Ásia

As armas nucleares na Coreia Popular

Via Write to Rebel, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Veículos carregam mísseis durante desfile militar em Pyongyang. Foto por Sue-Lin Wong.
Veículos carregam mísseis durante desfile militar em Pyongyang. Foto por Sue-Lin Wong.

O programa de armas nucleares da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) é citado frequentemente como uma evidência de que o país representa uma ameaça à paz mundial. O chamado “estado pária” (o que significa na verdade uma nação que traça seu próprio caminho de desenvolvimento em vez de ser manipulada pelo ocidente) é pintado como detentor da capacidade de matar 90% dos americanos[1]. Não apenas isso, é alegado que a liderança do país é “maluca o suficiente” para fazê-lo[2]. Neste ensaio, eu argumento que as armas nucleares da RPDC não representam uma ameaça. Seu programa nuclear é usado de maneira justificada como dissuasão à agressão ocidental, principalmente por parte dos Estados Unidos. Em resumo, as armas nucleares norte-coreanas são ferramentas defensivas, e não ofensivas. Na realidade, são os Estados Unidos a verdadeira ameaça à paz, especialmente quando se trata de armas nucleares.

É vital que compreendamos o porquê da RPDC ter dado tamanha importância ao desenvolvimento das armas nucleares. Os Estados Unidos tentaram destruir o país em diversas situações. Por vários anos, os EUA participaram de contendas militares juntamente à Coreia do Sul, conhecidas como Foal Eagle. De acordo com um relatório, os treinamentos “envolvem cerca de 25.000 tropas estadunidenses e 50.000 membros das forças armadas sul-coreanas”[3]. Apesar das contendas serem descritas por autoridades sul-coreanas como “não-provocativas”, elas mesmas admitem que são “projetadas para aprimorar a prontidão”[4]. Isso sinaliza que os Estados Unidos estão prontos para a guerra a qualquer momento. Para a RPDC, a guerra é um espectro permanente. O país nunca teve ilusões sobre a posição dos Estados Unidos em relação a ele, e seu programa militar sempre foi voltado para reforçar a defesa nacional. Apesar das sanções econômicas contra a RPDC, usadas para bloquear o comércio de itens que poderiam ser úteis no campo militar (como equipamentos médicos, medicamentos, alimentos e outros suprimentos “perigosos”), terem se provado incapazes de desestabilizar o país como esperado, elas certamente bloquearam alguns caminhos de militarização. Em outras palavras, o ocidente não deu outra escolha à RPDC para além de desenvolver armas nucleares. Todas as outras opções para o desenvolvimento de forças armadas convencionais capazes de conter os imperialistas foram negadas a eles[5].

O ponto central é este: a RPDC não tem outras opções, precisa desenvolver armas nucleares para dissuadir os Estados Unidos de uma invasão completa. Não é coincidência que a RPDC tenha conduzido testes nucleares durante uma das contendas anuais da Foal Eagle. A bomba nuclear é, para a RPDC, um símbolo: ela mostra que o país está disposto a lutar por sua sobrevivência, e não se renderá ao ocidente. Yongho Thae, embaixador da RPDC em Londres, coloca desta maneira:

A situação mundial mudou novamente após 11 de setembro de 2001. Após isso, Bush afirmou que se os Estados Unidos querem proteger sua segurança, devem eliminar os paises do ‘eixo do mal’ da Terra. Os três países listados como membros do ‘eixo do mal’ eram o Irã, Iraque e Coreia do Norte. Bush disse que, para remover estes males da Terra, os Estados Unidos não hesitariam até mesmo em usar armas nucleares. Eventos desde então provaram que isso não era apenas uma ameaça retórica – eles levaram isso a cabo contra o Afeganistão e o Iraque.

Agora, em relação a Coreia do Norte. Houve um acordo entre o governo Clinton e a RPDC em 1994, mas o governo Bush o cancelou, afirmando que a América não deveria negociar com o mal. Os neocons afirmaram que os “estados do mal” deveriam ser eliminados pela força. Observando o que ocorreu no Afeganistão e Iraque, nós percebemos que não poderíamos parar a ameaça estadunidense apenas com armas convencionais. Percebemos então que precisávamos de nossas próprias armas nucleares para defender a Coreia Popular e seu povo.[6]

A RPDC desenvolveu seu programa nuclear em resposta a agressão dos Estados Unidos. O programa não existe para dominar o mundo, mas para garantir que a RPDC possa determinar seu próprio caminho de desenvolvimento. As armas nucleares norte-coreanas não são uma ameaça, mas um mecanismo de defesa. Isso não é mera “propaganda estatal” como se afirma frequentemente. Até mesmo Lakov, autor de direita e anti-RPDC, concorda com isso. Ele escreve,

Para os líderes da Coreia do Norte, o programa de armas nucleares não é um fim em si mesmo, mas sim uma das diversas estratégias que usam para conquistar seu objetivo principal, a sobrevivência do regime… A cautelosa decisão de nuclearização está profundamente relacionada às peculiaridades de sua situação doméstica e internacional.[7]

