Brasil

As ilusões começam a cair: imprensa e democracia

Por Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Foto por Paulo Whitaker.
Foto por Paulo Whitaker.

Denunciamos aqui repetidas vezes que a disputa no atual processo eleitoral, nos termos do liberalismo de esquerda, levará a uma enorme derrota eleitoral – que é, no final das contas, um reflexo da derrota política sofrida por este campo políticos nos últimos anos. Essa derrota começa com as concessões ao imperialismo estadunidense durante a revolução colorida de 2013, passa pela aplicação do ajuste fiscal do rentismo por Dilma Rousseff no início de seu segundo mandato, atinge seu auge midiático com a destituição do governo petista em 2016 e é selada com o impedimento da candidatura de Lula em 2018. Apesar de todos estes trágicos episódios, o liberalismo de esquerda liderado pelo PT recusou-se de chamar o povo à luta – e para além disso, alimentou profundas ilusões a respeito de uma saída dentro da ordem, enquanto bradava a vazia palavra de ordem do “golpe”.

Já está mais que claro que não há saída para esta crise política e econômica (interna e internacional) dentro dos atuais marcos de poder. A burguesia rentista que antes aceitou um pacto de classes com o liberalismo de esquerda, pacificando o país através de miseráveis programas sociais, decidiu declarar uma guerra de classe ao povo brasileiro e não aceita mais nenhum tipo de concessões.

Entretanto, o liberalismo de esquerda continua ignorando todas essas contradições e não só atua politicamente de maneira ingênua e oportunista, mas alimenta ilusões profundas em suas bases eleitorais. O início da campanha eleitoral, neste trágico momento da história brasileira, está recheada de candidatos que juram em nome de tudo e todos que sua eleição é a saída para a crise, ou que uma vitória eleitoral em algumas capitais será o primeiro passo para uma “virada” política. Não poderia haver ilusão maior.

Infelizmente, a candidatura de Guilherme Boulos na cidade de São Paulo sofre de todos estes sintomas. Ainda que de forma bem-intencionada, Boulos se recusa em colocar os termos verdadeiros do atual momento político nacional: que não há saída dentro da ordem, e que os prefeitos eleitos agora estarão de mãos completamente atadas ao rentismo – não só pelo avanço brutal da juristocracia, mas principalmente pelo fraudulento sistema da dívida pública. Não há outra maneira de criar uma consciência crítica e reconstruir um campo político popular sem denunciar estas contradições.

Mas na última semana, já houve o primeiro golpe à ingenuidade liberal: os debates eleitorais entre candidatos à prefeitura foram cancelados durante o primeiro turno – até mesmo na “democrática” CNN!.

Muitos afirmaram que é por “medo” da burguesia de uma provável vitória de Boulos – que olhando de forma realista, ainda está muito distante de se concretizar, e tende a estagnar cada vez mais conforme sua campanha se aproxima cada vez mais do PT (nem mesmo os candidatos petistas exibem seu partido com orgulho!). Não há “medo” nenhum da burguesia interna, paulista, ou seja ela qual for. A classe trabalhadora está completamente desorganizada, e como dito anteriormente, mesmo uma vitória de Boulos em São Paulo não representaria risco nenhum à ordem: o coordenador do MTST estaria de mãos atadas no dia seguinte à  posse, e, a menos que haja uma denúncia intransigente na campanha das contradições postas, e que o mandato seja exercido no sentido de mobilizar os trabalhadores, a conclusão mais provável será a desmoralização completa.

Nada aponta para isso até agora, entretanto.

Mas voltemos à questão da imprensa e da supostas eleições “democráticas”: o cancelamento do debate demonstra na realidade que o grau de dominação burguesa e de apatia política das massas permite ações antipopulares por parte da burguesia sem nenhum custo político ou econômico. Por qual motivo realizar debates, se a burguesia pode simplesmente cancelá-los, sem nenhuma consequência? É uma clara expressão da guerra de classes abertamente declarada pela burguesia: o teatro da “democracia” acabou. É a autocracia burguesa em sua forma mais desenvolvida dos últimos anos, sem concessões.

Parece evidente que a esquerda liberal não aprendeu lição alguma com os golpes sofridos nos últimos anos: o disposição eleitoral se mantém a mesma. Bolsonaro segue alimentando em sua base a opinião pública de uma postura supostamente “anti-sistêmica”, atacando todas as instituições e ordem de maneira farsesca. A esquerda liberal, por outro lado, continua colocando-se como defensora da ordem, da “democracia”, das “instituições” e tudo que há de mais podre e fracassado aos olhos de nosso povo. E Boulos, tragicamente, reproduz esses vícios.

Mas ainda há tempo: é urgentemente necessário o abandono das ilusões de uma saída dentro da ordem, de restaurar um governo de conciliação de classes dentro dos marcos de uma crise global do capitalismo, onde não só a burguesia interna avança de forma agressiva contra o povo trabalhador, mas também as forças imperialistas atuam pela drenagem brutal de nossos recursos em prol da salvação do epicentro do sistema capitalista mundial.

Para salvar os municípios, os estados e a nação brasileira, devemos utilizar este processo eleitoral para denunciar a podridão do sistema, romper as ilusões alimentadas nas bases populares pelo liberalismo de esquerda e fundar uma nova atuação crítica e radical sobre os rumos nacionais. Caso contrário, seremos engolidos pelo colapso econômico internacional.

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