Internacional

Trabalhar ou mourejar na pandemia

A pandemia abriu uma "caixa de Pandora" acerca do futuro do trabalho. A recessão provocou uma enorme perda de empregos, horas e ganhos, particularmente para aqueles que estão em toda espécie de setores de serviços.

Por Michael Roberts, tradução via Resistir.info

Foto por Benjamin Rasmussen.
Foto por Benjamin Rasmussen.

A pandemia abriu uma caixa de Pandora acerca do futuro do trabalho. A recessão (slump) provocou uma enorme perda de empregos, horas e ganhos, particularmente para aqueles que estão em toda espécie de sectores de serviços, como comércio a retalho, entretenimento, lazer, eventos, preparação alimentar, etc e está a levar milhares de pequenos negócios a sobreviver com margens pequenas e encostados à parede por grandes fardos de dívida.

Mas é mais do que isso. A recessão irá e já está a proporcionar uma oportunidade para as empresas, particularmente as grandes, eliminarem partes substanciais da sua força de trabalho e substituí-la por máquinas, robôs, trabalho doméstico com conectividade e algoritmos. O resultado é que haverá maior concentração de empresas em sectores, pois as empresas maiores devoram os mercados das mais pequenas. É claro que isto não é um fenómeno novo, mas é parte integrante de recessões sob o capitalismo. Friedrich Engels detectou este processo há muito tempo, já na década de 1840 na Inglaterra industrial: “Os antigos estratos mais baixos da classe média – os pequenos comerciantes, lojistas, reformados, artesãos e camponeses – todos estes afundam-se gradualmente no proletariado, em parte porque o seu capital diminuto não basta para a escala na qual a indústria moderna é levada a cabo e é afundada na competição com os grandes capitalistas, em parte porque a sua perícia especializada é tornada inútil por novos métodos de produção”.

É provável que a muito falada revolução da automação venha a descolar, pelo menos em alguns sectores importantes em crescimento. Sob o capitalismo, o sistema de produção para o lucro, isto não significará menos horas de trabalho para os empregados; trabalho mais interessante em vez de trabalho bruto; ou ascensão dos rendimentos. Ao contrário, a revolução da automação sob o capitalismo terá como objectivo reduzir a força de trabalho, aumentar as horas para os que ainda estão empregados e impedir os salários de aumentarem – tudo isto para elevar a lucratividade dos mais eficientes a expensas dos menos eficientes.

Há muitas previsões da perda de empregos à medida que robôs substituem trabalhadores. Consultores de gestão, como a McKinsey, prevêem que até 2030 a automação poderia deslocar 53 milhões de postos de trabalho só no continente europeu, o equivalente a cerca de 20% da força de trabalho actual. As maiores reduções de empregos serão no comércio a retalho, na manufactura e nos serviços de alimentação e alojamento. E os mais atingidos serão os que têm menos “qualificações” e são os que recebem menos.

Gráfico: Empregos em risco devido à automação (varejo, manufatura, alojamento e alimentação, construção, logística, saúde, adminsitração pública, educação, administração e suporte).
Gráfico: Empregos em risco devido à automação (varejo, manufatura, alojamento e alimentação, construção, logística, saúde, adminsitração pública, educação, administração e suporte).

Mais uma vez, não há nada de novo na história do trabalho a ser substituído por máquinas. Isto é a essência do capitalismo industrial. A chamada “revolução industrial” do início do século XIX viu milhões de trabalhadores manuais e artesãos qualificados serem substituídos por máquinas. Os salários reais estagnaram ou até caíram à medida que os rendimentos dos artesãos desapareceram e os ganhos das novas indústrias foram para os seus proprietários. Engels notou este resultado no seu brilhante livro, The condition of the working class in England (1844). Os industriais proprietários de máquinas enriqueceram “com a miséria da massa dos assalariados”. Agora a recessão pandémica está a criar as condições para a eliminação de empregos em todos os sectores, como aconteceu naquele período após a recessão da terceira década do século XIX. A terceira década deste século poderia ver o mesmo.

