Internacional

Novas armas e as novas táticas que elas possibilitam: três exemplos

Para além das expressões ‘da moda’, há sim, hoje, novidades no campo da guerra e novas tecnologias sendo desenvolvidas, testadas e aplicadas, sendo algumas delas extremamente bem-sucedidas.

Por The Saker, via Vineyard of the Saker, tradução por Coletivo Vila Mandinga

O sistema russo de mísseis costeiros ‘Bastion’. Foto via Ministério da Defesa da Rússia.
O sistema russo de mísseis costeiros ‘Bastion’. Foto via Ministério da Defesa da Rússia.

Há provavelmente centenas de livros sobre a chamada “Revolução nos Assuntos Militares (RAM)”, alguns bons, muitos muito ruins e uns poucos muito bons, dentre os quais especialmente esse [port. aqui]. Para discussão tediosa, cheia das platitudes mainstream, podem ler o verbete da Wikipedia sobre RAM (ing.). Hoje absolutamente não quero falar disso, nem repetir o jargão do dia (expressões, por exemplo como “guerra híbrida”). Sinceramente, minha experiência ensina que essas expressões ‘da moda’ só têm dois objetivos:

1. Vender (livros, artigos, entrevistas, palestras, etc.); e

2. Encobrir, nos ‘autores’, a falta de conhecimento sobre táticas, arte operacional e estratégia.

Isso posto, *há*, sim, novidades, nesse momento, no campo da guerra, novas tecnologias estão sendo desenvolvidas, testadas e aplicadas, algumas delas extremamente bem-sucedidas.

Em seu hoje já famoso discurso, Putin revelou alguns desses novos sistemas de armas, mas não disse muito sobre como podem ser usados (o que é lógico e esperado, porque Putin, ali, fazia discurso político, não algum relatório técnico-militar). Para os que se interessem por esse tópico, há bom material aquiaquiaquiaquiaquiaqui [artigos traduzidos no Blog do Alok e reunidos no Portal GGN; ver também aqui (port.), NTs].

O recente ataque com drones dos Houthis, contra instalações da indústria do petróleo saudita, mostrou ao mundo algo que os russos já sabem há vários anos: que até os drones mais primitivos podem ser ameaça real.  Drones sofisticados podem ser grave ameaça a qualquer militar em qualquer lugar, ainda que a Rússia tenha desenvolvido capacidades anti-drones verdadeiramente efetivas (inclusive no quesito custos), o que é absolutamente crucial; adiante voltarei a esse tema).

Primeiro consideremos o campo dos custos baixíssimos de todo o espectro: drones

Comecemos pelos drones primitivos. São aparelhos que, segundo um especialista militar russo, precisam, em termos gerais, de uma CPU 486, cerca de 1MB de memória RAM, 1GB de espaço de disco rígido e alguns sensores (hoje extremamente baratos) para capturar os sinais do sistema GPS norte-americano, do russo GLONASS ou de ambos (chamado sistema “GNSS”). De fato, enxames desses drones dos “terroristas do bem” na Síria, financiados, abastecidos e treinados pelo “Eixo da Bondade” (EUA/Arábia Saudita/Israel) atacam há anos a base russa em Khmeimin. Segundo o comandante das defesas aéreas de Khmeimin, mais de 120(!) drones foram derrubados ou neutralizados por defesas aéreas russas, só nos últimos dois anos. Obviamente, os russos sabem de coisas que alguém no “Eixo da Bondade” ignora.

