África

A Nigéria se aproxima rapidamente de um cenário assustador

A atenção mundial se voltou abruptamente à Nigéria, o país mais populoso de África, após o súbito surto de violência em Lagos, a maior cidade nigeriana.

Por Andrew Korybko, via Global Research, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Homens armados são vistos próximos a pneus em chamas em Lagos, a maior cidade da Nigéria. Foto por UnEarthical.

O súbito surto de violência na maior cidade nigeriana está levando o país mais populoso de África em direção ao assustador cenário da desestabilização generalizada, o que poderá ter tremendas consequências humanitárias e geopolíticas caso não seja contido antes de sair do controle.

A atenção mundial se voltou abruptamente ao país mais populoso de África na quarta-feira (21/10/2020) após o súbito surto de violência em Lagos, a maior cidade da Nigéria. A situação ainda é extremamente fluida e não há nenhum consenso sobre o que exatamente aconteceu, exceto que os serviços de segurança e os manifestantes entraram em confronto sobre a questão do Esquadrão Especial Anti-Roubo (Special Anti-Robbery Squad, SARS), que já foi anteriormente acusado pela Anistia Internacional de cometer sérias violações de direitos humanos. Segundo alguns relatos, os serviços de segurança abriram fogo contra manifestantes pacíficos, outros afirmam que os próprios manifestantes iniciaram os ataques sem nenhuma provocação e foram portanto os responsáveis pela escalada violenta, enquanto outra interpretação é de que provocadores (possivelmente enviados pelo governo) se infiltraram nos protestos e causaram o cenário anterior. Ao menos 12 pessoas foram mortas de acordo com a estimativa da Anistia Internacional e Lagos foi colocada em um toque de recolher de 24 horas.

Uma excessiva atenção internacional

Observadores casuais podem se surpreender pela atenção que esse evento gerou, já que atos de violência muito piores acontecem rotineiramente em outras partes de África, como em Burkina Faso e no Congo, mas raramente são mencionados na mídia hegemônica. A situação na Nigéria é diferente, já que é o país mais populoso e a maior economia de África, o que significa que simplesmente não pode ser ignorado. Além disso, a diáspora nigeriana é muito patriota e apaixonada por sua nacionalidade, o que ajuda muito na conscientização sobre os eventos no país. Assim que a violência viralizou, muitas celebridades americanas rapidamente se expressaram nas redes sociais em apoio aos manifestantes anti-SARS, o que pode ser espontâneo e sincero ou um mero cálculo comercial. Independente da motivação, eles ajudaram a garantir que todos no mundo falassem sobre a Nigéria, o que também coincidiu com as condenações do governo por parte do candidato presidencial Democrata, Joe Biden, e a ex-secretária de Estado, Hillary Clinton.

Visões distintas sobre a reforma do serviço de segurança

Antes de discutir cenários sombrios que poderão se desdobrar no futuro próximo, é importante que o leitor tenha uma melhor compreensão de como tudo chegou a este ponto. A sociedade cosmopolita da Nigéria tem muitas frustrações reprimidas, tanto gerais, como econômicas e anti-corrupção, quanto mais particulares, como as relacionadas aos interesses de seus muitos grupos identitários. O estado, que tem estado historicamente sob forte influência das forças armadas, está sentindo essa pressão e pode ter suas próprias preocupações legítimas em relação a desestabilizações súbitas que podem sair do controle e “balcanizar” o país – em linha com cenários de “guerra híbrida” identificados pelo autor no seu extenso estudo de risco estratégico de 2017. O etnicamente diverso movimento anti-SARS atual está agitando reformas estruturais dos serviços de segurança, enquanto seu alvo é cauteloso sobre mudanças rápidas e amplas, que podem causar a perda de suas capacidades e seu controle.

Reformas superficiais provocaram mais protestos

A reforma superficial do estado para dissolver o SARS e a promessa de substituí-lo por uma nova unidade policial treinada pela Cruz Vermelha não satisfez os manifestantes, que querem que seus ex-membros sejam responsabilizados e não apenas transferidos para outras unidades. Eles também não acreditam que o novo treinamento seria suficiente para garantir que os abusos não se repitam, e exigem maior supervisão, transparência, avaliações psicológicas e novos oficiais. Do ponto de vista dos serviços de segurança, isso poderá sabotar sua capacidade de lidar com ameaças legítimas, ainda que dê maior segurança contra agentes que cometam abusos humanitários contra a população. Após o surto de violência que ocorreu por circunstâncias obscuras, ambos os lados aparentemente se atacaram, com manifestantes queimando construções, incluindo o Tribunal Superior de Lagos, enquanto as forças de segurança literalmente os caçavam nas ruas, podendo até mesmo terem matado pessoas inocentes.

