Europa

O yuan, o Brexit e o futuro das relações China-Reino Unido

Por Alberto de Miguel, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Imagem via Dreamstime.
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Seja por causalidade ou por casualidade, o certo é que o desenvolvimento econômico experimentado pela China a partir das reformas iniciadas por Deng Xiaoping em 1978 tem sido extraordinário. Passou da 11º maior economia do mundo em termos de paridade de poder de compra em 1980 para a 1º posição a partir de 2014, superando os Estados Unidos, que ostentava o título desde 1872. A China é também, e de longe, o maior exportador de mercadorias do mundo, e o maior importador de petróleo. O peso econômico do Gigante Asiático é tal que, desde o estopim da crise de 2008, seu crescimento tem “arrastado” o restante da economia global. Não em vão começou-se a falar da “locomotiva chinesa” nos últimos anos.

Tudo isso, pouco mais de quarenta anos depois, não é nenhum segredo, especialmente desde que as tensões entre China e Estados Unidos começaram a agudizar-se conforme a primeira se convertia em uma maior ameaça à hegemonia global do segundo. Agora, o país asiático que dar um passo mais adiante nas suas intenções. Um pilar importantes de seus planos passa por alcançar a internacionalização de sua moeda: o yuan, ou RMB.

O que isso significa?

O dinheiro cumpre três funções principais: 1. meio de troca; 2. unidade de monetária; 3. depósito de valor. Afirma-se que uma moeda se torna internacional quando todas essas funções se projetam ao cenário global, ou seja, quando os agentes econômicos internacionais – tanto público quanto privados – começam a utilizá-la na realização de todas ou alguma das ditas funções. Podemos imaginar, por exemplo, que as empresas estrangeiras que operam com a China comecem a utilizar o RMB com a mesma ou maior assiduidade que o dólar estadunidense em suas transações (meio de troca), que os países asiáticos outorguem uma maior relevância ao mesmo na determinação do tipo de câmbio de sua própria moeda nacional (unidade monetária), ou que os bancos centrais de certos países começaram a aumentar o peso relativo de suas reservas em yuans sobre o total de seu estoque de divisas (depósito de valor).

Por que a China perseguiria esse objetivo? Os motivos são vários. No plano mais superficial, a elevação do yuan ao status de moeda internacional tem relevância simbólica: a China é de fato um jogador chave na economia mundial, mas a arquitetura financeira internacional, idealizada em Bretton Woods e cuja essência segue vigente, não adaptou-se ainda a essas mudanças – com exceção da decisão do FMI em 2015 de incluir o yuan na cesta de moedas que compõem os Direitos Especiais de Saque (SDR, em inglês).

Outra razão é de um pragmatismo facilmente compreensível: já que o sistema de pagamentos internacionais SWIFT é controlado pelos Estados Unidos, e é através deste que se materializam as sanções impostas pelo último, a expansão do uso do yuan a nível internacional serviria como forma de “contornar” os efeitos das mesmas. Neste respeito, não apenas a China tem interesse que tal processo siga adiante, mas também todos aqueles países que se encontram sob sanções estadunidenses – como por exemplo a Rússia, Irã e Venezuela – ou que consideram que sua dependência em relação ao dólar – levando em conta que, no fim das contas, é um papel sem respaldo e emitido por uma nação com níveis de endividamento externo cada vez maiores – é um risco que deve ser superado.

O terceiro motivo nos remete às reformas iniciadas por Xiaoping. Em sua progressiva transição para um modelo econômico distinto – seja o ‘capitalismo’ ou o ‘socialismo com características chinesas’ – o país inicialmente optou por um crescimento baseado na recepção de capitais internacionais, destinados principalmente à produção industrial. Com efeito, é neste momento que o país asiático se ergue como a “fábrica do mundo”, sendo o destino majoritário da crescente deslocalização industrial que começa a ocorrer do ocidente a partir dos anos 1970. É assim que começa a materializar-se o fenômeno “made in China”. Agora, o objetivo é seguir transicionando a um modelo baseado no consumo interno e tornar a China um país economicamente mais moderno, o que resulta que as reformas necessárias para isso passam, de uma forma ou de outra, pela expansão e abertura de seus mercados financeiros e pela internacionalização de sua moeda. Deste ponto de vista, a internacionalização do yuan é parte da estratégia chinesa de arrebatar a hegemonia econômica mundial dos Estados Unidos.

