América Latina

Eleições na Bolívia: quem venceu e quem se movimenta por detrás?

A recusa em quebrar a mobilização fascista nas ruas e o golpe de estado de direita revelam, mais uma vez, a enorme limitação dos atuais nacionalistas latino-americanos, que estão a anos-luz de Salvador Allende.

Via Gazeta Revolucionária

Foto por Juan Karita.
Foto por Juan Karita.

Ainda sem todos os votos terem sido contabilizados, o que devia ter demorado dois dias, foi anunciado que Luis Arce, o candidato do MAS (Movimento ao Socialismo), de Evo Morales venceu as eleições de lavada, com mais de 52% dos votos.

Obviamente essa “vitória acachapante” só pode ter acontecido com a benção da direita e da Embaixada dos Estados Unidos; havia a necessidade de baixar a temperatura social, até para evitar mais um foco de contágio latino-americano.

No Chile, os protestos foram retomados. No dia 18 de outubro, fez um ano do estouro social que começou no ano passado.

O imperialismo tem uma política regional: massacrar a América Latina a partir do modelo capacho, o Brasil. Para isso busca impor o Evangelistão do Pó (em acelerado andamento), o Patriot Act Tabajara (em acelerado andamento com o apoio da “esquerda” bolsonarista) e o Banestado 3.0 (com o apoio entusiasta da mesma “esquerda”). Dessas questões iremos tratando na série “O Doleiro”.

O que representa a vitória do MAS?

Luis Arce integra a ala direita do MAS. Ele foi Ministro da Economia de Evo Morales.

Há um golpe contra a direita e uma vitória popular, embora que bastante relativa, já que Arce é uma espécie de Lenine Moreno (Equador).

Essa ala aliada a mais duas alas do MAS (são cinco principais) foram cúmplices do golpe.

O MAS até ficou com a maioria na Assembléia Plurinacional e permitiu e colaborou com o governo de extrema direita, encabeçado pela autoproclamada Janine Yañez.

Após o golpe de estado uma parte importante do MAS saiu às ruas e promoveu enfrentamentos importantes com as forças repressivas (que foram mantidas intactas pelos governos de Evo) e com os grupos fascistas, principalmente os ligados a Camacho (do Departamento de Santa Cruz) e à própria Yanine Añez. Um pouco antes disso acontecer, Evo Morales e seu vice, Liñera (o ex-guerrilheiro arrependido e “pai” do “indigenismo”) renunciavam em público para “evitar um derramamento de sangue”, depois de terem sido pressionados pela cúpula do Exército e da COB (Central Operária Boliviana).

Os principais setores da direção do MAS seriam o equivalente da nossa “esquerda” bolsonarista (que ajuda o governo Bolsonaro a massacrar o Brasil), mas com algumas diferenças.

A Bolívia é um dos países da América Latina onde as contradições são maiores. O MAS, à diferença do PT, tem influência de massas real e pela base, inclusive nos sindicatos.

O golpismo e o fascismo devem ser derrotados nas ruas

Após uma série de capitulações de Evo Morales, de Álvaro García Liñera, e de toda a direção do MAS, o povo boliviano foi deixado nas mãos das forças armadas golpistas e das hordas fascistas. A traição foi tão grande que toda a cúpula do MAS renunciou até ter sobrado a segunda vice-presidente do Senado, Jeanine Áñez, de extrema direita, que mantém conhecidas ligações com o narcotráfico e que acabou assumindo a Presidência da República.

O povo boliviano, que tem enorme tradição de luta, reagiu a partir de confrontos espontâneos que aconteceram em El Alto. Os golpistas foram contidos, mas o povo pagou um alto preço com derramamento de sangue.

O papel do MAS tem sido de conciliar e de “chamar novas eleições”, que obviamente irão impor um governo teleguiado diretamente pelo imperialismo norte-americano. Evo Morales, já na segurança do México, declarou que voltaria para “apaziguar” o povo, e depois pediu para o Papa intervir.

