Brasil

O reforço das ilusões a partir das eleições bolivianas

A vitória relativa do povo boliviano frente à ofensiva imperialista foi interpretada, no Brasil, como evidência de que o liberalismo de esquerda ainda aponta uma saída para a crise, e que todas as fichas devem ser apostadas em 2022.

Por Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Foto por Ronaldo Schemidt.
Foto por Ronaldo Schemidt.

A vitória relativa do povo boliviano frente à ofensiva imperialista foi interpretada, no Brasil, como evidência de que o liberalismo de esquerda ainda aponta uma saída para a crise, e que todas as fichas devem ser apostadas em 2022.

A vitória eleitoral do MAS (Movimento ao Socialismo), partido do exilado Evo Morales, foi consolidada nos últimos dias conforme avançou a apuração das urnas. Acabou sendo até maior do que apontavam as pesquisas de boca de urna – com quase 55% dos votos válidos, contra apenas 29% do candidato da oposição de direita, Carlos Mesa. Foi uma vitória eleitoral acachapante, que evidenciou o repúdio de grande parte do povo boliviano contra o golpe arquitetado pelo imperialismo estadunidense. Não existem mais dúvidas sobre a fraude liderada pela OEA no ano passado.

Estranhamente, as mesmas forças políticas que alimentaram os ânimos golpistas há menos de um ano atrás aceitaram prontamente o resultado: a falsária Jeanine Añez, Carlos Mesa e seu partido Comunidade Cidadã, e até mesmo Luis Almagro, secretário-geral da OEA e linha de frente do golpe contra Evo, reconheceram imediatamente a vitória de Luis Arce. O único que manteve o tom suspeito foi Luis Fernando Camacho, esperando os resultados finais da apuração.

Nos resta questionar: o que mudou do ano passado para cá? Evo Morales também venceu as eleições em primeiro turno – ainda que com uma margem menor, porém próxima – contra os mesmos candidatos. No entanto, Evo precisou exilar-se e dirigir uma renúncia em massa do MAS para evitar um confronto direito com as forças da direita, enquanto Luis Arce é aceito de braços abertos pela oposição e o imperialismo.

Uma diferença é clara – o golpe desencadeou uma onda de mobilizações populares que forçou concessões por parte do Império e da direita. É inegável que a vitória de Luis Arce é uma consequência, e não uma causa, de todo este processo de recuo (ainda que mínimo) dos interesses antinacionais na Bolívia. Isto também se aplica à aceitação do resultado eleitoral: se mostrou necessário acalmar os ânimos políticos no país para que a situação não saísse do controle e inviabilizasse a exploração das riquezas naturais bolivianas, ainda que isso significasse algumas concessões ao MAS e um presidente que não seja um fantoche norte-americano.

Para além da mobilização popular e da mudança de candidato, a conjuntura é a mesma – segue-se a crise econômica global e a ofensiva imperialista na América Latina contra o eixo eurasiano. O domínio norte-americano cresce no continente, e os países que ainda conseguiram manter uma certa independência relativa – como é o caso da Argentina, e agora da Bolívia – sofreram um forte desvio à direita. Deste ponto de vista, a vitória eleitoral do MAS representa também uma derrota política: o fortalecimento dos setores direitistas do partido, do qual faz parte o presidente eleito Luis Arce.

Agora vejamos: toda a narrativa do liberalismo de esquerda ignora todas essas circunstâncias. A “derrota do golpe” é interpretada como um simples ato eleitoral, que, em um realidade mais acentuadamente ameaçadora aos interesses antinacionais bolivianos, foi desrespeitado e deixado de lado pela imposição violenta do golpe. A mobilização popular é vista como algo lateral, e não a questão central para que a vitória eleitoral do MAS se convertesse em um governo – que, aliás, ainda não sabemos até que ponto e como irá ocorrer.

O conteúdo do futuro governo Arce também é deixado de lado – sendo que é o fator determinante na derrota do golpe. Lembremos que é muito possível, dadas as circunstâncias anteriormente mencionadas, que tenhamos na Bolívia um fenômeno muito semelhante aos que ocorreram no Brasil e no Equador, com Dilma Rousseff e Lenin Moreno. Luis Arce já deu alguns sinais neste sentido, afirmando que serão necessárias “medidas de austeridade”. Uma virada de 180 graus na política econômica após a posse do ex-ministro da economia de Evo não pode ser descartada, assim como fizeram Dilma e Lenin, o que representaria uma derrota brutal para o povo boliviano – não só consolidando o projeto antinacional no país, mas também desintegrando a base social do MAS, assim como ocorreu com Partido dos Trabalhadores. É o pior dos cenários.

Poderá ocorrer também uma “saída argentina” ou “mexicana”, forçada pelo alto grau de mobilização popular. Assim como a vitória da direita peronista na Argentina e como a vitória de López Obrador no México, Luis Arce poderá fazer um governo de conciliação que aplicará o ajuste fiscal sem uma agressividade excessiva, atuando em favor dos interesses das classes dominantes, mas mantendo uma relativa independência na política externa e com alguns programas sociais limitados de distribuição de renda. Ao contrário de bloquear totalmente o acesso alemão e chinês ao lítio boliviano e transferi-lo aos americanos, poderá haver um acordão onde se encaixe também a renda estadunidense.

Por fim, há a “saída bolivariana”, que observamos na Venezuela. É a mais improvável dadas as limitações políticas e ideológicas do MAS e de Luis Arce. Com uma intensa mobilização popular, seria necessária uma “limpa” nas forças de segurança e a quebra de seu monopólio do uso da violência – como por exemplo, com a criação de milícias populares. Só assim se garantiria a exploração dos recursos naturais bolivianos em prol do desenvolvimento da própria Bolívia, e uma atuação interna e externa verdadeiramente independente.

Sendo assim, é evidente que não há uma grande vitória política com a eleição de Luis Arce – ainda que seja sim fruto de uma ampla mobilização popular e de uma vitória relativa, que arrancou concessões, ainda que mínimas, do imperialismo. A hegemonia do liberalismo de esquerda quer, de todas as formas, esconder esse fato. Seu projeto é retomar o governo após o “serviço sujo” ser feito pelas forças antinacionais, sem nenhuma ruptura e nenhuma mudança estrutural. Interpretar a vitória eleitoral de Luis Arce como uma “restauração democrática” na Bolívia não é só uma ilusão profunda, mas também serve aos interesses da burguesia interna e do imperialismo no Brasil, desmobilizando as bases populares ao colocar todas as fichas nas eleições de 2022 (ou 2026, 2030…).

Não é possível uma solução da crise a partir das urnas – ainda que ela passe também pelas urnas. Mas uma futura vitória eleitoral só representaria uma vitória política caso haja um profundo processo de mobilização popular que erga um governo popular ao poder popular e à soberania nacional.

Sem isto, vitórias eleitorais se converterão em imensas derrotas políticas: como ocorreu no Brasil em 2014.

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