O maior problema: sistemas de mísseis não devem ser usados contra drones

Alguns dos autodeclarados “especialistas” perguntaram-se por que os mísseis Patriots não derrubaram os drones dos Houthis. É propor a pergunta errada, porque mísseis são absolutamente sem efeito contra enxames de drones. E, esclarecendo desde já, não se trata de os sistemas Patriot terem desempenho muito fraco. Mesmo os eficientes S-400s russos seriam a escolha errada contra drones, individuais ou em enxame. Por quê? Por causa das seguintes características dos drones:

1. Drones típicos são pequenos, muito especificamente discretos, extremamente leves e feitos de materiais que quase não refletem sinais de radar;

2. Drones são muito lentos, o que não torna mais fácil derrubá-los mas, isso sim, dificulta muito esse tipo de ação, sobretudo porque a maior parte dos radares são projetados para rastrear e engatilhar como alvos objetos muito mais rápidos (aeronaves, mísseis balísticos, etc.);

3. Drones podem voar em rotas *extremamente* baixas, o que lhes permite esconder-se; podem voar ainda mais baixo que mísseis cruzadores voando NOE[1];

4. Drones são extremamente baratos; não faz sentido consumir mísseis de vários milhões de dólares para derrubar drones que custam 10-20 dólares (ou, mesmo, digamos, 30 mil dólares, no máximo, no ar);

5. Drones podem chegar em enxames, em grande número; número muito maior do que o número de mísseis que uma bateria pode disparar.

Tudo isso sabido e considerado, é óbvio: contra drones devem-se usar ou canhões antiaéreos (ing. AA cannons), ou sistemas de guerra eletrônica (ing. Electronic War System, EW ou EWS).

E acontece que os russos têm canhões antiaéreos e sistemas de guerra eletrônica; daí o sucesso dos russos em Khmeimim.

[Em teoria é possível destruir drones com lasers, mas exigiriam muita energia; atacar drones baratos com lasers caros é possível, mas longe de ótimo]

Arma anti-drone ideal seria o formidável Pantsir, que combina rastreamento e detecção em multicanais (optoelectronics, radar, infravermelho, bancos de dados e links de terceiros, etc.) e um canhão poderoso. Ainda melhor: o Pantsir também tem poderosos mísseis de médio alcance que podem engatilhar alvos que estejam apoiando o ataque por drones.

Sistemas anti-drones não menos formidáveis são os vários sistemas russos de guerra eletrônica empregados na Síria.

Por que são tão efetivos?

Consideremos os principais pontos frágeis dos drones

Primeiro, drones são pilotados à distância, por controle remoto, ou têm sistemas de navegação a bordo. Obviamente, como qualquer sinal, o sinal de controle remoto pode ser embaralhado. E dado que os especialistas em embaralhar sinais eletrônicos [ing. jammers] estão quase sempre mais próximos do alvo a ser atingido, do que da estação de controle remoto, é mais fácil para os jammers produzir sinais muito mais fortes, uma vez que a força do sinal diminui segundo a chamada “lei do inverso do quadrado”. Assim, em termos de emissão de energia, mesmo um sinal poderoso transmitido de muito longe provavelmente ficará reduzido a sinal muito menor e mais fraco, se estiver mais próximo do drone (i.e. próximo do alvo, conforme o provável eixo de ataque). Oh, claro, em teoria sempre se podem usar as técnicas mais mirabolantes para tentar evitar esse efeito (por exemplo frequency-hopping, etc.), mas essas ‘medidas’ fazem subir dramaticamente o peso e o custo do drone. Também é preciso considerar que quanto mais forte o sinal emitido pelo drone, maiores e mais pesadas têm de ser as células de energia instaladas a bordo, e mais pesado é o drone.

Segundo, alguns drones dependem ou de sinais de satélite (GPS/GLONASS) ou de orientação inercial [ing. inertial guidance]. Problema #1: sinais de satélite podem ser distorcidos [ing. spoofed]. Problema #2: a orientação inercial ou não é lá muito acurada ou, outra vez, é mais pesada e mais cara.

Alguns mísseis cruzadores muito caros e avançados usam TERCOM [sistema que se serve de um contorno gravado do terreno], mas é caro demais para drones leves e baratos (esses mísseis cruzadores avançados e respectivas plataformas de lançamento são os alvos para os quais foram concebidos os S-3/400s, o que, pelo menos em termos financeiros, faz sentido). Há por aí tecnologias de orientação ainda muito mais caras, para mísseis cruzadores, mas simplesmente não são aplicáveis a armas como drones – cuja maior vantagem é servir-se de uma tecnologia simples e baixos custos.

