Oriente Próximo

Os objetivos estratégicos por trás da guerra na Armênia

Via Moon of Alabama, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Recrutas voluntários da Armênia recebem uniformes e armas. Foto por Karen Mirzoyan.
Recrutas voluntários da Armênia recebem uniformes e armas. Foto por Karen Mirzoyan.

No domingo (27/09/2020), Ilham Aliyev, há muito tempo ditador do Azerbaijão, lançou uma guerra na região de Nagorno-Karabakh, controlada pela Armênia. O fato de ter ousado fazer isso agora, 27 anos depois de um cessar-fogo colocar fim ao conflito na região, é um sinal de que um cenário estratégico mais amplo se transformou.

Quando a União Soviética desmoronou, a região de Nagorno-Karabakh tinha uma população mista de azerbaijanos (também chamados de azeri) xiitas e armênios cristãos. Assim como em outras ex-repúblicas soviéticas, a diversidade étnica se tornou problemática quando emergiram os novos estados. Houveram batalhas pelas áreas mistas e a Armênia conquistou Nagorno-Karabakh. Houve, desde então, alguns confrontos fronteiriços e pequenas guerras entre os dois oponentes, mas a intensidade do conflito está muito maior agora do que antes.

Imagem via eurasianet.org
Imagem via eurasianet.org

Em 2006, Yasha Levine escreveu sobre sua visita a Nagorno-Karabakh para The Exile. Ele descreveu os oponentes desiguais:

Em 1994 os armênios venceram e forçaram o Azerbaijão a um cessar-fogo. Nesse meio tempo, Nagorno-Karabakh se organizou em um país soberano (chamado Artsakh) com seu próprio exército, autoridades e parlamento eleito. Mas ainda não havia sido reconhecido por nenhum outro país para além da Armênia e é classificado como um dos ‘conflitos congelados’ na região, assim como as regiões separatistas de Abecásia e Ossétia do Sul, na Geórgia.

Mas este ‘conflito congelado’ poderá se esquentar em breve, se você acreditar nas palavras do playboy/viciado em jogatinas/presidente azeri, Ilham Aliyev. Não que os azeris deveriam se empolgar com outra guerra: caso os armênios ainda sejam os guerreiros que eram há dez anos atrás, estatisticamente falando, a maioria das mortes serão do Azerbaijão. Ainda que equivalentes em número de soldados, os azeris possuíam o dobro de artilharias pesadas, veículos armados e tanques do que os armênios; mas quando a guerra terminou, o número de azeris mortos era 3 vezes maior do que de armênios. As mortes azeris ficaram na casa de 17.000. Os armênios perderam apenas 6.000. E isso sem contar os civis azeris restantes e os armênios exterminados etnicamente.

Desde que o estrategicamente importante oleoduto Baku-Ceyhan foi aberto, bombeando petróleo do Mar Cáspio ao ocidente através da Turquia, o presidente azeri tem feito ameaças abertas de retomar Nagorno-Karabakh à força. Os $10 bilhões de receitas do petróleo que ele espera ganhar por ano quando o oleoduto estiver totalmente operacional subiram a sua cabeça. Dez bilhões de dólares podem não parecer muito – mas para o Azerbaijão significa um salto de 30% do PIB. Em cada entrevista, Aliyev não menciona o projeto do oleoduto sem descambar para o assunto de ‘resolver’ o conflito em Nagorno-Karabakh.

Aliyev começou a gastar o dinheiro do petróleo antes mesmo dele começar a fluir, e anunciou uma duplicação do orçamento militar. Um pouco depois ele anunciou a duplicação de todos os salários militares. Os generais de Aliyev não escondem a empolgação sobre o fato de que até o ano que vem, seu orçamento militar será de $1,2 bilhões, valor equivalente a quase todo o orçamento federal da Armênia.

