamente o povo dos parasitas que o sugam o sangue, que nem mesmo tenta mascarar sua ganância e sede implacáveis, mesmo em tempos de imenso sofrimento em massa.

Temos o prazer de publicar esta tradução do trabalho de Zi Qiu, em honra ao legado da vida e do trabalho de Lenin, que continua relevante para o nosso trabalho de desmantelar a primeira contradição de nível global: o imperialismo estadunidense.

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Nos últimos três a quatro meses, a pandemia nos Estados Unidos e na Europa provocou emoções complicadas no povo da China. As estatísticas de coronavírus nos EUA dispararam muito à frente de todos os outros países, cadáveres não reconhecidos pelos parentes estão sendo descartados como lixo; vídeos dolorosos de idosos abandonados, enfermeiras, negros e outros grupos de baixo status social clamando por ajuda, taxas de mortalidade para pessoas de baixa renda e as minorias étnicas são significativamente maiores e, no geral, tudo é miserável demais para ser testemunhado. Na cultura chinesa é comum ouvir máximas como “não faça aos outros o que você não quer que eles façam a você”. Independentemente de raça ou nacionalidade, existe apenas uma grande simpatia pelas vítimas da pandemia, especialmente as mais vulneráveis. Por outro lado, em contraste com a situação externa, na China, “o cenário é incomparável”, as pessoas em todo o nosso país dão as boas-vindas ao retorno dos heróis que trabalharam para resgatar a província de Hubei. Trabalho e produção de diversos profissionais estão sendo restaurados e médicos e especialistas estão sendo enviados para cumprir o dever de ajudar nas luta de outros países contra a pandemia.

Enquanto isso, os políticos americanos estão encobrindo suas falhas com mentiras, exigindo compensação de bodes expiatórios e transferindo responsabilidades para outros, enquanto reivindicam crédito para si próprios. Os governos federal e estadual brigam constantemente entre si, com vários espetáculos de políticos revelando o quão baixo são. Absolutamente desprezível. O resultado da retórica do “America First” de Trump se reflete na pandemia: o seu monumento ideológico está mostrando sinais de colapso; o império é incapaz de esconder o caos, como um formigueiro submerso em água fervente. É apenas por causa do número cada vez maior de corpos ensacados? Não exatamente. Os que estão carregando os cadáveres estão na base da sociedade; o que atinge o coração do império é a profunda crise econômica anunciada pelas falências do mercado financeiro de ações.

Numa ocorrência histórica sem precedentes, a bolsa de valores dos EUA despencou quatro vezes nos últimos dez dias; as estratégias da Federal Reserve [análoga ao Banco Central no Brasil] de reduzir as taxas de juros a zero, políticas de harmonização financeira quantitativa, e outras ferramentas de emergência provaram ser ineficazes. Em 13 de Março, os EUA declararam estado de emergência. Em 17 de março, a Federal Reserve ativou uma ferramenta de emergência que foi usada apenas na Grande Depressão e na Grande Recessão de 2008 – o Commercial Paper Funding Facility. No mesmo dia, o governo federal anunciou um plano de estímulo econômico de 1 trilhão de dólares, que inclui uma soma de 500 bilhões de dólares em cheques distribuídos ao público americano. Ainda assim, isso não foi suficiente para evitar um quarto colapso do mercado de ações. Embora o mercado de ações tenha se recuperado lentamente depois, ele ainda segue a mesma tendência da Grande Depressão e da Grande Recessão, ambos os quais experimentaram vários aumentos durante sua queda de dois e um ano, respectivamente, mas ainda assim, o resultado foi uma queda de 89% para o primeiro e outra queda de 50% para o segundo exemplo. A gravidade e a duração do crash financeiro e da recessão são difíceis de prever, mas o fato de as previsões para o futuro valor do petróleo bruto terem um valor negativo é um fenômeno que não ocorreu nos últimos trinta anos. Como diz o ditado: “Atraia piolhos suficientes e a coceira para” – desconsiderando a astronômica dívida nacional, o poder legislativo e executivo dos EUA formaram um raro consenso para aprovar outro orçamento inchado. E sob as políticas de harmonização financeira quantitativa da Federal Reserve, por meio da impressão irrestrita de dinheiro, a trajetória atual é a duma recessão econômica que fará com que todos os países experimentem vários graus de dívida, balanço de pagamentos e crises de liquidez. A hegemonia atual do dólar americano caindo aos pedaços está se tornando cada vez mais provável, já que os países não podem mais suportar sua exploração.