Apesar das organizações de massas terem mobilizado os trabalhadores, até por medo de serem ultrapassadas, rapidamente aderiram à capitulação da cúpula do MAS. A Conalcam (Coordenadora Nacional pela Mudança), que agrupa movimentos sociais ligados ao MAS, levou reinvindicações ao Ministro da Presidência de Jeanine Áñez,  Jerjes Justianiano, o que equivalia a um reconhecimento direto do governo golpista, mesmo sendo um governo interino. A burocracia da COB (Central Operária Boliviana) se reuniu com o mesmo Sr. Justiniano e acordou uma mesa de diálogo. Os deputados e senadores do MAS que não fugiram, se reuniram novamente e fizeram com que o parlamento voltasse a funcionar, respeitando o novo poder executivo golpista.

Há três políticas principais colocadas na Bolívia, a do imperialismo, a do MAS e a dos trabalhadores. A política imposta pelo imperialismo norte-americano, que implica em sugar até a última gota de sangue dos bolivianos, conta com os agentes diretos da direita infiltrados nos departamentos da chamada Meia Lua, com as hordas fascistas e com as Forças Armadas, porque agora ficou muito claro que essas respondem aos interesses do imperialismo. Uma questão básica é que a sucessão de capitulações de Evo Morales e do MAS já mostraram que o imperialismo busca reduzir ao mínimo a margem de manobra porque, dado o aprofundamento da crise capitalista, precisa manter as grandes empresas funcionando arrancando o couro das massas.

A esquerda oportunista não entende, até pela condição pequeno burguesa, que o período de concessões do imperialismo ficou para trás, que agora é lutar ou morrer. E isso vale para a burguesia imperialista, que precisa salvar este regime caduco, e para os trabalhadores, que precisam enfrentar a fome e lutar pela própria sobrevivência.

O caminho sem volta do oportunismo

O MAS (Movimento ao Socialismo) de Evo Morales se fortaleceu na primeira parte da última década na luta contra os governos “neoliberais” que estavam explodindo a Bolívia, embora sempre buscando conter a radicalização do movimento de massas. A base social sempre foi camponesa, principalmente os cocaleiros indígenas.

Ao assumir o cargo, em 2006, convocou uma Assembleia Constituinte, mas obteve pouco mais da metade dos votos, impedindo-o de realizar as reformas prometidas. Ele foi forçado a se reconciliar com a direita, que por meio de uma série de manobras acabou implodindo as grandes nacionalizações. Com o contágio da crise capitalista de 2008, Evo perdeu o apoio do COB e de três organizações indígenas.

Nesse contexto, a ala esquerda da burocracia sindical mineira começou a construir o IPT, o Instrumento Político dos Trabalhadores. A partir de 2013, com o aumento dos preços do estanho, Evo conseguiu apertar o controle do IPT e da esquerda da burocracia sindical por meio de diversos mecanismos. As lideranças do COB, praticamente todas as lideranças dos CODs (Central Obrera Departamental), assim como as lideranças das organizações camponesas, passaram a apoiar o governo e o MAS.

A partir de 2016, com o aprofundamento da crise capitalista mundial e o endurecimento do imperialismo contra os governos nacionalistas, a situação na Bolívia se deteriorou e a direita se fortaleceu. Nas últimas eleições nacionais, Evo ignorou o resultado do referendo que o impedia de disputar o quarto mandato e o resultado foi de pouco mais de 10% dos votos necessários para evitar ir ao segundo turno, a menor diferença desde 2006. Foi o suficiente para a operação de desestabilização intensiva.

Lições do golpe na Bolívia

O imperialismo está em uma crise gigantesca e precisa estabilizar os lucros dos monopólios. E muito rápido.

A gigantesca desestabilização do Chile criou um grande problema para o governo Trump, já que o colapso da “queridinha” do grande capital da América Latina poderia ter um grande efeito de contágio em toda a região, começando pela Argentina, Brasil, Colômbia, Peru e México.

O papel das Forças Armadas e da polícia, que continuaram a manter vínculos com o imperialismo, revela que na atual fase política tendem a ir para a direita quando o imperialismo aumenta a pressão. Rachaduras e conversões à esquerda só podem ocorrer em estágios de ascensão revolucionária.

A retirada da Alemanha do acordo para explorar o lítio boliviano e cooperar no desenvolvimento de uma indústria local revela que o imperialismo europeu também está longe de ser um aliado confiável para a burguesia local. O mesmo se aplica ao eixo da China e da Rússia.

A recusa em quebrar a mobilização fascista nas ruas e o golpe de estado de direita revelam, mais uma vez, a enorme limitação dos atuais nacionalistas latino-americanos, que estão a anos-luz de Salvador Allende.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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