A verdade é que até um sujeito nada-tech como eu poderia construir um drone, com peças compradas online de empresas como Amazon, AliBaba, Banggood e toneladas de outras, e drones bastante efetivos para, digamos, deixar cair uma granada de mão ou outro desses explosivos, sobre posição inimiga. Alguém com algum treinamento de engenharia pode facilmente construir o tipo de drones que os “terroristas do bem” usaram contra os russos na Síria. Um país, mesmo pobre e devastado por guerra genocida, como o Iêmen, poderia facilmente construir o tipo de drones que os houthis usaram, especialmente com ajuda do Irã e do Hezbollah (esses dois últimos já tomaram com sucesso a tecnologia de controle remoto, respectivamente, dos drones norte-americanos e israelenses).

Por fim, posso garantir a vocês que, nesse momento, em países como a República Popular Democrática da Coreia (“Coreia do Norte”), China, Rússia, Irã, Iraque, Síria, Iêmen, Venezuela, Cuba, etc., equipes de engenheiros trabalham no desenvolvimento de drones de muito baixo custo; assim também, trabalham equipes de analistas militares para desenvolver novas táticas para se servir deles.

Proponho aqui que essa seja a primeira – ainda não muito claramente percebida – revolução, digamos, nos assuntos militares.

Segundo, examinemos o ponto mais alto: aeronaves de 5ª geração e Veículos Comandados à Distância de 5-6ª geração

Apesar de alguns, na Índia, terem declarado (por motivos políticos e para agradar aos EUA) que o Su-57 não seria “realmente” aeronave de 5ª geração (sob o pretexto de que seriam operados com motores de 4ª geração; e de que o Su-57 não teria o mesmo Radar Cross Section, RCS que tem o F-22), na Rússia e na China o que hoje se debate é se o Su-57 seria realmente aeronave só de 5ª geração, ou se já seria de 5ª geração+ ou, mesmo, de 6ª geração. Por quê?

Para começar, boatos a partir do Sukhoi KB e de militares russos dizem que o piloto no Su-57 é realmente uma “opção”, o que significa que o Su-57 foi concebido, desde o início, para operar absolutamente sem piloto. Pessoalmente, creio que o Su-57 tem design extremamente modular, que hoje ainda exige piloto humano, e as primeiras unidades dos S-57s provavelmente não voarão sozinhos, mas que a capacidade para remover o piloto humano a ser substituído por vários sistemas avançados já foi embutida. E que os russos, no futuro, empregarão Su-57 sem piloto.

[Esse assunto de 3ª, 4ª, 5ª e agora já de 6ª geração é vago demais para o meu gosto. Por isso prefiro evitar essas categorias, em vez de discutir com elas. O que importa é o que os sistemas de armas podem fazer, não o modo como sejam definidos, especialmente em artigo não técnico, como esse.]

Entrementes, os russos pela primeira vez exibiram o que aqui se vê:

E o que aí se vê é um Su-57 que voa junto com o novo drone russo de ataque: o Heavy Strike UAV S-70 Hunter [Veículo pilotado à distância para ataque pesado S-70 “Caçador”]. Eis o que o Ministério da Defesa da Rússia revelou recentemente sobre esse drone:

• Alcance: 6.000km (3.700 milhas)

• Altitude: 18.000 (60.000 pés)

• Velocidade máxima: 1.400km/h (1.000 milhas/h)

• Carga máxima: 6.000kg (12.000 libras)

Agora, especialistas russos dizem que esse veículo pilotado à distância pode voar só ou em enxame, ou em voo conjunto com veículo tripulado à distância Su-57. Acredito também que no futuro, um Su-57 provavelmente controlará vários drones desse tipo para ataque pesado.