I. A evolução do parasitismo financeiro do Império Estadunidense

Há mais de cem anos, Lenin apontou que, entre as características do imperialismo europeu, em primeiro lugar, está o controle que os monopólios financeiros têm sobre a sociedade:

A supremacia do capital financeiro sobre todas as outras formas de capital significa o predomínio do rentista e da oligarquia financeira; isso significa que um pequeno número de estados financeiramente “poderosos” se destacam entre todos os demais.

Cem anos depois, o aspecto principal do monopólio financeiro dos EUA é o parasitismo que transcende do material ao imaterial, evoluindo do controle social para o controle global. Em “Imperialismo, fase superior do capitalismo”, Lenin enumera as cinco características do imperialismo no século passado: monopólios, oligarquia financeira, a exportação de capital, a formação de associações entre os monopólios capitalistas internacionais e a conclusão da divisão territorial global. A natureza fundamental dessas cinco características não mudou em cem anos: “a densa rede da oligarquia financeira” e seu parasitismo evoluíram para dentro da alma, da mente e do sangue da economia dos Estados Unidos hoje.

A evolução das cinco características do imperialismo:

1. O monopólio do capital de produção evoluiu para um monopólio de todos os campos. O mercado financeiro permeou o monopólio multinacional de dados, de propriedade intelectual e de recursos estratégicos, junto do monopólio da ideologia, do pensamento econômico e da cultura. As informações contábeis internacionais podem ser apreendidas por meio do sistema bancário SWIFT, enquanto os direitos de propriedade intelectual, marcas registradas, patentes, padrões de design e outros ativos intangíveis são usados para extorquir lucros excedentes.

2. A fusão do capital bancário e do industrial evoluiu para a hegemonia do dólar por meio da logística do comércio global de energia. Globalmente, o dólar está envolvido em 70% dos acordos comerciais e é responsável por 65% do total de moedas de reserva, gerando assim uma receita de senhoriagem significativa. Por dez anos, a taxa de rotatividade de câmbio diário disparou em 40%, quase um terço do PIB anual dos EUA. Excluindo acordos envolvendo cadeias de suprimentos de produção, a grande maioria dessas transações são meramente especulativas.

3. A exportação de capital evoluiu para a subversão financeira dos países em desenvolvimento, usando o neoliberalismo como arma. Os exemplos incluem o uso do método “compre na baixa e venda na alta” para explorar o mercado de capitais e coagir os países importadores de capital à dependência industrial por meio de fundos soberanos.

4. A evolução das alianças monopolistas internacionais. Por exemplo, o G7, ao enfrentar a ascensão da China após vários anos de domínio dos EUA, não é mais um bloco monolítico durante a disputa sobre a “retirada” dos EUA, com vários países começando a abandonar o dólar americano.

5. O mercado global que está sendo repetidamente contestado e dividido por antigos jogadores imperialistas. Com as estratégias empresariais chinesas de “cercar as cidades do campo” [encircle the cities fropm the countryside] e da iniciativa da “Nova Rota da Seda” [Belt and Road Initiative], os países da África, América Latina, Ásia, etc. estão se retirando do que o Ocidente entende como mercados “magros” [“magros” ou “cachorros magros”, em chinês, significa produtos de baixo custo com baixa lucratividade .:ndt. D. Liao].

6. A evolução das alianças monopolistas internacionais. Por exemplo, o G7, ao enfrentar a ascensão da China após vários anos de domínio dos EUA, não é mais um bloco monolítico durante a disputa sobre a “retirada” dos EUA, com vários países começando a abandonar o dólar americano.

II. As contradições básicas do imperialismo recentemente incorporadas – a reação parasitária do capital financeiro

Lenin apontou:

O imperialismo é a época do capital financeiro e dos monopólios, que introduzem por toda parte a luta pela dominação, não pela liberdade. Qualquer que seja o sistema político, o resultado dessas tendências é reação em toda parte e uma intensificação extrema dos antagonismos neste campo.