No seu livro, Engels observou que a mecanização levou a uma queda na fatia do trabalho no rendimento nacional, ainda que alguns trabalhadores obtivessem emprego em novas indústrias à medida que as antigas morriam. Este processo será repetido nesta década pós-pandémica. Já nos EUA, os salários dos homens de faixas etárias mais baixas com apenas um diploma do ensino secundário diminuíram desde 1980 e as taxas de participação da força de trabalho entre homens com idades compreendidas entre os 25 e os 55 anos caíram em paralelo. Parte da razão foi uma mudança para mão-de-obra feminina mais barata e a transferência da indústria transformadora das economias capitalistas avançadas para o “Sul global”, para utilizar mão-de-obra ainda mais barata com fábricas modernas. Mais uma vez, Engels observou a tendência na década de 1840 na industrialização da Inglaterra: “quanto mais a indústria moderna se desenvolve, mais o trabalho dos homens é suplantado pelo de mulheres e crianças… As diferenças de idade e sexo já não têm qualquer validade social distintiva para a classe trabalhadora. Todos são instrumentos de trabalho, mais ou menos dispendiosos para utilizar, conforme a sua idade e sexo”.

Mas a mudança tecnológica de substituição do trabalho foi também uma das principais razões. Estimativas mostram que cada robô polivalente substituiu cerca de 3,3 empregos na economia dos EUA e reduziu salários reais. E previsões para a expansão dos robôs na década de 2020 prevêem um crescimento exponencial. O número de robôs industriais já aumentou num factor de três ao longo da última década, passando de pouco mais de um milhão de unidades operativas em 2010 para 3,15 milhões de unidades projectadas em 2020. Ao mesmo tempo, os robôs tornaram-se supostamente capazes de substituir, ou mesmo superar, os humanos em muitas tarefas, tais como produção de peças personalizadas e implantes médicos utilizando tecnologias de impressão 3D, diagnóstico de doenças e assistência à tomada de decisões, como por exemplo, por “juízes robôs”.

As tarefas de rotina e de baixa qualificação continuam a ser mais fáceis de executar pelos robots do que as tarefas não rotineiras e de alta qualificação. Isto implica que o aumento do número de robôs ou as melhorias na sua produtividade tendem a afectar os trabalhadores pouco qualificados muito mais negativamente do que os trabalhadores altamente qualificados. Além disso, os trabalhadores altamente qualificados tendem a especializar-se em tarefas para as quais a automatização é complementar, tais como concepção e manutenção, supervisão e gestão de robôs. O impacto diferencial da automação implica que os salários dos trabalhadores pouco qualificados podem estagnar e mesmo diminuir na presença da automação; tal como a Engels descobriu na década de 1840.

Quando robôs constituem um substituto perfeito da mão-de-obra, trabalhadores e robôs competem directamente no mercado de trabalho, mantendo os salários baixos. Em consequência, a automação conduz a uma diminuição da quota-parte do rendimento do trabalho. Nos EUA, a fatia do rendimento do trabalho nos sectores produtivos caiu durante os anos 70, à medida que as empresas tentavam compensar a queda da lucratividade pela redução das suas forças de trabalho, possibilitada por duas enormes quedas em 1974-5 e em 1980-2. A quota-parte do trabalho estabilizou durante as décadas de 1980 e 1990 a um nível mais baixo, na medida em que a rentabilidade das empresas melhorou um pouco no período neoliberal. Obviamente, houve outros factores além da mecanização que levaram a uma queda da quota-parte do trabalho (a destruição dos sindicatos, congelamentos salariais, etc), mas estima-se que, da queda de 3% da quota-parte do trabalho das décadas de 1990 a 2010, cerca de 1% pode ser atribuído à automação.

Mas como Engels também observou, a mecanização funciona nos dois sentidos. Por um lado, a introdução de nova maquinaria ou tecnologia conduzirá à perda de empregos para os trabalhadores que utilizam tecnologia ultrapassada. Por outro lado, as novas indústrias e técnicas poderão criar novos postos de trabalho. Mas é só nos sectores da indústria que exigem elevadas competências e/ou estão sujeitos à protecção sindical que os aumentos salariais e de emprego são sustentados: “Os chamados fiadores (spinners)… recebem salários elevados, trinta a quarenta xelins por semana, porque têm uma poderosa associação para manter os salários altos e o seu ofício requer uma longa formação; mas os fiadores grosseiros que têm de competir contra máquinas automáticas (self-actors) (as quais ainda não estão adaptadas para a fiação fina) e cuja associação foi quebrada pela introdução destas máquinas, recebem salários muito baixos” (Engels). No entanto, na generalidade, “que os salários em geral têm sido reduzidos pela melhoria das máquinas é o testemunho unânime dos operários. A afirmação burguesa de que a condição da classe operária foi melhorada pela maquinaria é denunciada vigorosamente como uma falsidade em toda reunião de operários nos distritos fabris”.