Nos 14 anos seguintes, a guerra que Yasha Levine previu em 2006 não ocorreu. E o fato de ter sido lançada agora aponta para uma mudança importante. Em julho, outro conflito fronteiriço estourou por razões desconhecidas. Então, a Turquia interveio:

Após o conflito em julho, o envolvimento da Turquia se aprofundou muito, com uma retórico belicosa inédita vindo de Ancara e repetidas visitas oficiais entre ambos os lados. Ancara parece ter visto o conflito Armênia-Azerbaijão como outra arena para exercer suas crescentes ambições de política externa, enquanto apetece um bloco nacionalista e anti-armeno da política interna turca.

O envolvimento maior da Turquia, por sua vez, deu a Baku a confiança para endurecer suas posições contra a Rússia, o aliado mais próximo da Armênia no conflito, mas que mantém relações próximas com ambos países. O Azerbaijão publicizou fortemente relatos sobre carregamentos de armas russas para Armênia logo após os conflitos (ainda não confirmados), e o presidente Ilham Aliyev reclamou pessoalmente ao líder russo, Vladimir Putin.

O presidente turco, Recep Erdogan interveio para além da retórica:

Em agosto, a Turquia e o Azerbaijão completaram duas semanas de exercícios militares aéreos e terrestres em conjunto, incluindo no enclave azeri de Naxcivan. Alguns observadores questionam se a Turquia deixou para trás equipamentos militares ou até mesmo um contingente de tropas.

O potencial para um envolvimento robusto da Turquia no conflito está sendo observado de perto pela Rússia, que já está no lado oposto ao membro da OTAN nos conflitos na Líbia e Síria.

A Rússia vende armamentos para ambos Azerbaijão e Armênia, mas possui uma base militar no último e favorece essa parceira estratégica.

O Azerbaijão comprou drones da Turquia e de Israel, e existem rumores de que eles são pilotados por equipes turcas e israelenses. A Turquia também contratou entre 2.000 e 4.000 jihadistas sunitas da Síria para lutar ao lado dos xiitas azeris. Um dúzia deles já foram mortos no primeiro dia de guerra. Veremos agora quanto tempo eles estarão dispostos a ser usados como “bucha de canhão” pelos odiados xiitas.

Existem também rumores de que há caças turcos no Azerbaijão enquanto aviões-espiões turcos exploram o espaço aéreo da Armênia através de sua fronteira oeste.

Imagem: Situação militar de Karabakh. Via iswnews.com
Imagem: Situação militar de Karabakh. Via iswnews.com

O objetivo militar imediato do Azerbaijão é tomar os dois distritos de Fizuli e Jabrayil na ponta sudeste do território controlado pela Armênia:

Enquanto o epicentro do conflito entre os dois lados é o território de Nagorno-Karabakh, Fizuli e Jabrayil são dois dos sete distritos no entorno de Karabakh também ocupados pela forças armênias. Estes distritos, que eram quase totalmente populados por azeris antes da guerra, eram a casa da grande maioria dos mais de 600.000 azeris desabrigados pelo conflito.

Enquanto havia uma ocupação modesta de armênios em alguns dos territórios ocupados, Fuzuli e Jabrayil continuam quase totalmente despopulados.

Os dois distritos possuem boas terras aráveis e a Armênia, já muito pobre, vai querer mantê-las. Certamente está lutando muito por elas.

A guerra não tem ido bem para o Azerbaijão. Já perdeu uma dúzia de tanques, e centenas de soldados. O acesso a internet no país foi completamente bloqueado para esconder as perdas.

As perdas não impedem que os “escribas” de Erdogan já escrevam sobre a vitória:

Defender o Azerbaijão é defender a pátria. Essa é nossa identidade e consciência política. Nossas mentes e estratégias de defesa geopolíticas não são diferentes. Lembre-se sempre, ‘pátria’ é um conceito muito amplo para nós!

Nós não fazemos um simples exagero quando dizemos que ‘a História foi reiniciada’. Nós esperamos uma vitória também no Cáucaso!

Bem…

Uma hora atrás (29/09/2020) o governo armênio afirmou que a Turquia derrubou um de seus aviões:

A Armênia afirmou que uma de seus jatos foi derrubado por um jato turco, em uma grande escalada do conflito sobre a região de Nagorno-Karabakh.