O que ele quer dizer com “reação em todos os lugares?” O surto pandêmico oferece uma excelente oportunidade para todos fazerem tal observação. Destrói a tentativa de fachada e transformação da classe capitalista monopolista iniciada durante a Grande Depressão. A contradição entre a privatização e a socialização dos meios de produção em massa ainda é inescapável; apenas mais severa que nunca.

1. Os rentistas estão mais gananciosos do que nunca. A manufatura responde por apenas 20% da economia dos EUA. Os outros 80% consistem em uma cadeia de fornecimento de serviços comerciais que é estabelecida por meio do setor de finanças, de tecnologia, de informação e da hegemonia militar, coletando “tributos” da riqueza produzida em todo o mundo. Os gastos sociais dos EUA são apoiados por um sistema de impressão de dinheiro e emissão de títulos em quantias exorbitantes. O governo, as empresas e os residentes dos EUA têm uma dívida combinada de 30 trilhões de dólaresn. A razão pela qual os EUA são considerados o país mais poderoso do mundo – junto com a inércia de sua inovação tecnológica e também de indústrias menores, como alimentos – é por causa de sua “proficiência” na impressão e emissão de dinheiro e títulos. O governador de Nova Iorque certa vez exclamou: “É a mais cruel ironia que esta nação agora dependa da China para muitos desses produtos”. Os EUA estão tão acostumados a produtos importados da China e de outros países por tanto tempo que, ao enfrentar uma escassez crítica durante uma pandemia, eles repentinamente percebem que os “grandes” Estados Unidos são tão frágeis que não podem produzir nada.

Os políticos norte-americanos esperavam que os empregos no setor manufatureiro pudessem retornar aos EUA, mas a realidade é que há muitos obstáculos a serem superados, enquanto o retorno do capital industrial não apresenta urgência para o capital monopolista-financeiro. Em 14 de abril, a Renaissance Technologies aproveitou a pandemia para vender a descoberto sob o Fundo Medallion com um retorno acumulativo de 39% este ano, igualando o retorno acumulativo de 40% do fundo Gaoling que investe na China. Diz-se que o fundador da Renaissance Technologies, Jim Simons, “derrotou” Warren Buffet, ganhando 10 bilhões de dólares em um único ano. O futuro mercado de petróleo, que ataca os clientes chineses do “Tesouro do Petróleo Bruto”, reflete a ganância e a eficiência dos monopólios financeiros para que eles devorem o capital de pequeno e médio porte apenas pela técnica, assim aumentando a concentração de capital. A capital financeira de Wall Street não tem interesse em devolver empregos de manufatura aos EUA; este é o conflito entre o establishment pró-Wall Street e o anti-establishment populista representado por Trump. 

O “Make America Great Again” de Trump é apenas uma tentativa do capital industrial de “consertar um buraco no céu”. Infelizmente, só pode ser, na melhor das hipóteses, , um remédio desesperado e ineficaz, se as únicas soluções propostas forem a agressão imperialista e proteções de barreiras comerciais desatualizadas.

2. Desigualdade de renda. A Grande Depressão de 1929 ensinou uma lição à classe dominante, e a distância entre ricos e pobres havia diminuído por quase meio século. Mas as políticas econômicas neoliberais de Reagan criaram um ponto de inflexão na década de 1980 e, a partir de hoje, os níveis de desigualdade correspondem justamente aos da era da Grande Depressão. O mundo sabe que Trump e seus companheiros ignoraram deliberadamente os primeiros estágios da pandemia; é apenas por causa dos múltiplos colapsos do mercado de ações e da certeza de uma recessão econômica que eles agora são compelidos à dor e à ação. A evaporação dos valores do mercado de ações atormenta os capitalistas, atormenta infinitamente. Entre eles estão os senadores dos EUA Marsha Blackburn e Lindsey Graham que, em nome de Wall Street e do império estadunidense, exigem a restituição da China. Dan Patrick, o vice-governador do Texas, parecia enfatizar abertamente que a economia do país era mais importante do que a vida dos idosos quando afirmou: “Aqueles de nós com mais de 70 anos, cuidaremos de nós mesmos. Mas não sacrifiquemos o país. ” A pandemia revela ao público a verdadeira natureza do capital, que é do desejo de lucro acima de tudo. Sob a bandeira da “economia americana” estão os interesses do capital, daí os protestos contra Trump por não se importar com as vidas e mortes de seres humanos reais, apenas o mercado de ações e as pesquisas. É difícil culpar o público estadunidense que tem que trabalhar nessas condições; pois 60% das famílias americanas que têm renda menor a 400 dólares estão enfrentando uma crise de sobrevivência. Enquanto, por um lado, o vírus oferece riscos reais de morte, a auto-quarentena garante o desemprego e a falência, um destino possivelmente pior do que a morte por doença, para eles e suas famílias. À medida que a pandemia piora, a taxa de desemprego está aumentando em direção ao recorde da Grande Depressão de 24%. Mais e mais pessoas estão ficando falidas e destituídas. Mesmo com o governo se endividando ainda mais imprimindo dinheiro e distribuindo benefícios, o conflito de classes nos Estados Unidos só aumentou para níveis cada vez ainda maiores.