[Patriotas do tipo agita-bandeirinha declararão imediatamente que o S-70 é cópia do B-2. À primeira vista, parece verdade. Mas considere o seguinte: a velocidade máxima do B-2 é, segundo a Wikipedia, 900km/h (560 milhas/h). Comparem aos 1.400km/h (1.000milhas/h), e vejam que o design de uma asa voadora supersônica exige design estrutural completamente diferente.]

O que pode fazer um Su-57 quando voa junto com o S-70?

Bem, para começar, o S-70 tem Radar Cross Section, RCS mais baixa que do Su-57 (segundo fontes russas); o Su-57 usa o S-70 como penetrador hostil de defesa aérea de longo alcance, encarregado de coletar sinais de inteligência e direcioná-los para o Su-57. Mas há mais. O Su-57 também pode usar o S-70 para atacar alvos em solo (incluindo Supressão de Defesas Aéreas Inimigas (ing. Supression of Enemy Air Defenses, SEAD) e até para ataques ar-ar. A formidável velocidade e a enorme capacidade máxima de carga de 6 toneladas do S-70 oferecem capacidades verdadeiramente formidáveis, incluindo o deslocamento de capacidades russas ar-ar, ar-terra e ar-mar.

[Alguns analistas russos têm especulado que, para operar com o S-70, o Su-57 tem de ser modificado para dois assentos, com um segundo oficial encarregado do sistema de armas (ing. Weapon System Officer, WSO que opere o S-70 do assento traseiro. Ok, ninguém sabe até agora, ainda é tudo top secret, mas acho que essa ideia destoa da filosofia do Sukhoi, de reduzir o mais possível a carga de trabalho do piloto. Sim, o formidável MiG-31 tem um operador do sistema de armas, até o novo MiG-31BM, mas a filosofia do design no gabinete do MiG é quase sempre muito diferente do que é desenvolvido pelo pessoal do Sukhoi e, além disso, há quatro décadas entre o MiG-31 e o Su-57.  Meu palpite, muito pessoal, é que as operações do S-70 serão todas automatizadas e até distribuídas ao longo da rede que conecta todos os sistemas integrados de bases e defesa aérea. Muito apreciaria comentários e correções de algum engenheiro que leia essas linhas. Afinal, são palpites.]

A gangue de trolls de sempre provavelmente objetará que a indústria de computadores/chips russa está tão atrasada em relação à eletrônica de estado sólida supostamente muito superior do ocidente, que tudo aqui não passaria de nonsense; havia um ser humano sentado dentro do S-70; a coisa não voa; o Su-57 é aeronave de 4ª geração, muito inferior ao divino-maravilhoso F-22/F-35; e toda a mesma conversa de sempre. Especialmente por eles, quero relembrar todos de que a Rússia foi o primeiro país a usar conjuntos de radares embarcados em aeronaves, nos seus MiG-31s, os quais, para início de conversa, eram capazes de intercambiar dados para definição de alvos com QUATRO (!) outras aeronaves em perfeito silêncio ‘eletrônico’ (usando os dados optoeletrônicos e redisparando esses dados). Além do mais, esses MiG-31s podiam também intercambiar dados com sistemas de radares embarcados em aviões (AWACS) e de radares em solo (SAMs). E isso, no início da década dos 80s, há quase 40 anos!

Verdade é que as forças armadas soviéticas empregaram grande quantidade de sistemas em rede muito antes de o ocidente poder contar com esses sistemas, especialmente a Força Aérea Soviética e a Marinha Soviética (e as Forças Soviéticas em Solo foram pioneiras no uso dos chamados “complexos para ataques de reconhecimento” [ing. RSC “reconnaissance-strike complexes] que foram o pesadelo da OTAN durante a Guerra Fria. Atualmente, basta ouvir de longe as lamúrias da OTAN quanto às capacidades da Rússia para Anti-Acesso/Negação de Espaço (A2/AD), para entender que os russos ainda lideram no campo de capacidades técnico-militares avançadas com as quais o ocidente mal consegue hoje sonhar.

Agora, consideremos algumas críticas feitas recentemente ao Su-57

E quanto ao fato de que o Su-57 não tem Radar Cross Section (RCS) muito baixa?

