América Latina

Os EUA têm urgência em ocupar a América do Sul

Por Eduardo Jorge Vior, via Infobaires24, tradução via Duplo Expresso

Foto por Kevin Lamarque.
Foto por Kevin Lamarque.

A viagem de Pompeo pelo norte do subcontinente e as crises nos países andinos são sinais da corrida do Pentágono para controlar a região, isolar a Argentina e deixar a China de fora.

A coincidência entre a recente visita do Secretário de Estado dos Estados Unidos ao Suriname, Guiana, Brasil e Colômbia e a turbulência que assola Colômbia, Equador, Peru e Bolívia atesta a impaciência de Washington para controlar novamente o subcontinente, cercar a Argentina e desacelerar o avanço chinês. Parece que o governo de Donald Trump quer evitar que um possível governo democrata altere o rumo dos EUA na região. Porém, além de uma mudança de estilo, não se espera que outra administração em Washington mude as diretrizes de sua política para a metade sul do continente.

Washington e Georgetown (capital da Guiana) anunciaram nesta segunda-feira, dia 21, que iniciarão patrulhas navais conjuntas nas águas que fazem fronteira com a República Bolivariana (da Venezuela). O anúncio vem na sequência da visita do Secretário de Estado Mike Pompeo, na sexta-feira 18, e da sua promessa de apoio à construção de infraestrutura de exploração e exportação de petróleo que acaba de iniciar ao largo da costa ocidental do território Essequibo. Não por acaso, a empresa licenciada é a Exxon Mobil, do grupo Rockefeller, que estimou que a bacia tem reservas de 15 bilhões de barris. A Exxon, que já foi a maior empresa de petróleo do mundo, apoia e financia o presidente Donald Trump.

O território de Essequibo e sua extensão marítima são reivindicados pela Venezuela, que desconhece a legalidade de um tribunal arbitral que, em 1899, o entregou à Inglaterra, de quem a atual Guiana era colônia. Depois que esta se tornou independente, em 1966, os dois vizinhos declararam nula a decisão e concordaram em buscar uma solução arbitrada. É por isso que Caracas criticou, duramente, as concessões de petróleo feitas por Georgetown nos últimos três anos.

Pompeo chegou à Guiana vindo do vizinho Suriname, onde se encontrou com o presidente Chan Santokhi, eleito em maio passado. Embora, na ex-colônia holandesa, Pompeo tenha reiterado seu apelo pela concessão de licenças a empresas norte-americanas e sua insistência a não se fazer negócios com a China, o novo presidente reafirmou sua neutralidade diante da crise venezuelana e sua vontade de expandir as atividades da estatal petrolífera Statsolie, ainda que respeitando a concessão local outorgada pelo seu antecessor à Apache-Total.

Já no sábado, o secretário chegou a Boa Vista, capital do estado de Roraima, onde o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o homenageou. Ele, cinicamente, prometeu US$ 30 milhões em ajuda para os imigrantes venezuelanos, mas não fez menção ao persistente fechamento da fronteira. Boa Vista depende de insumos venezuelanos (principalmente combustível) para sua sobrevivência. Além disso, o bloqueio da fronteira impede a ajuda humanitária, o retorno de migrantes venezuelanos e/ou a chegada de novos. A presença de Pompeo em Roraima foi energicamente criticada por seis ex-chanceleres que o acusaram de “uso espúrio do território nacional” para usar o país “como plataforma de provocação e hostilidade contra uma nação vizinha”.

Finalmente, a última parada da turnê foi no domingo, em Bogotá, onde o Secretário de Estado elogiou o apoio do presidente Iván Duque ao autoproclamado “presidente” venezuelano, Juan Guaidó. Sua presença ali coincidiu com manobras militares conjuntas entre Colômbia e Estados Unidos e críticas da oposição à presença, durante dois meses, de uma força especial de segurança norte-americana. Sua visita foi seguida na segunda-feira, 21, por uma greve nacional em protesto e por massivas manifestações da oposição que, em Bogotá, foram duramente reprimidas.

A enorme e urgente pressão norte-americana se reproduz de diferentes maneiras no resto do eixo andino. No Equador, que planeja realizar a eleição presidencial em 28 de fevereiro, a justiça eleitoral não desiste de perseguir os seguidores de Rafael Correa. Depois de proibir o ex-presidente de concorrer em conjunto com Andrés Arauz e de banir seu partido, Compromiso Social, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) anunciou, na segunda-feira, dia 21, que também está avaliando a rejeição do Centro Democrático (Lista 1), na qual o Correísmo refugiou-se. Este, por sua vez, propôs, na semana passada, o jornalista Carlos Rabascall como candidato à vice-presidência, mas a chapa ainda não está registrada na Justiça Eleitoral.