O discurso feito por Zhou Xiaochuan, então presidente do Banco Popular da China, em 2009, culpando as “debilidades inerentes” do atual sistema monetário internacional como a principal causa da crise, pode ser visto como o ponto de inflexão da postura chinesa neste respeito. Desde então, a China intensificou seus esforços para o dito objetivo mediante a aplicação de um amplo conjunto de políticas monetárias e econômicas dirigidas fundamentalmente a facilitar a aquisição e o uso do RMB nos mercados internacionais, como por exemplo, a celebração de acordos bilaterais de câmbio entre bancos centrais – acordos “swap” – o fomento da liquidação de pagamentos em RMB com aliados estratégicos como a Rússia, e a abertura dos mercados de títulos em RMB – os títulos “Dim Sum” – a estrangeiros através do maior centro de trading offshore de yuan a nível mundial: Hong Kong.

Entretanto, Pequim necessitava de outro grande centro de comércio offshore para sua moeda, e é então quando as elites chinesas passaram a olhar para Londres como via de entrada do RMB na Europa e no ocidente em geral. A capital britânica é, junto aos Estados Unidos, o maior centro financeiro do mundo, e a pertença do Reino Unido à União Européia permitia aos bancos e demais companhias financeira comercializar diretamente com clientes europeus. A China viu aqui uma brecha pela qual impulsionar a internacionalização de sua moeda no ocidente, e o certo é que encontrarão no coração do Reino Unido uma contraparte muito disposta a fazer esse tipo de negócios. É assim que a estratégia “from London to the World” idealizada por Pequim começa a tomar forma. Em abril de 2012, nasce a “Renminbi Initiative” (Iniciativa RMB), que consiste na elaboração de medidas práticas para apoiar o desenvolvimento de Londres como centro offshore para o RMB. Mais tarde lançou-se o “Shanghai-London Stock Connect” (Conexão de Ações Xangai-Londres), um mecanismo pelo qual as bolsas de ambas as cidades seriam conectadas, permitindo que empresas cotadas em ambas emitam ações em qualquer uma delas de maneira indistinta. A proliferação deste tipo de acordos entre China e Reino Unido se deve majoritariamente ao enfoque geoestratégico posto em marcha pelo então chanceler britânico, George Osborne (2010-2016), que apostava em um maior crescimento econômico da City – ou seja, do mercado financeiro do país – até o Sudeste Asiático. Em 2015, David Cameron e Xi Jinping anunciavam o começa da “era dourada” das relações sino-britânicas. A City, o Tesouro e o Banco da Inglaterra observaram essa manobra com bons olhos, e tal enfoque não apenas se manteve durante o governo de coalizão encabeçado por Cameron entre 2012 e 2016, mas também posteriormente com Theresa May. Atualmente, 6,18% dos pagamentos internacionais em RMB são processados através da infraestrutura financeira londrina. A cidade já se converteu no segundo maior centro mundial de comércio offshore de RMB, atrás de Hong Kong. O país é também um dos maiores destinos ocidentais de investimento chinês das últimas duas décadas.

Atenção: tudo que foi descrito no parágrafo anterior não significa que o Reino Unido tenha levado a cabo nos últimos anos uma virada geopolítica integral até o ponto de situar a China como seu principal aliado estratégico. Nada mais longe da realidade. Simplesmente, o setor financeiro londrino tem avaliado como um bom negócio a cooperação com o país asiático em matéria de comércio, investimento e finanças, o que inclui tudo relacionado aos esforços chineses para internacionalizar o yuan, decidindo assim assumir o papel de segundo maior centro mundial de negociação offshore da moeda.

Entretanto, com referendo de junho de 2016 o namoro começou a complicar. Com efeito, a saída do Reino Unido da União Européia pode significar para Londres a perda daquelas circunstâncias que a tornaram cobiçada por Pequim, ao perder a filiação ao mercado comum europeu. O Reino Unido e a União Européia estão negociando para determinar como serão suas futuras relações mútuas. O dia 30 de junho era o prazo limite para que o país solicitasse a prorrogação das mesmas. Tal e como haviam avisado com antecedência desde o governo de Boris Johnson, isso não aconteceria. E assim foi. O próximo prazo sobre o qual se colocam as expectativas é de 31 de dezembro de 2020. Este é o último dia em que as normativas europeias terão validade em território britânico. Também é o último dia para que se produza um acordo. Se isso então não ocorrer, o ano de 2021 começará com a materialização do medo de muitos: o já famoso “Brexit duro”. Neste caso, todas as empresas estrangeiras que têm utilizado Londres como via de entrada ao continente europeu terão que solicitar licenças de autorização para cada caso individual, o que geraria custos de transação tremendos, reduzindo a vantagem competitiva da City de Londres como destino de investimentos. Do mesmo modo, a China poderia perder seu segundo maior sócio no processo de internacionalização de sua moeda.