E se o Su-57 jamais tiver sido pensado para penetrar sistemas avançados e integrados de defesa aérea?

E se desde o primeiro momento os projetistas do Sukhoi tiverem sido alertados por seus colegas em Almaz-Antey, Novator, KRET ou mesmo pela boa gente na OSNAZ (SIGINT) e no 6º Diretorado GRU  de que a tecnologia “stealth” [aeronaves invisíveis aos radares] é terrivelmente superestimada?

E se se demonstrou o que sempre foi claro e evidente para os russos desde o primeiro momento, que uma RCS frontal baixa não compromete tanto outras capacidades quanto uma confiança cega, quase total, em que baixa RCS jamais seria detectada?

A ideia crucial a ser mantida em foco é que novas capacidades tecnológicas também geram novas táticas. Isso os analistas ocidentais compreendem; daí as novas capacidades rede-cêntricas do F-35. É especialmente verdade, uma vez que o F-35 não passará de patético cão de briga; e o Su-57 pode vir a ser a aeronave de mais altas capacidades que há hoje: vocês sabiam que o Su-57 trabalha com vários radares além do principal, que cobrem diferentes bandas e que dão ao Su-57 visão de 360 graus do campo de combate, mesmo sem usar os sinais do S-70 nem de radares AWACS ou SAM terrestres?). E em termos de manobrabilidade, mostro o que vocês verão abaixo como argumento:

Por fim, o caso do míssil invisível no contêiner

Lembrem-se do míssil cruzador Kalibr visto recentemente na guerra na Síria. Sabiam que pode ser disparado de um contêiner comercial típico, igual aos que se veem em caminhões, trens ou navios? Assistam a esse excelente vídeo, que explica isso:

Lembrem apenas que o Kalibr tem alcance que vai de 50km a 4.000km e que pode ser armada com uma ogiva nuclear. O que custaria à Rússia instalar esses mísseis cruzadores bem na costa dos EUA, num navio comum transportador de contêineres? Ou manter uns poucos contêineres em Cuba ou na Venezuela? É sistema tão indetectável, que os russos, se quiserem, podem pô-lo ao largo da Austrália para acertar a estação da Agência de Segurança Nacional dos EUA em Alice Springs, e ninguém nem saberia o que os atingiu. De fato, os russos pode instalar esse sistema num navio mercante civil, que navegue sob qualquer bandeira imaginável, e ancorá-lo não só onde bem entendam na costa dos EUA, mas até num porto norte-americano, dado que via de regra não se examinam os contêineres (e quando são examinados é sempre à procura de drogas ou de contrabando). Quando alguém se dá conta disso, toda a conversa sobre o ‘perigo’ de haver submarinos russos na costa da Flórida torna-se perfeitamente idiota, não é mesmo?

Agora, examinemos algumas tomadas interessantes das recentes manobras na Rússia:

Aqui, o que a mesma pessoa que postou o vídeo (Max Fisher, aqui, em seu canal YT) escreveu sobre esse sistema de defesa costeira, e que o explica muito bem:

Pela primeira vez, durante os exercícios táticos do grupo tático da Frota do Norte, em combate na ilha de Kotelny, foi usado o sistema de mísseis costeiros “Bastion”. O BRK teve sucesso no fogo contra um míssil cruzador supersônico antinavios Onyx num alvo marítimo localizado a mais de 60km no Mar de Laptev, o que confirmou a prontidão do Bastion para efetivas missões de combate no Ártico e para tarefas de proteção à zona insular e à costa da Rússia.

O Onyx é míssil cruzador antinavio universal. É projetado para combater grupos navais de superfície e navios isolados que apresentem fogo pesado e contramedidas eletrônicas. Como base do foguete há duas opções aparentemente perfeitamente idênticas para deslocamento e exportação: o Yakhont russo e o BrahMos indiano, mas com características de combate significativamente menores. Esses veículos são capazes de iniciar debaixo d’água: têm velocidade de voo de 750 metros por segundo e carregam ogiva altamente explosiva de meia tonelada. O alcance de voo do Onyx ultrapassa 600 quilômetros. Antes, usava-se o Rubezh BRK como principal sistema de míssil costeiro do grupo tático da Frota Norte. No final de agosto, o míssil atingiu com sucesso dois mísseis “Termit” alvos instalados no Mar de Laptev numa distância de mais de 50km da costa.