3. O conflito interno severo dentro do sistema dos EUA. Uma vantagem do sistema federal dos EUA é sua pró-atividade, tanto no nível central quanto local, algo que Mao Zedong observou em seus últimos anos. Mas a pandemia revela uma falha fatal de tal sistema: quando ocorre conflito, cada um segue seu próprio caminho. O governo federal e os estados estão atacando e licitando uns contra os outros enquanto disputam suprimentos médicos. Os americanos se orgulham de sua mídia e jornalismo “livres”, 90% dos quais são controlados por seis corporações, mas há tantas reportagens negativas acontecendo como se houvesse um fascínio pelo caos – constantemente condenando o presidente e o governo, transmitindo o sofrimento das massas, comparando os pontos positivos de outros países com a incompetência do partido político adversário dos EUA, etc.

O que parece ser o “farol” americano da democracia liberal é, na realidade, uma luta pelo poder entre grupos de interesse capitalistas, um mero estratagema para ganhar votos. Igualdade, direitos humanos e o fim da sociedade feudal não são as promessas dos Estados Unidos? O genro do presidente, Jared Kushner, tem controle sobre o orçamento de resposta à pandemia, para o qual mobiliza recursos nacionais para reunir suprimentos médicos raros, apenas para entregá-los a cinco empresas privadas. Os governos estaduais precisam concorrer entre si para obter esses suprimentos, e essas empresas fizeram fortunas com a crise nacional.

Em tempos de pessoas morrendo e as massas tendo dificuldade em serem testadas para COVID-19, para os capitalistas é uma oportunidade para ousadia. Trump ignora a pandemia e mente compulsivamente para enganar as pesquisas eleitorais, mas as pessoas estão percebendo que, não importa quem se torne presidente, a duplicidade do sistema se tornou o inimigo público dos americanos de classe média e baixa. Além disso, a exorbitância de dívidas e impressão de dinheiro não apenas posiciona o império no topo de um vulcão, mas seu parasitismo também atrai a animosidade de pessoas em todo o mundo.

III. A ganância do círculo interno de Trump fomentada pelo parasitismo das relações EUA-China

Em abril de 2016, durante as eleições gerais, após a posição de Trump de reduzir impostos para os ricos ter recebido críticas, ele tuitou: “Os economistas dizem que meu plano tributário aumentará a dívida nacional para 10 trilhões [de dólares]. Idiotas! Vou deixar a China pagar a conta! ”

Todo mundo vê que a solução mágica de Trump é aumentar e cobrar tarifas repetidamente. A nova versão do relatório de Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca vê a China como um competidor estratégico; desafiar os resultados financeiros da questão de Taiwan, uma guerra comercial e a ameaça de bloqueio militar estão em desenvolvimento gradual. E embora a pandemia ainda seja um assunto urgente, a infecção de militares resulta na incapacitação do poder armado.

