Internacional

70 anos depois da China e a RPDC terem derrotado os EUA

Este ano, 2020, é o 70º aniversário do exército de Voluntários do Povo Chinês ter entrado na República Popular Democrática da Coreia para ajudar no que os chineses chamam "A guerra para resistir à agressão dos EUA e ajudar a Coreia".

Por Kim Petersen, via Information Clearing House, tradução via Resistir.info

Fuzileiro naval estadunidense escolta prisioneiros de guerra norte-coreanos em 1953.
Fuzileiro naval estadunidense escolta prisioneiros de guerra norte-coreanos em 1953.

Aqui está a notícia de um importante aniversário ignorado no Ocidente e pelos media corporativos. Este ano, 2020, é o 70º aniversário do exército de Voluntários do Povo Chinês (VPC) ter entrado na República Popular Democrática da Coreia (RPDC) para ajudar no que os chineses chamam “A guerra para resistir à agressão dos EUA e ajudar a Coreia”.

O Diário do Povo descreve-o assim:

A guerra, que aconteceu há 70 anos, foi imposta ao povo chinês pela invasão do imperialismo. Depois de os EUA terem ignorado repetidamente os avisos do governo chinês e de descaradamente iniciarem uma guerra contra a Coreia, atacando mesmo o território da República Popular da China (RPC), o Partido Comunista da China (PCC) e o governo chinês tomaram resolutamente a decisão histórica de resistir à agressão dos EUA, ajudar a Coreia e proteger a sua pátria, assumindo a missão de salvaguardar a paz com coragem indomável.

Depois de as forças das Nações Unidas terem invadido a RPDC em Outubro de 1950, avançando rapidamente em direcção ao rio Yalu, que faz fronteira com a China, os VCP cruzaram o Yalu e juntaram-se ao povo e ao exército da RPDC. Dois anos e nove meses depois, o VCP e a RPDC “conquistaram uma grande vitória”.

O autor americano Bruce Riedel referiu-se-lhe como “a catástrofe do Yalu”.

Em 31 de dezembro de 1950, os americanos já tinham sido levados 120 milhas [193 km] de volta ao sul do paralelo 38 e ainda estavam recuando. Seul caiu nas mãos dos exércitos de Peng Dehuai [o comandante directo dos VCP] no início de 1951. Foi de longe o pior desastre militar que as Forças Armadas dos EUA sofreram em todo o século XX.

Foto de janeiro de 1951 de bombardeiros B-29 da US Air Force lançando bombas sobre a Coreia do Norte.
Foto de janeiro de 1951 de bombardeiros B-29 da US Air Force lançando bombas sobre a Coreia do Norte.

Foi uma vitória militar para os camponeses chineses e os combatentes da RPDC, mas como deixou claro o Diário do Povo, isso não foi assumido com triunfalismo militar.

O povo chinês ama e preza a paz. Considera a salvaguarda da paz mundial e a oposição à hegemonia e à política de poder como sua responsabilidade sagrada. Opõe-se firmemente a que se recorra à ameaça da força militar para resolver disputas internacionais e interferir nos assuntos internos de outros países sob o nome da chamada democracia, liberdade e direitos humanos“.

O presidente do CPC, Xi Jinping, tinha-o dito anteriormente, em 28 de Março de 2014:

A nação chinesa, com 5 000 anos de civilização, sempre acalentou a paz. A busca pela paz, amizade e harmonia é parte integrante do carácter chinês que está profundamente enraizado no seu povo[1].

Caça Mustang P-51 da US Air Force lançando duas bombas de napalm na Coreia do Norte, em janeiro de 1951.
Caça Mustang P-51 da US Air Force lançando duas bombas de napalm na Coreia do Norte, em janeiro de 1951.

Como salientou o Diário do Povo:

A vitória da Guerra para Resistir à Agressão dos EUA e Ajudar a Coreia prova que uma nação, que está desperta e ousa lutar por sua glória, independência e segurança, é invencível“.

Será isto verdade em todos os casos? O tamanho relativo das nações combatentes e o nível de desenvolvimento militar e tecnológico provavelmente desempenham um grande papel. No entanto, existem vários exemplos que apoiam aquela afirmação.

Por exemplo, considere-se que o empobrecido Iémen (população 28,5 milhões) não apenas resistiu firmemente à invasão de 2015 pela Arábia Saudita (população de 33,7 milhões) rica em petróleo, apoiada pelos EUA mas também infligiu alguns graves danos estratégicos ao invasor. E os EUA ainda estão atolados no Afeganistão depois de 20 anos. Após a derrota vietnamita dos imperialistas franceses, que foram auxiliados pelos EUA, os militares norte-americanos sucederam-lhes, com o apoio militar de aliados como a Austrália e a Coreia do Sul. O resultado militar final mostrou pessoal dos EUA fugindo em helicópteros dos telhados de Saigão.

