Oriente Próximo

Na estrada para Damasco

Na estrada para Damasco - De forma lenta, porém constante, os inimigos da Síria estão voltando a bater em sua porta.

Por Abdel Bari Atwan, via Raialyoum, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Reabertura da embaixada dos EAU em Damasco, 2018. Foto via Reuters.
Reabertura da embaixada dos EAU em Damasco, 2018. Foto via Reuters.

De forma lenta, porém constante, os inimigos da Síria estão voltando a bater em sua porta.

A Síria pode não ter retornado à Liga Árabe, mas está claro que os países que suspenderam sua filiação há uma década, sob o comando dos Estados Unidos, estão lenta e constantemente retornando a Damasco – senão por ordens, mas ao menos sem oposição de Washington.

Três acontecimentos recentes ilustram uma mudança importante de atitude em relação à Síria e o governo do presidente Bashar al-Assad.

Primeiro, foi revelado que o presidente Donald Trump enviou dois assessores de alto-nível – o conselheiro de contra-terrorismo Kash Patel e o enviado especial Roger Carstens – para uma visita secreta em Damasco em agosto, onde se encontraram com o chefe de segurança nacional Ali Mamlouk.

Segundo, a retomada de vôos comerciais de passageiros sírios para o Qatar, após uma suspensão de quase 10 anos. Isso segue-se à restauração das conexões de avião civil com os EAU e a reabertura de sua embaixada em Damasco há dois anos atrás.

Terceiro, a retirada do governo turco de seu maior posto de observação militar na Síria, a base Morek na região rural de Hama, que havia sido cercada por forças do governo sírio desde o ano passado. Comboios carregando tropas e equipamentos supostamente evacuaram o local sob escolta da polícia militar russa, para protegê-los e evitar qualquer atrito.

Impressionantemente, as autoridades sírias conquistaram esses ganhos sem fazer quaisquer concessões. Eles também esnobaram os enviados de Trump, que visavam a ajuda de Damasco na garantia de libertação de seis americanos detidos na Síria, acreditando que isso daria um impulso na sua campanha de reeleição. Mas os sírios, supostamente, disseram a eles que não haveria discussões sobre o assunto enquanto as forças militares estadunidenses continuassem ocupando território sírio sem a permissão do governo. Anteriormente, Assad não respondeu a uma carta de Trump com pedidos de libertação dos americanos, particularmente um jornalista e ex-fuzileiro naval chamado Austin Tice, acusado pelas fontes sírias de ter conexões com a inteligência dos Estados Unidos.

O governo sírio não comentou as notícias da mídia estadunidense sobre a visita secreta. Mas foi confirmada pelo jornal semi-oficial al-Watan, que reforçou que o lado sírio insistiu na retirada completa das forças estadunidenses das regiões norte e leste da Síria antes de quaisquer negociações sobre quaisquer assuntos.

O governo Trump tem utilizado táticas de “punição e incentivo” para fazer com que a Síria siga suas demandas. O último “porrete” foi o Caesar Act, que intensificou as sanções estadunidenses contra a Síria e qualquer um com a qual faça negócios. A última “cenoura” foi a declaração do representante especial de Trump para a Síria, James Jeffrey, de que os Estados Unidos não querem mudar o regime na Síria, mas apenas seu comportamento. Damasco não intimidou-se com o “porrete” nem seduziu-se pela “cenoura”.

O fato de Trump enviar emissários pessoais para a capital síria não é pouca coisa. Tais negociações entre inimigos ocorrem geralmente em outros países neutros. Esta jogada cheirou a desespero para conquistar um acordo de qualquer maneira. Algumas ofertas tentadoras foram certamente feitas a Mamluk, mas enquanto não se encaixaram na demanda síria por uma retirada militar, foram descartadas, e os emissários retornaram de mãos vazias.

Ao enviar uma carta a Assad seguida de dois emissários da Casa Branca, Trump reconheceu implicitamente sua legitimidade, após fracassar em arquitetar uma derrubada do regime. O mesmo pode ser dito em relação aos estados árabes, que reabriram seus aeroportos às companhias aéreas sírias, após gastar bilhões de dólares no fomento à guerra civil no país.

Assad observou certa vez que o custo da rendição seria muito mais alto para a Síria do que o custo de resistir firmemente. Estes três acontecimentos parecem lhe dar razão. Os primeiros frutos da resistência, talvez. Mais surpresas poderão aparecer nos próximos meses.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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