Internacional

O ‘precedente boliviano’ e o colapso do liberalismo

A pequena margem de votos entre Trump e Biden, mesmo dando ao primeiro uma derrota eleitoral, lhe abrirá caminho para conquistar uma grande vitória política nos próximos meses e anos.

Por Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

Foto por John Locher.
Foto por John Locher.

Tudo indica que Biden sairá vencedor das eleições nos Estados Unidos. A pequena margem entre os dois candidatos, entretanto, mesmo dando a Trump uma derrota eleitoral, lhe abrirá caminho para conquistar uma grande vitória política nos próximos meses e anos.

Fraudes eleitorais não são novidade nas eleições dos Estados Unidos. Em 2000 ocorreu o famoso caso que deu a vitória a George W. Bush sobre Al Gore, após uma decisão da Suprema Corte que cessou a recontagem de votos na Flórida. E não só isso: o próprio sistema de colégio eleitoral contribui para resultados fraudulentos, que também se aplicam à eleição de George W. Bush, que venceu a disputa sem maioria popular.

O mesmo ocorreu com Trump. Foi eleito em 2016 sem a maioria popular, através do fraudulento colégio eleitoral. O princípio liberal básico de “uma cabeça, um voto” é historicamente rejeitado nos Estados Unidos, cujo sistema eleitoral foi projetado pela oligarquia financeira para impedir qualquer tipo de transformação política real.

Mas o caso atual representa uma situação ainda mais grave, dadas as condições materiais do capitalismo global e estadunidense: há uma crise econômica brutal, uma queda vertiginosa nas taxas de lucro e uma epidemia de fome dos Estados Unidos, além de uma crise cada vez maior em suas alianças geopolíticas – a própria OTAN se afunda cada vez mais em disputas internas. Isso nos aponta duas determinações relativamente contraditórias: as atuais eleições são, ao mesmo tempo, uma disputa ferrenha entre facções internas da oligarquia norte-americana, e uma continuidade do apodrecido sistema burguês que levou o país a atual catástrofe social.

O embate não será então decidido nas urnas – como nunca foi. Será definido na correlação de forças. Trump já se adiantou acusando a fraude eleitoral (que como veremos a seguir, é muito plausível), e consolidando sua maioria na Suprema Corte, que provavelmente chancelará o resultado. O máquina do Partido da Guerra apostou tanto na insatisfação popular com a calamidade social, quanto na manipulação suja do sistema eleitoral.

Vejamos a acusação de Trump. Segundo ele, estaria ocorrendo uma fraude com os votos via correio, que já havia sido alertada há semanas atrás. A apuração corria com uma ampla vantagem de Trump em diversos estados, que, após um atraso, passou a mudar de rota em direção a uma vitória Democrata. Foi o que houve no Arizona, Wisconsin, Michigan, Georgia, Pensilvânia. A preferência por Biden nos votos pelo correio são difíceis de acreditar: chegaram a mais de 90% em alguns locais do país.

Como recordou Andrew Korybko, essa situação nos remete à outro evento recente: ao golpe dirigido pelos próprios Estados Unidos contra a Bolívia, em 2019. A apuração dos votos indicava inicialmente uma vitória de Carlos Mesa, mas após uma queda no sistema, passou a demonstrar uma ampla vantagem para Evo Morales. A Organização dos Estados Americanos (OEA) – ou em outras palavras, o governo estadunidense – logo se adiantou para denunciar a fraude, afirmando que haviam diversas irregularidades na apuração (que foram todas provadas falsas recentemente). O caso da eleição boliviana era simples de explicar: as regiões que foram apuradas inicialmente eram centros urbanos de classe média-alta e branca, majoritariamente vinculadas ao entreguismo, enquanto as demais regiões, mais pobres e indígenas, apoiavam amplamente o candidato do MAS.

De qualquer maneira, Evo Morales aceitou a realização de novas eleições, sofreu um golpe violento e exilou-se. A mera suspeita de fraude e o intervencionismo estadunidense foram suficientes para que toda mídia hegemônica da América Latina tratasse as eleições bolivianas como fraudulentas e normalizasse a derrubada violenta do governo. Agora, ocorre o contrário com as eleições da “maior democracia do mundo”.