Permitam-me agora perguntar o seguinte: o quanto a Rússia teria de se esforçar para desenvolver uma versão nas dimensões de um contêiner comum, de um sistema de defesa costeira que use as tecnologias já usadas nos sistemas de mísseis Bastion/Yakhont/BrahMos? Pois lhes digo: dado que os anglo-sionistas já renegaram o Tratado das Forças Nucleares de Médio Alcance, os russos *já desenvolveram* uma versão de seu míssil Kalibr a ser disparado do solo, pronta para ser usada no instante em que os EUA implantarem mísseis de médio alcance na Europa.

O fato de a Rússia já ter aperfeiçoado toda uma completa família de mísseis balísticos e cruzadores que podem ser completamente ocultados de qualquer detecção, e que podem ser instalado literalmente em qualquer ponto do planeta. E podem ser armados, inclusive, com ogivas nucleares.

Essa capacidade muda completamente todas as estratégias de antes, dos EUA, para deter/conter (que ainda se mantêm meio atoladas na Guerra Fria e meio atoladas em operações de contrainsurgência/de baixa intensidade, como o que têm feito (absolutamente sem qualquer sucesso!) no Afeganistão, Iraque, Síria, Iêmen, Líbia, e na América Latina e África).

À luz do que acima se lê, o que lhes parece indicar o fluxo constante de navios da OTAN que navegam para o Mar Negro para “deter” a Rússia? Se lhes parecer ação completamente suicidária, concordo. De fato, o que todos esses navios estão fazendo é criar condições para que os russos treinem suas tripulações “a quente”, em cenário real. Mas, se algum dia acontecer guerra de tiros, a sobreviva de qualquer um e de todos os navios da OTAN no Mar Negro será medida em minutos. Literalmente!

Agora, pensemos sobre o Irã. Como já disse muitas, muitas vezes, a Rússia não entrará em guerra de grande escala contra as potências combinadas do “Eixo da Bondade”, para defender o Irã (nem qualquer outro país no planeta).

Mas pode acontecer de a Rússia cansar muito seriamente e muito completamente dos movimentos do “Eixo da Bondade” e vender ao Irã todos e quaisquer mísseis que os iranianos desejem comprar. No passado já várias vezes escrevi que sinal real de que o Irã esteja a um passo de ser atacado nunca seria a presença de navios da Marinha dos EUA no Estreito de Ormuz ou ao largo da costa do Irã, mas o contrário: uma corrida de todos os navios para fora do Estreito, e algum reposicionamento cuidadoso do núcleo dos navios da Marinha dos EUA no “guarda-chuva” de defesas aéreas dos EUA acessíveis naquele momento, em terra e no mar. Mal posso imaginar o pesadelo que será, para o Comando Central das FFAA dos EUA, CENTCOM, se o Irã começar a comprar mesmo um pequeno número de mísseis Bastions ou Kalibers ou Yakhont ou BrahMos.

Conclusão: os países do “Eixo da Bondade” estão com graves problemas!

EUA e Israel têm tremendas capacidades tecnológicas, e em tempos normais especialistas norte-americanos poderiam instalar gradualmente sistemas capazes de conter o tipo de capacidades (não necessariamente as capacidades que os russos têm hoje) que se encontram hoje em várias áreas de operações. E com certeza há dinheiro suficiente, considerando que só os EUA gastam mais para “promover a gentileza” que o restante do planeta, somado! Assim sendo, onde está o problema?