Por um lado, solidificar as relações EUA-China preservaria o arranjo para o parasitismo dos EUA, garantindo que a China continuaria comprando dívida dos EUA em massa, importando produtos de alto valor agregado, importando recursos estratégicos dependentes de produtos americanos, como alimentos, e exportando produtos de baixo valor agregado e trabalho intensivo. Embora os produtos chineses representem apenas 20% das importações dos EUA, eles geralmente consistem em necessidades a um preço barato, aliviando assim o conflito de classes. Como os EUA também conseguem manter a mais-valia, o governo pode aumentar a receita optando por aumentar as tarifas; a desvalorização do RMB mantém os preços de varejo constantes para que a agitação pública seja evitada. Por outro lado, muitos indícios indicam que a guerra comercial e as ações militares dos EUA são apenas cortinas de fumaça para a configuração de um estrangulamento financeiro. O objetivo é se infiltrar e influenciar a reforma da liberalização financeira da China, bem como tentar criar uma crise financeira na China para que o capital chinês flua para os mercados financeiros dos EUA, tudo a serviço do objetivo final de preservar a bolha financeira dos EUA.

Muitos sinais indicam que a guerra comercial dos Estados Unidos e as ações militares são apenas cortinas de fumaça para o estrangulamento financeiro. O objetivo é se infiltrar e influenciar a reforma da liberalização financeira da China, bem como tentar criar uma crise financeira na China para que o capital chinês flua para os mercados financeiros dos EUA, tudo a serviço do objetivo final de preservar a bolha financeira dos EUA.

Organizações e acadêmicos da China e do exterior explicaram o parasitismo das relações EUA-China de forma concisa:

O Relatório Nacional de Saúde [National Health Report] publicado pelo Grupo de Pesquisa em Saúde Nacional [National Health Research Group] da Academia Chinesa de Ciências, em 2013, revela que os EUA usam senhoriagem, imposto sobre inflação internacional, a dívida soberana, o investimentos no exterior, e os ativos líquidos, assim como  práticas comerciais desleais, manipulação de moeda, derivativos financeiros, volume futuros de commodities e propriedade intelectual, etc. como os dez caminhos para lucrar com sua hegemonia global. Combinados, a riqueza adquirida por meio dessas dez vias chega a 52,38% do PIB total dos Estados Unidos, enquanto a riqueza que a China perde por essas dez vias chega a 51,45% de seu próprio PIB. O lucro dos EUA com esses canais chega a 23.836,70 dólares per capita, enquanto as perdas da China com esses canais per capita são de 2.739,70 dólares o que é 120% da renda disponível de uma família chinesa média. (China News, 8 de Janeiro de 2013)

O diretor do Instituto de Comércio Internacional e Cooperação Econômica do Ministério do Comércio[Commerce’s Institute of International Trade and Economic Cooperation], Huo Jianguo, afirma que, para cada 100 bilhões de dólares em produtos exportados da China aos Estados Unidos, os EUA podem lucrar 80 bilhões de dólares, enquanto a China recebe apenas 20 bilhões. (China Economic Net, 29 de setembro de 2010).

Um artigo de pesquisa do Professor Niall Ferguson da Harvard resume sucintamente o parasitismo dos EUA: “A China produz, os EUA consomem.”

IV. Esteja em alerta máximo contra roubo financeiro dos EUA

“Apertem o cerco.” Foi o que disse Xi Jinping ao direcionar a resposta chinesa à pandemia, mas o mesmo pode ser dito sobre a relação entre a China e os EUA. Quando os Estados Unidos começaram a chamada guerra comercial, há mais de um ano, as autoridades estadunidenses mencionaram a necessidade de confiar nas “forças internas” da China, que incluem tanto a quinta coluna como a infiltração de longo prazo do pensamento neoliberal dos EUA. Um exemplo disso são as ideias sobre capital que sustentam a crença de que o sistema socioeconômico norte-americano define um modelo para os outros.

Surpreendentemente, Lenin previu o parasitismo da relação EUA-China, bem como a resposta do proletariado em “Imperialismo, fase superior do capitalismo”:

O imperialismo, que significa a divisão do mundo e a exploração de outros países além da China, o que significa altos lucros de monopólio para um punhado de países muito ricos, torna economicamente possível subornar as camadas superiores do proletariado e, assim, promover, dá forma e fortalece o oportunismo.

Fixando-se no que Lenin considerou “o maior reservatório potencial de lucro” (China), os Estados Unidos estão ansiosos para construir sua versão fantasiosa da “Chimérica”; encorajando slogans como “Salvar a América é salvar a China” e “Faça a China pagar!” tornou-se uma preocupação das duas últimas campanhas eleitorais presidenciais. Usar a pandemia como desculpa para exigir uma recompensa financeira altíssima é apenas a expressão natural do capital monopolista euro-americano.

