Oriente Próximo

O Irã tem um plano para Nagorno-Karabakh

O vice-chanceler iraniano, Abbas Araghchi, retornou a Teerã no fim de semana após um tour regional no Azerbaijão, Rússia, Armênia e Turquia para discutir um iniciativa regional de pacificação em Nagorno-Karabakh.

Por M. K. Bhadrakumar, via OrientalReview, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Foto por Denis Balibouse.
Foto por Denis Balibouse.

O Irã revelou uma iniciativa regional para resolver o conflito em Nagorno-Karabakh. O vice-chanceler Abbas Araghchi retornou a Teerã no fim de semana após um tour regional no Azerbaijão, Rússia, Armênia e Turquia para discutir o plano de paz. O chanceler Javad Zarif explicou, desde então, o pensamento dos iranianos.

Uma reportagem no Tehran Times no domingo citou Zarif afirmando, ‘Um dos pontos importantes para a iniciativa de nosso país é que ela busca não apenas um cessar-fogo temporário, mas sim avançar em direção à resolução do conflito, a partir de declarações de compromisso de ambas as partes com um conjunto de princípios e depois com medidas, especialmente a retirada de tropas de todos os territórios ocupados’.

Existem aqui alguns elementos interessantes. Primeiro, o Irã não dá credibilidade ao chamado Grupo de Minsk, que tem reivindicado o papel de liderança na pacificação de Nagorno-Karabakh nas últimas três décadas.

O Grupo de Minsk nasceu da ordem mundial ‘unipolar’ que seguiu-se após o colapso da União Soviética. Desde sua criação em 1992 pela Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (OSCE, em inglês), a situação regional e internacional transformou-se radicalmente.

A OSCE tem atuado cada vez mais como uma ferramenta ocidental para assediar a Rússia. A organização cumpriu um papel dúbio nas investigações sobre o suposto uso de armas químicas no conflito sírio. As chances dos ‘co-presidentes’ do Grupo de Minsk – os EUA, França e Rússia – chegarem a um consenso sobre qualquer questão é nula na atual situação internacional.

Dito isso, as desconfianças de Teerã são fundamentadas. De qualquer modo, a preferência do Irã tem sempre sido por uma iniciativa de uma solução regional, o que é, claro, um princípio que o Irã tem defendido há anos. Como colocou Zarif, ‘o Irã acredita que os países da região são os que mais sofrerão com esta guerra, e são estes países que podem impactar em maior grau no fim do conflito’.

Segundo, o Irã está correto em sua avaliação de que um cessar-fogo seria apenas um remendo temporário, e que a questão central deve ser abordada, ou seja, os territórios que estão sob ocupação armênia, contra as resoluções da ONU, e a tomada de mais outros territórios azeris por Erevan.

A proposta iraniana reconhece a necessidade de esforços paralelos para se alcançar um marco que permita aos lados em conflito acordarem um ‘conjunto de princípios’ que dê primazia à ‘retirada das tropas de todos os territórios ocupados’.

Como garantia, Nagorno-Karabakh deve ter algum tipo de status especial que proteja os ‘direitos populares’ e os elos de comunicação; e também, é essencial um mecanismo de estados regionais para monitorar a implementação de tal acordo.

Teerã compartilha a preocupação de Moscou sobre a presença de elementos terroristas na região. Zarif alertou que o Irã não irá ‘tolerar’ tal situação. Como afirmou, os elementos terroristas ainda não apareceram nas regiões fronteiriças do Azerbaijão, ‘mas a probabilidade de que estejam próximos das fronteiras iranianas ainda é grande’.

Quais são as perspectivas para o plano iraniano? A iniciativa do Irã é impulsionada por fortes considerações de segurança. O último desejo do Irã é uma disseminação do conflito. O Irã mantém relações amistosas e cooperação econômica com a Armênia, Azerbaijão e Geórgia, especialmente em matéria de energia, que poderia ser prejudicada caso o conflito continue.