Simples: o Congresso dos EUA, que é provavelmente o parlamento mais corrupto do planeta, está no business de:

1. Sacudir bandeirinhas e declarar “antiamericano” quem não concorda; e de

2. Fazer bilhões para a nomenklatura norte-americana governante.

Assim sendo, admitir que a “cidade iluminada sobre a colina” [ing. “shining city on the hill[2]] e suas “forças armadas mais poderosas do mundo” estão rapidamente caindo diante de gente que a propaganda norte-americana descreveu durante décadas como “primitiva” e “inferior” é ideia literalmente *impensável*para políticos norte-americanos. Afinal, o público norte-americano pode começar a se perguntar por que todos esses brinquedos de guerra que custam tantos bilhões de dólares e que o complexo industrial-militar dos EUA produz sem parar há décadas até hoje não renderam sucesso algum, para nem falar de qualquer vitória significativa!

Na campanha eleitoral para a presidência, Trump tentou introduzir essa palavra de ordem. E foi imediatamente atacado pelos Democratas, por não apoiar “os melhores militares de toda a história”; e Trump rapidamente mudou de tom. Hoje, nem as armas ainda em estudo nos EUA e que os EUA ainda não têm são melhores que as armas já testadas e provavelmente já instaladas pelos russos.

Essa abordagem “tudo bem”, em questões militares é ótima, doce e leve. Mas com certeza não permite sequer identificar perigos presentes, muito menos identifica perigos futuros.

Então, claro, há a questão do dinheiro. Os EUA em sua curta história, empregaram sistemas de armas de primeira qualidade quanto às tecnologias. Meus favoritos são o Willys MBm, também chamado Jeep, e o soberbo F-16. Mas são muitos! O problema deles, pelo menos do ponto de vista da nomenklatura que governa os EUA, é que foram projetados e construídos para a guerra, para os muitos e muito diversificados campos de batalha reais aí pelo mundo. Jamais foram sistemas de armas projetados e construídos para enriquecer os já mais fantasticamente ricos!

Daí que o país que um dia produziu o Jeep hoje produza quase exclusivamente carroças de metal pesadíssimas, difíceis de dirigir e de manobrar, que vivem quebrando, mas que dá a motoristas de óculos escuros e chapéu ‘de lado’ narcisistas uma inibriante sensação de superioridade ‘macho’. E, claro, o país que projetou, construiu e usou aos milhares (foram mais de 4 mil, acho) o formidável, mas econômico, F-16, produz hoje o F-35 (sorte que colônias dos EUA, como Polônia e Japão, aceitam comprá-los só para alegrar seu bem-amado Tio Shmuel).

Do ponto de vista da nomenklatura governante nos EUA, o F-35 é retumbante, maravilhoso sucesso, não um tijolão voador high-tech! Os custos desse sistema não são prova de incompetência dos engenheiros dos EUA, nem de total cegueira de analistas militares norte-americanos. Esses custos são, isso sim, prova dos efeitos combinados de ganância infinita e infinito autoendeusamento da classe que governa os EUA.

Infelizmente, um dos melhores meios para aprender lições importantes é a derrota doída ou catastrófica. A Rússia de hoje não teria sido possível sem os horrores do “governo democrático” de Eltsin nos anos 1990s. Pensem: durante a primeira guerra da Chechênia, os russos tinham dificuldades até para montar um regimento de combate capacitado; tiveram de usar “batalhões combinados” (сводный батальон). É provavelmente o que acontecerá também com os EUA.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


[1] Sigla de Nap-of-the-earth (NOE) é um tipo de rota de voo muito próxima do solo usada pela aviação militar para que as aeronaves não sejam detectadas nos radares e possam atacar mesmo em ambiente de alta ameaça.

[2] “Cidade iluminada sobre a colina” é expressão da parábola do Sermão da Montanha. Em Mateus 5:14-16, Jesus diz aos seus ouvintes: “Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre uma colina / Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. / Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai, que está nos céus.” É expressão frequente nos discursos políticos nos EUA desde sempre, em amplo espectro, que inclui Kennedy e Reagan, por exemplo [NTs, com informações de Wikipedia].

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