Aqui, Lakov descreve a escolha norte-coreana de desenvolver armas nucleares como “cautelosa”. Isso implica, corretamente, que a RPDC não teria feito essa escolha se tivesse outra opção. A Coreia Popular compreende que armas nucleares não são brinquedos. A experiência os ensinou a não tratar essa questão levianamente. Thae comenta sobre isso na entrevista mencionada anteriormente:

Os Estados Unidos lançaram bombas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki. Em seguida, a URSS também desenvolveu armas nucleares. Conforme o tempo passou, o arsenal nuclear soviético cumpriu o papel de contrabalancear a possibilidade do uso de armas nucleares pelos EUA. Esta é a razão principal pela qual os Estados Unidos não puderam usar essas armas na segunda metade do século XX. Futuramente, o clube das armas nucleares se expandiu, incluindo a China, Reino Unido e França. Se tratando da paz mundial como um todo, a ampliação do clube nuclear seria visto intuitivamente como algo ruim, mas na realidade, foi a possessão de armas nucleares pela China e pela União Soviética que impediu o uso de armas nucleares por qualquer um em qualquer circunstância. Acredito que isso é um fato que devemos admitir.

Se tratando da Coreia, sabe-se que ela é vizinha do Japão. Muitos japoneses viviam na Coreia, pois o país era uma colônia japonesa. Nosso sistema midiático era controlado, na época, por japoneses. Então quando aconteceu Hiroshima e Nagasaki, as notícias chegaram e compreendemos muito bem a escala deste desastre. O povo coreano compreendeu muito bem como muitas pessoas foram assassinadas no intervalo de um minuto. Então, o povo coreano carrega uma experiência muito direta da guerra nuclear desde o início.

Eisenhower perguntou aos seus conselheiros: como podemos vencer esta guerra? Os generais americanos sugeriram o uso de ameaças nucleares. Eles sentiram que caso alertassem a população que lançariam uma bomba nuclear, as pessoas fugiriam do front. Tendo testemunhado os efeitos das armas nucleares apenas há 5 anos, milhões de pessoas fugiram da Coreia do Norte para o sul. O resultado disso é que até hoje, 10 milhões de famílias continuam separadas.

Pode-se ver então que o povo coreano é vítima direta de intimidações nucleares – mais do que qualquer outra lugar do mundo. A questão nuclear não é abstrata para nós; é algo que devemos tratar com muita seriedade.[8]

O povo da RPDC é muito consciente dos horrores da guerra nuclear. As consequências das bombas nucleares estadunidenses estão marcadas nas mentes da população. A partir disso, podemos assumir que a RPDC não queria desenvolver armas nucleares, mas foi forçada a essa posição pelos imperialistas, sem abandonar seus princípios irrefletidamente. Na verdade, a RPDC já foi um membro do NPT (em inglês), Thae afirma,

Nos anos 1970, houveram discussões dentre as grandes potências sobre como prevenir uma guerra nuclear. O que foi acordado entre os cinco grandes países foi que encerrariam a proliferação de armas nucleares. Apenas 5 países poderiam ter armas nucleares; e não os demais. O Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (NPT, em inglês) nasceu em 1970, e afirma claramente que potências nucleares não podem utilizar armas nucleares com o propósito de ameaçar estados não-nucleares. A RPDC pensou que caso se unisse ao NPT, poderia se livrar das ameaças nucleares estadunidenses. E de fato se uniu. Entretanto, os Estados Unidos nunca descartaram seu direito de um ataque nuclear preventivo. Sempre afirmaram que, quando os interesses estadunidenses são ameaçados, sempre terão o direito de utilizar suas armas nucleares com objetivos preventivos. Então é um tanto óbvio que o NPT não pode garantir nossa segurança. A partir disso, decidimos nos afastar e formular uma estratégia diferente para nos proteger.[9]

A RPDC estava mais do que disposta a descartar a possibilidade de desenvolver um programa nuclear. E provou isso à comunidade internacional ao se unir ao NPT. Quando os Estados Unidos deixaram claro que utilizariam de um ataque preventivo contra os coreanos, entretanto, o país reconheceu que sua política precisaria mudar. O programa nuclear norte-coreano foi e é, literalmente, uma resposta à agressão estadunidense.

Isso pode ser constatado no fato de que, ao contrário dos Estados Unidos, a RPDC afirmou recentemente uma política de “não atacar primeiro” em relação às armas nucleares. Durante o 7º Congresso do Partido do Trabalho da Coreia em 2016, o líder supremo Kim Jong-Un declarou que a Coreia do Norte “não utilizaria armas nucleares a não ser que forças hostis agressoras às utilizem primeiro para violar nossa soberania”[10].

Tudo isso leva à conclusão de que o programa nuclear da RPDC não foi criado com objetivos ofensivos, como é o caso dos Estados Unidos. Foi desenvolvido, por outro lado, em resposta à agressão de potências imperialistas estrangeiras. A RPDC sentiu que caso não tivesse armas nucleares, seria invadida pelos Estados Unidos e outras potências. A questão agora é: essa é a posição correta?