No caso das atuais eleições estadunidenses , não há nenhuma explicação plausível para que os votos via correio sejam majoritariamente democratas. A suspeita de fraude, levantada maliciosamente por Donald Trump, tem fundamentos muito mais fortes do que aqueles que causaram o estopim golpista na Bolívia e a histeria midiática sobre o “autoritarismo”. Mas neste caso, a mídia adota uma postura diretamente oposta: acusa Trump de golpista e antidemocrático, e não levanta suspeita alguma sobre o estranho processo eleitoral dos Estados Unidos.

Tudo isso se soma a completa irregularidade de regras para a contagem de votos nos estados. Alguns cessaram a contagem de votos por correio ao final da votação, outros continuaram recebendo-os por mais dois dias, outros por mais uma semana, e alguns até mesmo por um mês. Esta completa falta de padronização na forma de lidar e contar os votos via correio fortalecem o argumento de Trump sobre uma provável fraude eleitoral.

Haverá novas eleições?

Se aplicarmos a mesma métrica boliviana aos Estados Unidos, o caminho mais correto, diante das diversas irregularidades e incertezas sobre a votação e a apuração, seria a realização de novas eleições presenciais, além da presença maciça de observadores internacionais para garantir a lisura do processo. Está mais que claro que a atual catástrofe social nos Estados Unidos impede que haja qualquer processo eleitoral independente sem fraudes. A “maior democracia do mundo” está à beira do colapso e da guerra civil, expressa agora na disputa ferrenha entre setores da oligarquia norte-americana.

A única maneira de retomar as taxas de lucro nos Estados Unidos é ativando a indústria da guerra, que detém grande poder de encadeamento e de aumento da produtividade do trabalho. Sua realização – a ampliação dos conflitos bélicos em larga escala ao redor do mundo – também garante uma redução das taxas de desemprego, enviando massas de jovens à morte nos campos de batalha. O complexo industrial-militar, o coração do estado profundo norte-americano, quer derrubar Trump a todo custo por sua relutância em iniciar e agravar as intervenções militares no plano internacional (principalmente na Síria).

A consequência da campanha trumpista anti-fraude será definida então pela correlação de forças – se ela terá poder de mobilização suficiente para conter o avanço dos setores belicosos do estado americano. Um embate que, graças à catástrofe social no país, poderá levar a uma cisão política sem precedentes.

E o Brasil?

O miserável liberalismo de esquerda já se adianta para comemorar uma derrota de Trump e associa isso à uma suposta derrota de Bolsonaro no plano internacional. Não poderia haver nada mais falso e ilusório.

Primeiramente, a dominação imperialista sobre o Brasil representa para os Estados Unidos um objetivo estratégico de alto nível, já que está diretamente atrelado ao controle político e social de todo continente latinoamericano. Não há chances de que haja uma guinada na política externa americana no sentido de enfraquecer governos entreguistas nesta região. Qualquer incompatibilidade entre Bolsonaro e Biden será meramente cosmética e não terá efeitos estruturais na economia e na política latinoamericana.

Pelo contrário: como dito anteriormente, a derrota eleitoral de Trump aponta para uma futura vitória política de grandes proporções. Biden terá sob sua tutela um país à beira do colapso, tanto no plano doméstico quanto internacional, enquanto Trump sai, graças à margem eleitoral minúscula, como um líder da oposição extremamente fortalecido. Sua campanha de mobilização anti-fraude servirá como elemento de coesão de sua base e também da base de Bolsonaro.

Em resumo, o fenômeno que observamos agora é o colapso do liberalismo em larga escala. O retorno de Biden à Casa Branca não representa uma “restauração democrática” no seio do Império, mas uma necromancia macabra que reanima o cadáver da democracia liberal em sua faceta mais agressiva e sanguinária. O fetichismo da democracia impede ao miserável liberalismo de esquerda latinoamericano perceber isso – enquanto comemora o retorno de seu maior algoz.

Lembremos: o colapso da “onda rosa” latinoamericana ocorreu pelas mãos de Obama-Biden, e não de Trump.

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