O chanceler armênio disse que o piloto do SU-25 soviético morreu após ser atingido pelo F-16 turco no espaço aéreo armênio.

A Turquia, que está apoiando o Azerbaijão no conflito, negou a acusação.

O Azerbaijão tem declarado repetidamente que sua força aérea não possui jatos F-16. A Turquia, entretanto, possui.

Um ataque turco dentro das fronteiras armênias pode acionar o Tratado de Segurança Coletiva, que obriga a Rússia e outros a defenderem a Armênia.

Uma entrada dos russos na guerra geraria uma grande dor de cabeça para Erdogan.

Mas este talvez nem seja o pior de seus problemas. A economia turca está encolhendo, o Banco Central tem poucas reservas, a inflação está alta e a lira turca continua despencando. Hoje ela atingiu uma baixa histórica.

Gráfico: câmbio dólar/lira turca.
Gráfico: câmbio dólar/lira turca.

O Azerbaijão possui uma boa quantidade de dinheiro do petróleo e pode talvez ajudar Erdogan. O dinheiro pode ser parte da motivação de Erdogan em se envolver nessa guerra.

A Rússia certamente não irá entrar diretamente no conflito. Ela será muito cuidadosa para não pisar em falso e cair em uma armadilha plantada pelos Estados Unidos.

No ano passado, a RAND Corporation, financiada pelo Pentágono, publicou um relatório que detalhava os planos contra a Rússia:

A partir de dados quantitativos e qualitativos de fontes ocidentais e russas, este relatório examina as vulnerabilidades e inquietações econômicas, políticas e militares da Rússia. Analisa então potenciais opções políticas para explorá-las – ideologicamente, economicamente, geopoliticamente e militarmente (incluindo opções aéreas, espaciais, marítimas, terrestres e multi-domínio).

Uma das opções do relatório discute um avanço da Rússia no Cáucaso:

Os Estados Unidos poderiam forçar a Rússia no Cáucaso de duas maneiras. Primeiro, os Estados Unidos poderiam forçar uma relação mais próxima da OTAN com a Geórgia e Azerbaijão, levando provavelmente a Rússia a fortalecer sua presença militar na Ossétia do Sul, Abecásia, Armênia e sul da Rússia.

Alternativamente, os Estados Unidos poderiam tentar aliciar a Armênia a romper com a Rússia. Apesar de um parceiro russo de longa data, a Armênia também desenvolveu laços com o ocidente: Fornece tropas para operações lideradas pela OTAN no Afeganistão e é um membro da Parceria da OTAN para a Paz, e recentemente concordou em fortalecer seus laços políticos com a União Européia. Os Estados Unidos poderiam tentar encorajar a Armênia a mover-se totalmente para a órbita da OTAN. Caso os Estados Unidos forem bem-sucedidos nesta política, a Rússia poderá talvez ser forçada a retirar sua base militar de Gyumri e uma base aérea próxima a Yerevan (atualmente cedida até 2044), e redirecionar ainda mais recursos para seu Distrito Militar do Sul.

O relatório da RAND dá poucas chances de sucesso para tais opções. Mas isso não significa que os Estados Unidos não tentariam criar mais problemas na parte sul da Rússia pelo estrangeiro. Podem ter dado ao seu aliado da OTAN, a Turquia, um sinal de que não seria problema uma ajuda de Erdogan para Aliyev e uma possível guerra com a Rússia.

A não ser que o território fundamental da Armênia seja seriamente atacado, a Rússia provavelmente não irá se envolver. Ajudará a Armênia com inteligência e equipamentos através do Irã, e continuará negociando com ambos os lados para tentar um cessar-fogo.

Pressionar o Azerbaijão para isso requerirá primeiramente alguns sucessos significativos da Armênia contra as forças invasoras. Há 30 anos atrás, os armênios se provaram soldados muito melhores do que os azeris. Observando os materiais disponíveis nas redes sociais, isso ainda parece ser o caso, e será o elemento decisivo para desfecho deste conflito.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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