Brasil

Evangelistão do pó: acordo entre o estado e o crime organizado visando a ‘pacificação da sociedade’ e o controle do poder

Segue em andamento na América Latina um plano de reformulação do Estado Nacional e da Sociedade Civil, no sentido de eliminar o poder das eleições e impor as decisões do capital transnacional e de seus representantes locais.

Por Coletivo D.E. Latinoamericano, via Duplo Expresso

Foto por Yasuyoshi Chiba.
Foto por Yasuyoshi Chiba.

Segue em andamento na América Latina (A.L.) um plano de reformulação do Estado Nacional e da Sociedade Civil, no sentido de eliminar o poder das eleições e impor as decisões do capital transnacional e de seus representantes locais àquele que consideram seu inimigo: “o eleitor – contra o qual não se medem esforços para manipular as ideias e, assim, posicioná-lo contrário aos projetos considerados nacionalistas e orientados aos interesses populares e à causa dos trabalhadores.

Dessa forma, visando dominar nações, tomar posse de seus recursos naturais, públicos e financeiros e explorar seus territórios e populações (dominação de espectro total), utilizam a dissonância cognitiva como estratégia de guerra de informação e promove-se uma falsa compreensão e consequente negação da realidade, transformando o eleitor comum em peça de fácil manobra no jogo político configurado num contexto – mais amplo – de uma guerra híbrida.

A DEA, agência norte-americana “reguladora” do tráfico de drogas internacional (aspas ironicamente colocadas por Romulus Maya), tem um papel fundamental nesse processo e age para criar condições e dar garantias para que o consórcio formado entre autoridades de vários setores institucionais da sociedade e o narcotráfico, possa administrar negócios legais e ilegais na região, sob a tutela de governos alçados ao poder pelas mãos cuidadosas do Estado Profundo (Deep State) norte-americano e seus tentáculos nos países de seu interesse, cujo financiamento é pago pelos traficantes.

Esse processo, que aqui no Duplo Expresso é denominado “Evangelistão do Pó”, já foi abordado por Romulus Maya e seus colaboradores e convidados, em programas, artigos e publicações nas redes sociais, e funciona assim:

• A presença da DEA na América Latina garante, em troca de informações e caminhos privilegiados para o narcotráfico, o pagamento (ao Tio Sam e seus parceiros) de um percentual acordado pelos “negócios” realizados pelos traficantes. Esse pagamento é feito através de depósitos em paraísos fiscais, usando doleiros, e, parte desse dinheiro, vai financiar operações secretas e de desestabilização mundo afora, promovidas pelo Deep State estadunidense (espionagem, primaveras, golpes, invasões, etc.);

• Assim, o capital financeiro acumulado pelo tráfico é “reciclado” em paraísos fiscais, protegidos pelos EUA (com a banca dando cobertura a todo o esquema), e o dinheiro sujo é lavado, por exemplo, na compra de ativos financeiros como as ações de empresas com altos volumes de negociação e valor de mercado (os chamados blue-chips da Bolsa de Valores);

• Os EUA abatem parte do seu déficit direto em conta corrente e o dinheiro, que antes ficava enterrado em malas sob o solo de fazendas (como fazia Pablo Escobar, morto pela DEA), volta limpo para o país e ajuda a “montar um caixa” para financiar a investida sobre os Países não alinhados aos seus interesses imperialistas;

• Para se ter uma ideia do montante que a livre circulação de dinheiro que esse esquema gera , entre 1990 e 1999 houve o acréscimo de USD 4 trilhões (milhões de milhões) nos fluxos financeiros internacionais dos EUA sem origem identificada.

No Brasil, esse esquema estabelece relação com o “milagre” do agronegócio, mas também explica, em parte, a pujante ascensão financeira de determinadas derivações religiosas nos últimos anos.

É de conhecimento geral que o agronegócio funciona como lavanderia para o crime organizado, camuflando a origem do dinheiro sujo do narcotráfico em operações fictícias de venda de bois e grãos – estratagema conhecido como vaca-papel e soja-papel – e também mascarando o escoamento das drogas, através dos carregamentos de soja e outros grãos.

Da mesma forma, não é de hoje que se sabe da existência de um estreitamento de laços entre o tráfico e uma parcela representativa de igrejas com o objetivo de facilitar a lavagem do dinheiro oriundo dos negócios ilegais do crime organizado. Assim, a doação dos fiéis, nos templos onde esses laços são estabelecidos, junta-se “milagrosamente” ao dinheiro do tráfico. Aliás, em várias regiões do Brasil há uma pressão, por parte de facções criminosas, para que as pessoas se convertam a específicas representações de igrejas.

