Ásia

Uma virada econômica para a China pós-Covid

É cada vez mais evidente que o modelo de desenvolvimento protagonista do milagre econômico chinês está chegando ao seu fim. Resta reinventar-se ou morrer.

Por Isabel Valverde, via Observatorio de la Política China, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Foto via VCG/VCG.
Foto via VCG/VCG.

É cada vez mais evidente que o modelo de desenvolvimento protagonista do milagre econômico chinês está chegando ao seu fim. A China não pode seguir dependendo de um modelo produtivo ancorado nas exportações se aspira converter-se em uma economia desenvolvida. O sistema está ruindo sobre seu próprio peso, e com a progressiva e inevitável tendência de alta dos salários, a China é um destino cada vez menos atrativo para a produção de manufaturas de baixo valor agregado. Resta reinventar-se ou morrer.

Com este objetivo, as altas autoridades do partido falam há meses de um novo modelo de desenvolvimento, o sistema de circulação dual. Sua mecânica é simples: consiste em priorizar o mercado interno ou a “circulação interna” para poder continuar a trilhar o crescimento econômico, sem depender excessivamente do comércio internacional ou da “circulação exterior”, como vem sendo o caso desde que a China integrou-se à economia mundial. Em resumo, busca construir uma economia mais auto suficiente e equilibrada, que se sustente em um mercado interno potente e capaz de neutralizar contratempos no exterior. Entretanto, isso não significa um retorno ao isolamento ou o abandono da circulação externa, mas sim que esta passa agora a um segundo plano como um motor de crescimento. E mais, fomentar o consumo interno passa inevitavelmente por abrir as portas ao investimento estrangeiro e melhorar o tratamento às empresas estrangeiras, como tem prometido Xi repetidas vezes nos últimos meses. A introdução do modelo de circulação dual não é uma mera questão semântica. Espera-se que se converta em um dos temas centrais do XIV Plano Quinquenal que está sendo discutido esta semana (26/10/2020) pelo Comitê Central do PCCh e que se tornará o roteiro do período 2021-2025.

É sabido há tempos que Pequim necessita recalibrar a economia chinesa para um modelo mais sustentável a longo prazo. A última década foi marcada pelo foco na oferta, com um forte investimento em ciência e pesquisa, assim com a famosa iniciativa Made in China 2025, que visa transformar o país em uma potência tecnológica. A diferença que traz o sistema de circulação dual é a vontade por parte do Bureau Político de fazer do estímulo da demanda interna o eixo central de um novo modelo de desenvolvimento. Fica claro que o objetivo agora é reduzir a superexposição a um contexto global marcado por uma virada incipiente ao protecionismo e ao nacionalismo econômico.

Além disso, as questões estruturais têm se somado a um cenário geopolítico cada vez mais hostil para o gigante asiático. Sem nenhuma dúvida, a maior confrontação vem dos Estados Unidos: a guerra comercial, o veto a certas empresas tecnológicas como a Huawei ou ByteDance (Tik-Tok) ou as restrições à exportação de chips e semicondutores – componentes essenciais para qualquer produto eletrônico – por motivos de segurança nacional ou proteção à propriedade intelectual, estão deixando Pequim em apuros. Mas até Bruxelas mostra-se agora receosa com as relações sino-europeias, chegando até a taxar a China de “rival sistêmico”. Se somarmos a isso sua crescente percepção desfavorável em países industrializados – como mostrou a recente pesquisa do Pew Research Center – assim como a incessante tensão no Mar do Sul da China, o panorama para Xi Jinping não é muito alentador. Mesmo considerando que a China não teria se desenvolvido em tal velocidade se não tivesse se convertido na fábrica do mundo, já é mais que evidente que essa dependência em relação ao exterior está se tornando progressivamente uma ameaça à sobrevivência do regime.

Um ciclo vicioso difícil de escapar

A missão é clara: que sejam os próprios chineses que absorvam uma produção nacional cada vez mais sofisticada. E ainda que as oportunidades de crescimento apresentadas por um mercado interno de mais de 1 bilhão de pessoas sejam incomparáveis, romper com este ciclo vicioso não será uma tarefa fácil para Xi.

O resultado paradoxal que enquanto as altas instâncias do PCCh passam meses enfatizando a importância do mercado interno, a China tenha protagonizado uma recuperação espectacular graças precisamente aos estímulos colossais à oferta. Estes investimentos não têm feito mais do que alimentar a máquina de exportações, ancorando a recuperação econômica neste velho modelo e engrossando níveis de dívidas pública e privada cada vez mais preocupantes.

De todas as formas, a jogada tem corrido bem para Xi, fazendo com que as economias ocidentais invejem a China, enquanto morrem entre confinamentos e restrições. As exportações têm disparado durante os últimos meses, protagonizando um espetacular crescimento de 4,9% no terceiro trimestre. Os dados de setembro corroboram a tendência de alta da produção industrial – subindo 6,9% no ano – enquanto o consumo, estagnado há meses, dá esperanças pela primeira vez desde o início da pandemia, graças ao aumento das vendas de produtos de luxo. Agora que as economias ocidentais fecham novamente durante uma segunda onda, todos os olhos estão voltados para ver se a confiança do consumidor chinês permanecerá por tempo suficiente para absorver a perda de demanda externa.

É aqui onde jaz o verdadeiro problema. Na ausência de políticas redistributivas destinadas a aumentar a renda das classes médias – que formam o grosso do consumo nos países desenvolvidos – será muito difícil potencializar a “circulação interna”. Os seguros-desemprego e outros auxílios sociais são insuficientes, e, em muitos casos, estão associados à posse de uma autorização de residência (ou hukou) – o qual não têm acesso milhões de imigrantes trabalhadores. E se acrescentamos a tendência natural de poupança das sociedades confucianas, fica cada vez mais claro que o aumento da demanda envolve necessariamente colocar dinheiro no bolso dos consumidores, custe o que custar.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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