Eu defendo que sim. O caso da Líbia é instrutivo. Tad Daley, um escritor da burguesa Christian Science Monitor, argumenta que foi o desarmamento da Líbia que abriu caminho para sua invasão. Ele escreve,

Caso a Líbia tivesse capacidade de obliterar uma grande base militar americana na Itália, ou de vaporizar um porta-aviões americano na costa sul da França, certamente teria dissuadido Washington (sem mencionar Roma e Paris) da ação militar. Caso o regime líbio quisesse garantir sua sobrevivência, deveria então, assim como a Coreia do Norte, ter desenvolvido uma dissuasão nuclear – pequena, durável e letal o suficiente para infligir um dano inaceitável contra qualquer agressor.[11]

O fato de que ambos os líderes, Gaddafi da Jamairia líbia e Kim, tenham morrido no mesmo ano, mas de formas radicalmente diferentes, nos dá um interessante ponto de comparação. Gaddafi foi derrubado após um grupo de rebeldes apoiados pelo imperialismo ter lançado uma campanha racista para depor um governo revolucionário no Norte de África, que foi bem-sucedida precisamente graças ao apoio da OTAN. Ele morreu espancado, estuprado, torturado e executado em um lamacento cano de esgoto, sem nenhum julgamento[12].

Kim, por outro lado, morreu tranquilamente após um infarto, enquanto viajava de trem para uma inspeção fabril e um encontro com trabalhadores coreanos[13]. Ainda que sua morte tenha sacudido com tristeza o povo coreano, de Pyongyang a Pequim e além, a revolução coreana continua e não mostra sinais de vacilação. A proximidade com a China é um fator para a segurança da Coreia Popular, mas nada impede mais uma guerra aberta dos EUA para derrubar o Partido do Trabalho mais do que a ameaça de uma bomba nuclear sob uma de suas diversas bases militares na Coreia do Sul. A RPDC não sofreu o mesmo destino da Líbia precisamente por que não se desarmou. Assim como disse Thae, a dissuasão nuclear foi a diferença entre a invasão e sobrevivência.

Em resumo, o programa nuclear da RPDC não constitui uma ameaça. Ao contrário, é um componente necessário para a sobrevivência do país. A Coreia Popular não quer destruir o mundo, quer apenas ser deixada em paz. As armas nucleares norte-coreanas servem unicamente a esse propósito. Clamar pelo desarmamento da RPDC sem compreender as razões por de trás do programa serve apenas à reprodução das causas imperialistas, da guerra e do genocídio.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


[1] http://thehill.com/blogs/pundits-blog/defense/326094-how-north-korea-could-kill-up-to-90-percent-of-americans-at-any

[2] https://www.aol.com/article/news/2017/04/03/north-korean-defector-tells-lester-holt-kim-jong-un-would-use-nukes/22023501/

[3] http://www.npr.org/sections/thetwo-way/2016/08/22/490921432/u-s-south-korea-war-games-begin-despite-threats-from-north-korea

[4] Ibid.

[5] http://www.firstpost.com/world/sanctions-have-failed-to-stop-north-koreas-nuclear-programme-says-un-panel-2618210.html

[6] http://www.invent-the-future.org/2013/11/understanding-north-korea/

[7] https://books.google.com/books?id=FHpYCwAAQBAJ&pg=PA180&lpg=PA180&dq=For+the+North+Korean+leaders,+the+nuclear+weapons+program+is+not+an+end+in+itself,+but+rather+one+of+many+strategies+they+use+to+achieve+their+overriding+goal+of+regime+survival&source=bl&ots=-yCluqAZDU&sig=IQQTd_a8IIECslMspPJejyEmidA&hl=en&sa=X&ved=0ahUKEwjVjYTRn4nTAhXJ64MKHbqcDUUQ6AEIGjAA#v=onepage&q=For%20the%20North%20Korean%20leaders%2C%20the%20nuclear%20weapons%20program%20is%20not%20an%20end%20in%20itself%2C%20but%20rather%20one%20of%20many%20strategies%20they%20use%20to%20achieve%20their%20overriding%20goal%20of%20regime%20survival&f=false

[8] http://www.invent-the-future.org/2013/11/understanding-north-korea/

[9] Ibid.

[10] “Kim Jong Un Says Pyongyang Won’t Use Nukes First; Associated Press”. http://abcnews.go.com/

[11] Tad Daley, “Nuclear lesson from Libya: Don’t be like Qaddafi. Be like Kim,” The Christian Science Monitor, 13 de outubro de 2011, http://bit.ly/w1wO00

[12] Alan Maass, Lance Selfa, “Washington celebrates Qaddafi’s death,” Socialist Worker, 24 de outubro de 2011, http://bit.ly/z8Df7r

[13] “North Korean leader Kim Jong-il dies ‘of heart attack’”. BBC News. 19 de dezembro de 2011.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s