A ideia desse esquema é submeter o povo a uma governança formatada nos moldes “milicianos”, onde contravenções são toleradas e o narcotráfico faz a reciclagem do capital financeiro que acumula em suas transações, institucionalmente amparado pela juristocracia (que age em sinergia com setores militares) e com o suporte da banca, que dá cobertura a todo o esquema (milícia = Estado;   milicianos + evangélicos = votos e poder;   milícia e tráfico = sócios).

Então, quando não conseguem alçar (“de primeira”) seus alinhados ao poder, agem vigorosamente para desestabilizar os governantes que não compartilham do esquema ou que podem atrapalhá-lo, e, consequentemente, também podem atrapalhar os interesses imperialistas, traçados pelo Deep State americano sob influência de Israel, junto com seus representantes locais.

As lideranças não alinhadas são defenestradas do poder, enquanto os membros ou aqueles a serviço do Deep State” em sua versão Tabajara (no sistema judiciário e militar) permanecem, mantendo e fortalecendo, a estrutura da organização que os garante no poder. Como bem lembrou Romulus Maya, quase se chegou ao clímax desse esquema , com o Aécio eleito presidente: “Pior do que está, só quando um “chefe” sair eleito”.

Dessa forma, enquanto os meios de comunicação, a justiça, as polícias e os partidos políticos desviam o foco, e não apresentam denúncias sérias e realizam investigações mais incisivas e com real poder de enfrentamento ao narcotráfico, os “negócios” (inclusive os religiosos) e o crime organizado vão caminhando de mãos dadas (como no enredo da música, na surdina e “por debaixo dos panos“).

Na organização de todo esse esquema, a operação Lava-Jato e o Juiz Sérgio Moro, com seu “combate” ao crime organizado no Brasil, fazem o papel que a DEA, com sua “Guerra” às Drogas, faz na América Latina, e cujo “objetivo” é “pacificar”, protegendo quem pagar o “percentual acertado”. Os inimigos dos que pagam a taxa de proteção são perseguidos, e, é claro, para mostrar serviço para a classe média, de vez em quando, exterminam alguns pretos e pobres.

O caso, envolvendo a prisão do falso advogado americano-argentino-israelense, Marcelo D’Alessio (o chefe da DEA na Argentina), ilustra bem como funciona o esquema e a sua semelhança com a Lava Jato é muito reveladora.

Escondido pela imprensa brasileira, o caso revela como o juiz federal (argentino) Alejo Ramos Padilla, que não estava no esquema orquestrado pelo Império anglo/saxão/sionista, processou D’Alessio como integrante de uma associação ilícita, com ligação com a espionagem americana e israelense e com a atuação de membros do Judiciário da “Lava-Jato argentina”, do cartel midiático local (Clarín) e também do governo argentino (de direita), para tentar incriminar Cristina Kirchner e aliados.

O juiz Padilha identificou a existência dessa articulação entre os serviços de inteligência argentino e americano com a Justiça local, atentando contra o sistema democrático na Argentina, e apontou a formação de dossiês e as armações e direcionamentos de causas judiciais como principais estratégias utilizadas para esse intento, implodindo, assim, a versão portenha da operação Lava-Jato brasileira.

Graças ao empenho desse juiz, a Argentina, pelo menos momentaneamente, conseguiu se libertar das garras e do jugo imperialista e venceu a tentativa de golpe judiciário/midiático sofrida, o que infelizmente não aconteceu por aqui.

Ao contrário do que aconteceu na Argentina, Sérgio Moro nunca intimou o mega-doleiro Dario Messer, que, fazendo um paralelo com o caso portenho, supostamente realiza(va), aqui, função semelhante a de D’Alessio, tendo ambos (doleiros) estreitas ligações com os EUA e Israel.

E a pergunta que fica, é: por que, apesar do nome de Dario Messer constar na delação de vários diretores da Odebrecht, colhidas por Sérgio Moro no âmbito da Lava-Jato, ele nunca foi “convidado” para prestar depoimento em Curitiba?

A resposta a esta pergunta passa, necessariamente, pela compreensão do que está por trás dos interesses dos EUA e de Israel na A.L. e no Brasil. E, é claro, que além da questão da nossa subserviência e colonização, visando a subtração do nosso patrimônio e a nossa manutenção como meros fornecedores de matéria-prima e de mão-de-obra barata, tem relação com a garantia da livre circulação do pó.

Essa garantia (da livre circulação do pó) é um importante fator para a manutenção de um círculo que tende a se perpetuar: o narcotráfico alimenta os cofres imperialistas, que promovem desestabilização e ascensão de governos – de acordo com seus interesses – e estes governos, por sua vez, com o apoio do narcotráfico, tendem a permanecer no poder e, assim, retroalimentam todo o sistema.

A parceria estabelecida entre Israel e o governo Macri na Argentina para “patrulhar” o Rio Paraná, na Tríplice Fronteira Brasil/Argentina/Paraguai (zona de grande circulação de drogas), e o atual interesse do governo brasileiro em fazer parcerias com o tão distante governo de Israel e ser, tão ridiculamente subalterno aos EUA, nos ajudam a entender o funcionamento desse processo e como esses governantes chegaram ao poder (quem os financiou).