Além disso, a Transcaucásia faz fronteira com o Mar Cáspio, que é uma região altamente estratégica para o Irã. Teerã está profundamente apreensiva que potências extra-regionais hostis estejam prontas para explorar a instabilidade.

As relações Irã-Rússia são próximas e amistosas, e Teerã deseja que ambos continuem na mesma linha em relação à questão de Nagorno-Karabakh. Mas a relação do Irã com a Turquia adquiriu uma nova dimensão após a situação do Oriente Médio pós-Abraham Accords.

Claramente, se há algum país capaz de persuadir a Armênia à razão, este país é a Rússia. Mas para que isso ocorra, o primeiro-ministro Nikol Pashinyan deve ser levado a perceber que não pode continuar jogando. Obviamente, ele está sendo encorajado pelos Estados Unidos. Não há dúvidas que a Armênia deve desocupar o território azeri.

O Irã é um aliado natural da Rússia em Nagorno-Karabakh. Ao contrário, a Turquia comporta-se como uma potência revisionista. O Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, acertou em cheio ao condenar o envolvimento da Turquia no conflito.

‘Agora temos os turcos, que se envolveram no conflito e forneceram recursos ao Azerbaijão, aumentando o risco e o potencial destrutivo do conflito histórico. A resolução daquele conflito será feita através de negociações e discussões pacíficas, e não através do conflito armado, e certamente não com países terceiros incendiando uma situação que já é explosiva’, afirmou Pompeo no dia 16 de outubro.

Na verdade, o problema de Washington com a Turquia não se limita a Nagorno-Karabakh. Mesmo assim, qualquer tentativa turca de desestabilizar o Cáucaso deve ser firmemente combatida. (Leia o comentário na agência de notícias turca Anadolu, gabando-se que os suprimentos militares turcos ao Azerbaijão são um divisor de águas).

A melhor maneira de fazer isso será abordando a antiga queixa dos azeris. Novamente, aqui Moscou possui boas relações com a liderança em Baku e também tem formas de traçar ‘linhas vermelhas’ para a Turquia.

Entretanto, uma preocupante tendência recente é a de Moscou deixar as coisas fluírem de maneira imparcial, mesmo enquanto a casa do vizinho está em chamas. Além da Ucrânia e Belarus, a Rússia agora enfrenta o espectro de uma liderança pró-EUA emergindo na Moldávia, vizinha da Romênia (que é um país membro da OTAN). A Rússia tem sido a principal parceira estratégica do atual presidente moldavo, Igor Dodon. Mas sua rival, Maia Sandu, que citou os Estados Unidos como seu parceiro estratégico, garantiu uma estreita vantagem no primeiro turno das eleições neste domingo.

É necessária uma ação decisiva por parte da Rússia. Há agora uma janela de oportunidade para galvanizar o processo de pacificação, dado as eleições nos Estados Unidos e a pandemia de coronavírus na Europa. Mas essa oportunidade não durará por muito tempo.

Muitos outros atores extra-regionais estão arregaçando as mangas para intervir e tornar Nagorno-Karabakh em outro caos geopolíticos na fronteira sul da Rússia. A declaração do Conselheiro de Segurança Nacional estadunidense Robert O’Brien, de que a Turquia não deve participar de um esforço de paz em Nagorno-Karabakh e que ele está trabalhando com governos escandinavos para reunir uma missão de paz, é sintomática. O’Brien nem mesmo considerou consultar Moscou!

Dito isso, a iniciativa Iraniana deve ser abordada com urgência. O conflito em Nagorno-Karabakh está agora em sua sexta semana. Os ataques continuam em áreas civis e residenciais. A Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, afirmou na segunda-feira que ‘os relatos de que munições de fragmentação têm sido usadas por ambos os lados’ são ‘profundamente preocupantes’. Bachelet alertou que tais ataques ‘podem ser considerados crimes de guerra’.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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