Cenários de escalada

Alguns cenários poderão se desenvolver para além da melhor situação possível, de redução das tensões. O primeiro é o qual as forças de segurança impõem (por tempo indefinido) um duro regime marcial, usando este tempo para identificar suspeitos e possivelmente aterrorizar a população, visando também pessoas inocentes com o objetivo (contraproducente) de forçá-la à submissão e conter quaisquer novos protestos. O segundo é a continuidade dos confrontos, ainda que com frequência e intensidade diferentes, independentemente da extensão de um regime de lei marcial. Isto e o terceiro cenário de maiores distúrbios se espalhando pelo país podem ser explorados por mais grupos identitários (étnicos, regionais, religiosos, etc.) incluindo aqueles que utilizam métodos terroristas. Todos os quatro cenários podem radicalizar pessoas ao ponto de serem suscetíveis às mensagens destes grupos, e levar a uma significativa pressão internacional através de sanções e outros meios, e/ou resultar em um ajuste do regime (reforma), mudança de regime (auto-explicativo) ou um reboot do regime (mudança constitucional radical).

Algumas observações até aqui

Independemente do que ocorrer, algumas observações podem ser feitas sobre o que aconteceu até agora. A primeira é que o movimento anti-corrupção tem até agora provado sua capacidade de unir diversas pessoas sob uma única bandeira, o que é significativo. Segundo, seus protestos foram facilitados pela proliferação dos telefones móveis e mídias sociais, que estão se popularizando muito na Nigéria. Terceiro, ainda que elementos tecnológicos de Revoluções Coloridas estejam sendo implementados, não deve-se assumir automaticamente que isso significa que há um controle estrangeiro por detrás dos eventos, ou que a causa em si é ilegítima. O quarto ponto é que o movimento tem sido capaz de levar muitas pessoas às ruas simplesmente porque têm oportunidade de protestar, já que muitos não possuem empregos formais (ou qualquer emprego), expondo as consequências políticas dos desafios econômicos da Nigéria, que podem ser exacerbados por sanções. E quinto, ciclos auto-sustentáveis de desordem não são difíceis de provocar em contextos de tensão, independente de qual lado é o culpado.

Os piores cenários

O pior cenário de todos, esperado por ninguém, é que a situação piore ao ponto de uma crise nacional que pode desencadear o colapso do maior país africano, piorando seus problemas ao ponto de uma guerra civil multilateral. Até agora, as chances disto acontecer são baixas, mas não pode ser descartado. Da perspectiva ocidental, um cenário um pouco menos desastroso seria que o estado não ceda às demandas dos manifestantes, apesar de uma possível pressão forte de sanções no futuro próximo. Sob estas circunstâncias, e especialmente caso a violência continue, a população poderá se desesperar e radicalizar ainda mais, enquanto as autoridades poderão se aproximar mais da China em resposta ao abandono de seus ex-parceiros ocidentais. Neste caso, mesmo se uma mudança/ajuste/reboot de regime se inicie, o maior rival geopolítico do ocidente poderá conseguir ampliar sua influência no país ao ponto de garantir que tais consequências não afetem seus novos interesses por lá.

Reflexões finais

É difícil dizer o que ocorrerá na Nigéria, já que nenhum observador tem informações suficientes sobre o movimento dos protestos, os planos de pressão internacional, e sobre os cálculos das forças de segurança para fazer previsões precisas sobre a situação. Contudo, ainda é possível analisar as origens, os desenvolvimentos recentes e os contornos mais amplos da situação para obter uma melhor compreensão sobre a totalidade, como o autor buscou fazer. Isso deverá com sorte ajudar os observadores a identificarem tendências relevantes relacionadas à crise emergente, que poderiam, a partir daí, facilitar a criação de análises mais afinadas para melhor prever possíveis evoluções. Apesar da situação parecer completamente interna até agora, o aumento da atenção internacional por parte de influentes figuras políticas podem apontar que atores estrangeiros poderão em breve tentar influenciar no curso dos eventos, por meio de sanções ou até mais diretamente, apoiando certas forças antigoverno, o que pode tornar tudo ainda pior.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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