A RPDC nunca atacou os EUA. Foram apenas os EUA, quando intervieram na guerra civil coreana, que atacaram a RPDC. Durante a guerra EUA-ONU-China-Coreia, os EUA destruíram plantações, reservas de alimentos e a rede de energia quando atacaram a RPDC[2] – acções destinadas a causar escassez de alimentos. Foi uma guerra em que os EUA usaram armas biológicas e químicas[3]. Os comandantes militares dos EUA chegaram mesmo a solicitar permissão para usar armas nucleares[4]. Os EUA causaram enorme destruição durante a guerra na península, uma guerra que vários afirmam ter sido iniciada pelos EUA e a República da Coreia (RdC)[5]. Houve várias incursões de tropas da RdC no Norte que precederam a invasão pela RPDC que começou em 25 de Junho de 1950[6].

Tropas turcas capturadas na Coreia. O imperialismo utilizou tropas de seus vassalos na sua guerra de agressão, e enviava-as para as frentes mais perigosas a fim de poupar suas próprias.
Tropas turcas capturadas na Coreia. O imperialismo utilizou tropas de seus vassalos na sua guerra de agressão, e enviava-as para as frentes mais perigosas a fim de poupar suas próprias.

O especialista em questões coreanas Bruce Cummings escreveu: “são os americanos que carregam a maior parte da responsabilidade pelo paralelo 38”[7]. A RPDC e a China culpam os EUA pela guerra – uma culpabilização logicamente inatacável. Porque se os EUA não tivessem insistido em dividir a península coreana, o casus belli de reunir as duas Coreias não teria existido, consequentemente, a situação de segurança precária de hoje teria sido evitada[8][9].

Consequências para a China da Guerra para Resistir à Agressão dos EUA e Ajudar a Coreia

Hoje, embora cercada de sanções económicas esmagadoras, a RPDC é independente e totalmente capaz de impedir qualquer ataque. Seria tolice atacar um oponente com armas nucleares. A RPDC, por sua vez, prometeu não usar primeiro armas nucleares.

Na frente China-EUA, os EUA anulam o seu compromisso de reconhecer uma única China, fornecendo armamento militar à província separatista de Formosa (Taiwan). A Guerra para Resistir à Agressão dos EUA e Ajudar a Coreia afectou profundamente os planos do presidente Mao Zedong e das forças comunistas de libertar Formosa do Kuomintang (KMT) e reincorporá-la à pátria chinesa[10].

Tal como aconteceu com a divisão da península coreana, os EUA foram cúmplices na separação de Formosa da China continental,

O Generalíssimo do KMT [Chiang Kai-shek também conhecido como Jiang Jieshi], a sua corte e seus soldados fugiram para a ilha de Formosa. Haviam preparado sua entrada dois anos antes, aterrorizando a população com calúnias até a submissão – um massacre que tirou a vida a cerca de 28 mil pessoas. Antes da fuga dos nacionalistas para a ilha, o governo dos Estados Unidos não tinha dúvidas de que Formosa fazia parte da China. Posteriormente, a incerteza começou a invadir as mentes dos funcionários de Washington. A crise foi resolvida de uma maneira notavelmente simples: os EUA concordaram com Chiang Kai-shek que a maneira adequada de ver a situação não era que Formosa pertencia à China, mas que Formosa era a China.[11]

 A China cresce economicamente enquanto os EUA lutam contra um crescimento negativo. Embora agora militarmente poderosa, a China está comprometida com uma existência pacífica.

O resultado expectável é que, com os EUA em declínio, um dia os seus parentes de Formosa retornarão com orgulho à China ressurgente e unificada.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

Sugestões de leitura:

Report of the International Scientific Commission for the Investigation of the Facts Concerning Bacterial Warfare in Korea and China, Pequim, 1952, 764 páginas.

• Kim Chol Man, El origen del problema coreano, Ediciones en Lenguas Extranjeras, Pyongyang, 2018, 58 páginas.


[1] Xi Jinping, “China’s Commitment to Peaceful Development” in The Governance of China (Beijing: Foreign Languages Press, 2014).

[2] Nhial Esso, What You Don’t Know about North Korea Could Fill a Book (Intransitive Publishers International, 2013): 63.

[3] Ver (23 de junho de 2001). Korean International War Crimes Tribunal: Report on U.S. Crimes in Korea 1945-2000, (Korean Truth Commission).

[4] Bruce Cummings, “Korea: forgotten nuclear threats”, Le Monde diplomatique, dezembro de 2004.

[5] Ver Ho Jong Ho, Kang Sok Hui, and Pak Thae Ho, The US Imperialists Started the Korean War (Foreign Languages Publishing House, 1993).

[6] Ver Won Myong Uk and Kim Hak Chol, Distortion of US Provocation of Korean War (Pyongyang : Foreign Languages Publishing House, 2003).

[7] Bruce Cumings, Korea’s Place in the Sun: A Modern History (New York: W.W. Norton & Co., 2005): 186.

[8] Carole Cameron Shaw, The Foreign Destruction of Korean Independence (Seoul: Seoul National University Press, 2007).

[9] Nhial, 11-22.

[10] Lin Cheng-yi, “The legacy of the Korean War: Impact on U.S.-Taiwan relations,” Journal of Northeast Asian Studies, Winter 92(11) Issue 4, pp. 40.

[11] William Blum, Killing Hope (Zed Books, 2003): 23.

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