Além disso, esse esquema com o narcotráfico, favorece a estruturação de uma economia paralela, muito útil a governos cujas economias foram fragilizadas e que se organizam principalmente nos setores menos complexos (por exemplo, o agronegócio). Neste contexto, o crime organizado fornece “empregos” e realiza ações de “bem-estar” e de “segurança” onde o poder público não tem interesse de ir e/ou de realizar.

Portanto, com a diminuição das funções do Estado e a degradação da economia, o crime organizado vai substituindo o poder público no seu papel de gerador de oportunidades e empregos, assim como, vai suprindo as lacunas relacionadas aos cuidados com a população. Dessa forma, indicadores econômicos e relativos à violência são melhorados (“pacificação do crime”), com a vantagem de que o crime organizado ainda pode exercer a função de “auxiliar” na repressão de atividades inconvenientes aos olhos do governo, como os ativismos político e social.

Em síntese, podemos dizer, em acordo com o DEcionário (glossário com os termos criados e usados no Duplo Expresso), que a expressão “Evangelistão do Pó” caracteriza a aliança entre o narcotráfico e autoridades (militares e civis com ligações no ambiente político, judiciário e religioso) visando o controle, entre outras coisas, do fluxo do comércio ilegal de drogas e de armas, lavagem de dinheiro e caixa 2 de parcela da classe política.

Essa aliança se estabelece como parte de um plano para a institucionalização do crime organizado, selada por meio de um acordo de “armistício” entre organizações criminosas e o Estado (sob a gerência militar), e visa, principalmente, reduzir a mortalidade e a criminalidade “aparente” na sociedade, além de garantir o controle do poder e a manutenção da ordem pública através da ação do crime organizado.

Uma forma ampliada de um sistema conhecido como a “Pax Paulistana”, também conhecida como a “Pax Brasiliensis”. Esquema no qual o crime organizado recebe, em troca dos “favores” que presta ao Estado, caminhos privilegiados para o narcotráfico e para a lavagem de dinheiro via “negócios”, contravenções toleradas, etc.

Parcela representativa das igrejas evangélicas faz parte desse processo, servindo como um depósito de mão-de-obra e um privilegiado espaço para esquentar o dinheiro frio do crime. Em decorrência disso, esse esquema ficou conhecido como o “Evangelistão do Pó” ou a “Pax do Evangelistão do Pó”. Um esquema que envolve um processo muito dinâmico, que vai das corporações do crime organizado a cúpula mais alta do governo, e cuja estrutura de funcionamento explica, em grande parte, o golpe de 2016 e a ação imperialista no Brasil e na América Latina.

Portanto, esse é um esquema de fundamental importância na atual engrenagem de configuração política e econômica do Brasil, um Estado Nacional submetido a uma agressiva guerra híbrida, cujo espectro – tema do livro de Piero Leirner – precisa ser estudado, conforme palavras de Pepe Escobar, sob pena de não se conseguir entender a complexidade do que se passa no País.

Segue abaixo uma lista com links para melhor entendimento e aprofundamento do tema:

Sobre Narco golpes

Sobre a geopolítica das drogas e golpes

Organograma do Evangelistão do Pó

Sobre a farsa da Lava-Jato

Sobre lavagem de dinheiro CC5gate/Banestadoleaks/Pepe Escobar

Sobre Dario Messer/Moro/Lava-Jato/Banestado

Sobre Messer e sua negociação de herança com MPF

Sobre a relação Moro/Eduardo Cunha

Sobre o papel do Banco Central no golpe

Sobre o caso Marielle e sua relação com o Evangelistão do Pó

Sobre a ultradireita nacional, militares e cooptação cultural dos EUA

Sobre igrejas evangélicas servindo como um depósito de mão de obra e espaço de lavagem de dinheiro

Sobre milícias

Sobre a participação do HSBC  no escândalo com o narcotráfico

Comentários de Pepe Escobar sobre o livro de Piero Leirner: o Brasil sob o espectro de uma guerra híbrida

Sobre a associação entre tráfico, igrejas e milícias no Río de Janeiro

Romulus Maya falando sobre o Evangelistão do Pó

Romulus Maya falando sobre Lava-Jato e o Esquema com Rosângela Moro/Sérgio Moro

Romulus Maya sobre o Evangelistán do Pó/Deep State/Trump e Bolsonaro

Sobre Evangelistão/Colômbia/assassinatos de ativistas – Trump/guerras/Irán

Sobre a parcialidade da Lava-Jato

Sobre o lobby judeu nos EUA

Sobre o conceito de civilização judaico-cristã

Sobre o Deep State e a influência de Israel

Sobre o Deep State

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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