Dada a intensa perseguição ao Correísmo, a direita ficou especialmente chocada, na semana passada, com os resultados de uma pesquisa da empresa brasileira Atlas Intel, que deu ao correísta Andrés Arauz 45% dos votos, Guillermo Lasso 32%, Yaku Pérez 4,3% e César Montúfar 1,1%. Os demais candidatos têm menos de 1%. Entre os brancos, os nulos, as abstenções e os que não sabem em quem votar somam 10,6%. Uma simulação de segundo turno também classifica Arauz como o vencedor com 48,2% dos votos e 39,4% para Lasso. Apesar da grosseira ofensiva judicial e proibição política, entretanto, o ex-presidente Rafael Correa mantém a maior aprovação (50%) e a menor rejeição (45%).

A mão inegável das embaixadas norte-americanas também é perceptível na Bolívia. Diante da impossibilidade de adiar as eleições presidenciais e legislativas de 18 de outubro, os golpistas de novembro passado baniram Evo Morales com ações sem base ou fundamento. De qualquer forma, as últimas pesquisas deram à chapa de Arce-Choquehuanca (MAS-IPP) cerca de 37%, enquanto o ex-presidente Carlos Mesa (2005-06) obteve 27% e todos os demais menos de 10%. Por isso, na semana passada, a presidente de fato, Jeanine Áñez, retirou sua candidatura.

Depois do fracasso de Áñez, a embaixada e os golpistas esperavam apresentar uma chapa única da direita, mas não conseguiram reconciliar Carlos Mesa com Luis F. Camacho. A ascensão da candidatura do MAS, então, a aproxima de um possível triunfo no primeiro turno. Na Bolívia, se um partido atinge 40% dos votos no primeiro turno, com diferença de mais de 10% em relação ao segundo colocado, é eleito sem possibilidade de segundo turno.

Agora, a embaixada se prepara para impedir, a qualquer custo, a vitória do MAS. A polícia e o exército golpista se encarregam da distribuição, vigilância e coleta das urnas, o centro de processamento de dados está nas mãos dos amigos de Áñez, a mídia milita em uníssono pelo anti-masismo e a única missão de observadores internacionais, até agora autorizada, é a da OEA, que já desempenhou um papel nefasto em novembro passado. Em última instância, o sucesso do MAS dependerá da mobilização do povo boliviano e do fato de que a diferença de votos a seu favor é avassaladora. Quando Evo Morales obteve vitórias de 52%, 64% e 62%, conseguiu impor o resultado eleitoral. A única vez em que ele não ultrapassou 50%, eles não reconheceram seu triunfo e atacaram.

No Uruguai, finalmente, as eleições para Prefeitos e Juntas das 19 províncias serão realizadas no próximo domingo, 27 de setembro. A Frente Ampla busca a vitória em Montevidéu e Canelones, províncias que, juntas, representam mais da metade da população do país. Quatorze das dezenove localidades estão praticamente definidas. Apoiado no tradicional ruralismo conservador, o Partido Nacional (líder da coalizão governista) ficaria com 12 dos 17 distritos do interior. O Partido Colorado, por sua vez, manteria Rivera na fronteira com o Brasil, enquanto três províncias ainda estão em disputa.

Em um cenário já bastante definido, a questão central é saber por qual diferença ganhará a FA em Montevidéu, onde governa desde 1990. Lá a coalizão de direita apresentará a candidatura única de Laura Raffo, enquanto a Frente Ampla vai com três candidatos: Daniel Martínez , Álvaro Villar e Carolina Cosse. Pelas últimas pesquisas, há empate técnico de 17 pontos para cada um, mas, devido ao sistema eleitoral, quem ganha a maioria dentro de uma legenda registrada leva também os votos de seus concorrentes internos. Assim, algumas pesquisas apontam Carolina Cosse como possível vencedora interna da Frente Ampla. Daniel Martínez, ex-prefeito e ex-candidato à presidência, por sua vez, representa a linha interna da social democracia, enquanto Álvaro Villar é o candidato com menos intenção de votos, embora nas últimas pesquisas tenha se aproximado dos outros dois. Tem o apoio do Movimento de Participação Popular (MPP, liderado por José Pepe Mujica), Fuerza Renovadora e UNIR, um grupo dissidente do Partido Colorado que não faz parte da organização Frente Ampla.

O Pentágono estabeleceu como objetivo recuperar o controle da América do Sul, isolar a Argentina e impedir o crescimento da influência chinesa. Cabe ao Comando Sul executar a estratégia elaborada. Para tanto, recorre à manipulação das eleições, às provocações armadas nas fronteiras da Venezuela, ao pacto entre o Alto Comando brasileiro e o crime organizado, à tentativa de golpe no Peru e a furiosas campanhas de agitação e desestabilização em nosso país. Os agressores querem criar um fato consumado antes das eleições presidenciais nos Estados Unidos, em 3 de novembro, mas não há indícios de que um improvável governo democrata tomará um rumo diferente. A unidade e a solidariedade que os governos não têm entre si devem ser substituídas pelos movimentos populares.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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