A mecanização, robots e automatização reduzirão o tempo de trabalho. Isto deverá significar menos horas de trabalho, uma vez que mais valores de uso são criados pelo trabalho em menos tempo. Mas sob o capitalismo, os valores de uso extra só proporcionam mais valor através da venda desses valores de uso e esse valor só é pago aos trabalhadores ou em menos horas ou em salários mais altos ou ambos através de uma luta de classe entre os donos do capital e a força de trabalho. Assim, sob o capitalismo, a mecanização não conduz “automaticamente” a menos horas e menos labuta.

Num novo livro, Work: a history of how we spend our time , James Suzman explica que, ao contrário das esperanças e previsões de Adam Smith ou John Maynard Keynes, a tecnologia não proporciona uma “vida feliz” (Smith) ou um “lazer abundante” (Keynes). Como demonstrou o recentemente falecido (e saudoso) David Graeber, a mecanização sob o capitalismo conduziu na realidade a mais “empregos da treta” que destroem a criatividade e o trabalho significativo, ao mesmo tempo que aumenta a labuta.

A Gallup, pesquisadora de opinião, num recente inquérito sobre a vida profissional em 155 países publicado em 2017 mostrou que apenas um em cada 10 europeus ocidentais se descreveram a si próprios como “empenhados” nos seus empregos. Num outro inquérito realizado pelo YouGov em 2015, 37% dos adultos britânicos trabalhadores disseram que os seus empregos não davam qualquer contributo significativo para o mundo.

É verdade que o horário médio de trabalho na maior parte das economias capitalistas avançadas tem diminuído desde a época de Engels, mas isso não se deveu à mecanização e sim às lutas sindicais para melhorar as condições e às batalhas políticas sobre a legislação fabril e sobre a redução do horário de trabalho, etc. Na verdade, desde que os sindicatos foram dizimados no final do século XX na maior parte dos países, tem havido pouca redução na semana média de trabalho (que ainda paira em cerca de 40 horas) apesar da aceleração dos robots e da automação.

Quando os sindicatos na Finlândia propuseram recentemente um dia de 6 horas, verbalmente apoiado pelo primeiro-ministro finlandês, a ideia foi desviada para uma comissão devido à “resistência do patronato, que tem interesse em pagar (o mínimo possível) pelas horas trabalhadas e não de acordo com a produtividade. Um dia de seis horas por oito horas de salário significa um salário por hora mais elevado. Significa também uma perda de controlo sobre os trabalhadores – não só em termos de um bocado menor de cada dia em que os empregadores controlam as actividades dos empregados, mas também através do reconhecimento implícito de que os trabalhadores deveriam ter mais influência na organização da vida laboral”. O sonho de Keynes há quase 100 anos atrás de uma semana de 15 horas continua a ser apenas isso – um sonho.

A recessão pandémica parece ser um novo catalisador para uma mudança nas condições de trabalho. “Trabalhar a partir de casa” é o novo grito. Mas isso só se aplicará a uma minoria, sobretudo aos mais bem pagos que trabalham em escritórios.

Gráfico: Parcela de trabalhos possíveis de serem feitos em casa (alimentação, computação e matemática, arquitetura e engenharia, escritório e suporte administrativo).
Gráfico: Parcela de trabalhos possíveis de serem feitos em casa (alimentação, computação e matemática, arquitetura e engenharia, escritório e suporte administrativo).

E não há certeza se “trabalhar de casa” irá melhorar a satisfação laboral ou irá tornar as pessoas “mais felizes” como esperava Adam Smith. Empregadores já estão desenvolvendo novos métodos de monitorar suas equipes em casa e garantir assim que trabalhem por mais tempo, já que não precisam se deslocar. E para a vasta maioria, sair para trabalhar em empregos que não oferecem nenhuma criatividade, pagam mal, e são cada vez mais inseguros continuará sendo a norma. Mais mourejo, e não menos trabalho.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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