Europa

França e Turquia: uma luta geopolítica e não um ‘choque de civilizações’

Os horrendos ataques terroristas na França e o confronto que emergiu entre Paris e Ancara têm questionado alianças e mudado o cenário geopolítico no Mediterrâneo Oriental e em África.

Por Paul Antonopoulos, via Global Research, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

O presidente turco, Recep Erdogan, e o presidente francês, Emmanuel Macron. Foto por Ozan Kose.
O presidente turco, Recep Erdogan, e o presidente francês, Emmanuel Macron. Foto por Ozan Kose.

Os horrendos ataques terroristas na França e o confronto que emergiu entre Paris e Ancara têm questionado alianças e mudado o cenário geopolítico no Mediterrâneo Oriental e em África. Muitos têm chamado isso de ‘choque de civilizações’ entre o ocidente liberal secular, liderado pela França, e o islamismo reacionário extremista, liderado pela Turquia.

Entretanto, um argumento mais forte é de que o confronto entre o presidente francês Emmanuel Macron e sua contraparte turca, Recep Erdogan, não é nada mais do que um reflexo do recorrente embate pelo domínio no Mediterrâneo Oriental e África. Paris e Ancara têm suas próprias razões para camuflar esse confronto em termos de um conflito cultural e religioso, ao invés de uma luta por supremacia geopolítica.

Macron está se aproveitando do justificado ódio contra os ataques terroristas perpetrados na França por muçulmanos radicais, para galvanizar o subconsciente coletivo da Europa. Ele espera que isso crie o ambiente favorável à imposição de sanções contra a Turquia que a União Européia, particularmente a Alemanha, Itália, Espanha, Hungria e Malta, têm relutado em aprovar, apesar das violações diárias de Ancara em relação à soberania grega e cipriota.

Por sua vez, Erdogan está usando conscientemente como arma uma falsa controvérsia sobre ‘islamofobia’. Ele tenta impulsionar sua reputação aos olhos do mundo muçulmano como o único líder que ousa confrontar as políticas neocoloniais da França. Entretanto, o presidente turco faz isso ao enaltecer suas próprias políticas neocoloniais no Mediterrâneo Oriental e África. Ao mesmo tempo, Erdogan está confrontando quaisquer potenciais sanções contra seu país rotulando-as de uma resposta vingativa da ‘Europa cristã’ contra a Turquia muçulmana.

Ambos os líderes, porém, carregam responsabilidades pela ascensão do extremismo islâmico na Europa, no Oriente Média e em África. Antes da eleição de Macron, o então presidente francês Nicolas Sarkozy apoiou a invasão jihadista da Líbia e desempenhou um papel central no financiamento de grupos militantes ligados à al-Qaeda após a derrubada do antigo líder líbio, Muammar Gaddafi. Estes grupos jihadistas se expandiram ao países africanos vizinhos e chegaram até mesmo na Síria, no Oriente Médio. Apesar de Macron tentar lavar as mãos em relação às ações de Sarkozy e seu sucessor François Hollande, deve-se lembrar que foi o atual presidente francês que afirmou, em 14 de abril de 2018, que ‘a linha vermelha da França havia sido ultrapassada’, referindo-se ao uso de armas químicas em Douma, que foi inicialmente atribuído ao governo sírio, porém depois desmascarado. Macron autorizou ataques franceses contra o exército sírio, apoiando diretamente, dessa forma, grupos terroristas localizados no país árabe.

A Turquia, respectivamente, tem sido por anos um ponto de abastecimento e um refúgio para organizações que eventualmente se tornaram o núcleo do ISIS e al-Nusra. Como normalmente acontece, ambos países perderam o controle das organizações extremistas que patrocinaram, com trágicas consequências para o povo de África, Oriente Médio e Europa.

Tanto Macron quanto Erdogan estão se aproveitando da volátil situação da segurança da França com absoluto cinismo, enquanto escondem, ao mesmo tempo, sua real responsabilidade em relação à ascensão do terrorismo islâmico. Erdogan afirma que a agenda de Macron é uma cruzada anti-muçulmana, enquanto é na verdade uma campanha para desmontar as redes da Irmandade Muçulmana apoiadas pela Turquia que existem na França há décadas.

O presidente francês também usará disto para atacar seus oponentes políticos. O Ministro da Educação Jean-Michel Blanquer chegou a acusar políticos de esquerda de ‘sinergia ideológica’ com os ataques terroristas e nomeou ao menos 50 grupos muçulmanos como ‘perpetradores morais’. Estes grupos estão agora sob ameaça de encerramento por autoridades francesas.

A retórica de Macron está sendo ecoada por um amplo setor da população que está furiosa com o assassinato de inocentes pelos terroristas. Além de atacar internamente seus oponentes, Macron também usará essa falsa noção de ‘choque de civilizações’ para galvanizar sanções contra a Turquia por toda União Europeia, no contexto de rivalidade com Erdogan em relação ao Mediterrâneo Oriental e África. A Turquia tem feito incursões significativas nas ex-colônias francesas em África e está rapidamente expandindo sua influência. Na verdade, Erdogan está tão determinado que parte dessa expansão inclui apoio direto a organizações terroristas fora de ex-colônias francesas, como o Boko Haram na Nigéria e o al-Shabaab na Somália.

A França não compete com os Estados Unidos ou com o Reino Unido por influência e domínio econômico sobre suas ex-colônias em África. A Turquia, no entanto, tem surgido como competidora, rotulando-se como um país islâmico ‘anticolonial’. No Mediterrâneo Oriental, porém, Erdogan tem agido unilateralmente e de maneira semelhante aos impérios do século XIX, em sua tentativa de extrair recursos das plataformas continentais da Grécia e Chipre, o que também tem antagonizado o presidente francês. Na verdade, Erdogan admitiu ontem (02/11/2020) que cada soldado turco que morre na Síria ‘torna aqueles territórios parte de nosso país’, sugerindo que ele tem pretensões territoriais expansionistas.

Macron e Erdogan estão engajando em uma disputa geopolítica que só agravou-se e aumentou graças à falsa noção de um ‘choque de civilizações’. Ambos os líderes, entretanto, estão usando dessa noção para se desafiar conforme lutam pelo domínio sobre África e o Mediterrâneo Oriental. A França, motivada pelo pan-europeísmo e protegendo seus interesses petroleiros no Mediterrâneo Oriental, continuará enfrentando os esforços turcos de extrair recursos das plataformas continentais gregas e cipriotas. Porém, Macron terá dificuldade em enfrentar os avanços turcos em África, já que Erdogan utiliza da solidariedade muçulmana e do discurso de enfrentamento ao colonialismo francês, apesar de seu comportamento imperial no Mediterrâneo e na Síria.

A rivalidade franco-turca já foi uma disputa bilateral. Mas com a Turquia encorajando ataques terroristas na França, Erdogan tem efetivamente forçado a Europa a apoiar Macron. Isso provavelmente levará à imposição de sanções contra a Turquia no próximo mês, durante a reunião do Conselho Europeu, já que Erdogan dificultou que a Alemanha, Espanha, Itália, Hungria e Malta vetem as retaliações.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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