Mas as teorias de Lenin sobre o parasitismo do imperialismo seguido por sua inevitável decadência e morte foram consideradas ultrapassadas no início do colapso da União Soviética, esprezadas pela perestroika de Gorbachev. Esse desenvolvimento também ressoou na China por muito tempo: o capitalismo está totalmente vivo, enquanto as facções socialistas estão se dissolvendo uma após a outra – onde está a morte que Lenin havia previsto? Assim, os estudiosos chineses regularmente alertam o povo para não subestimar o apelo racional do capitalismo.

Nenhuma ordem social é destruída antes que todas as forças produtivas para as quais é suficiente tenham sido desenvolvidas, e novas relações superiores de produção nunca substituem as mais antigas antes que as condições materiais para sua existência tenham amadurecido dentro da estrutura da velha sociedade. (Karl Marx, “Contribuição para a Crítica da Economia Política”)

A citação “Two Nevers” de Marx é frequentemente mal utilizada por pseudomarxistas para defender o capitalismo ao confundir parasitismo com produtividade. Eles acreditam que o que eles percebem como as “novas relações superiores” de produção – cooperativas de trabalhadores, por exemplo – são distantes, ideais abstratos que são demasiado impraticáveis para serem colocados em prática quando, na realidade, esses aspectos socialistas já existem nas sociedades capitalistas desde Marx.

Dentro dessa área de pensamento, a proposta do Consenso de Washington de privatização, liberalização e mercantilização, encabeçada pelo economista norte-americano John Williamson em 1989, que chegou a receber elogios de personalidades dentro e fora do Partido Comunista da China. Um publicou um artigo dizendo: “Uma análise objetiva mostra que as três propostas do‘ Consenso de Washington ’já foram implementadas na China; a contribuição do setor estatal para a economia nacional não é tão significativa, apenas cerca de 30%.”

Desde o 18º Congresso Nacional, o camarada Xi Jinping resume as lições aprendidas em quarenta anos de reforma e abertura, bem como as perspectivas de um novo renascimento chinês, apresentando uma postura clara:

Todos os camaradas do partido devem ter em mente que o que estamos construindo é um socialismo com características chinesas, não alguma outra doutrina. O desenvolvimento de alta qualidade da economia futura da China também deve ocorrer em condições mais livres.

À medida que mais e mais pessoas apóiam uma comunidade global que promove um destino humano compartilhado, o unilateralismo e o hegemonismo são cada vez mais impopulares, o Consenso de Pequim e a Nova Rota da Seda recebendo um favor sistemático sem precedentes e o colapso iminente do Consenso de Washington podem ser afirmados com segurança, devemos agora rejeitar o dogmatismo que ignora as circunstâncias atuais, ao mesmo tempo em que mantém uma sólida compreensão da quintessência do imperialismo de Lenin. Na valsa de apoio e compreensão mútuos, devemos identificar os aspectos parasitários do capital monopolista-financeiro e ser especialmente cautelosos em relação à ideologia neoliberal que endossa a abertura financeira. Aperte a cerca e empilhe as estacas, lembre-se da dolorosa lição da Rússia, ao ser saqueada pelos EUA após sua própria abertura financeira, e lute firmemente contra o parasitismo do capital monopolista dos EUA. O futuro dos Estados Unidos é o produto do conflito interno dum país em movimento; portanto, a maior contribuição que a China pode oferecer ao povo estadunidense é recusar qualquer atividade econômica que pague a conta do parasitismo dos EUA.

A tendência do neoliberalismo de décadas que ainda é comumente aceita hoje foi dissecada vividamente por Lênin cem anos atrás. Concluiremos com um alerta do instrutor da revolução:

(Tudo isso faz com que) … as classes proprietárias passem inteiramente para o lado do imperialismo. Entusiasmo “geral” com as perspectivas do imperialismo, sua defesa furiosa e sua pintura com as cores mais brilhantes – esses são os sinais dos tempos. A ideologia imperialista também penetra na classe trabalhadora. Nenhuma Muralha da China o separa das outras classes.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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