Neste caso, supondo que não se chegue a um acordo antes de 2021, tudo parece indicar que pode se abrir dois cenários alternativos. Uma possibilidade é que se produza um distanciamento, com efeito, entre China e Reino Unido, que a priori viria mais da parte asiática do que europeia. A ameaça do Brexit levou desde o início a especulações sobre oportunidades que implicariam para o surgimento de outros centros financeiros alternativos a Londres dentro na União Europeia. Cidades como Frankfurt, Paris ou Luxemburgo, apesar de estarem muito atrás da capital britânica como centros financeiros, são os candidatos melhores posicionados para disputar os negócios que sairiam do Reino Unido. Alguns falam de uma futura “fragmentação” das finanças na Europa, na qual se produziria uma desconcentração geográfica e funcional das mesmas, com distintos centros financeiros especializados em ramos distintos de negócio, sendo um deles, muito possivelmente, o mercado offshore de RMB. Dependendo da importância econômica e geoestratégica que cada um atribui ao yuan, maior ou menor será a competência entre os candidatos para conquistar esse ramo na Europa.

Também parece plausível que esse distanciamento venha por parte do Reino Unido. Os acontecimentos recentes relacionados ao 5G da Huawei ou a questão de Hong Kong em finais de julho têm tensionado as relações entre ambos países. Neste aspecto, convém lembrar as pressões exercidas por Washington para que, em ambos os casos, a linha de atuação britânica seja de um progressivo afastamento do Reino Unido frente a China e uma maior aproximação com os Estados Unidos. Entretanto, a docilidade do executivo britânico há de ser posta em dúvida, ao menos relativamente. Por exemplo, após o anúncio por parte do governo de ordenar a retirada de toda a infraestrutura de 5G da Huawei do país, o próprio Boris Johnson afirmou que não abandonariam completamente sua política de compromissos com o país asiático: “A China é um fator gigante da geopolítica. Será um fator gigante em nossas vidas, as vidas de nossos filhos e netos. Precisamos de uma resposta calibrada. Seremos duros em algumas coisas, mas também seguiremos cooperando. Não serei empurrado para ser um sinófobo irracional em todas as questões, alguém que é automaticamente anti-China”. Outras declarações com o mesmo tom foram feitas por outros funcionários do governo.

O segundo cenário é o oposto: precisamente, de uma maior aproximação entre ambos atores. A saída dos britânicos sem acordo suporia para o Reino Unido um desgaste de suas relações com um de seus principais sócios: a União Europeia. Neste contexto, o caminho a se seguir pelo país se bifurcaria, deixando, de um lado, a aproximação com os Estados Unidos, e de outro, com a Ásia-Pacífico. Por qual opção os britânicos optarão é ainda algo incerto. Sim, se fala de negociações sobre um tratado de livre-comércio com os Estados Unidos, mas as peças ainda estão longe de se encaixar, e este tipo de questões levam anos de conversa, além de somar-se o fato de que, em um contexto geopolítico como o atual, as coisas podem mudar rapidamente de sentido. Por outro lado, fazem poucos dias que o Reino Unido firmou um tratado de livre-comércio com o Japão: o primeiro firmado como “nação comercialmente independente” após o Brexit. O Japão não é, entretanto, uma país dentro da órbita chinesa. É, porém, um país asiático, para todos os efeitos: faz parte de toda a rede regional de produção que lhe é típica, na qual os diferentes países se especializaram em realizar diferentes fases do processos produtivo de determinados produtos, principalmente tecnológicos. É lógico pensar que, se de fato o Reino Unido começar a se sentir confortável em fazer negócios com a segunda maior potência da região, e encontrar na mesma um bom substituto para seus antigos sócios europeus, isso daria as bases para uma eventual guinada do país para o leste. E uma guinada para o leste significa, direta ou indiretamente, acabar focando na China, que é o epicentro de toda essa cadeia regional de produção.

Neste ponto há de se ressaltar duas questões. A primeira é que tal aproximação parece muito mais plausível se finalmente ocorresse um acordo entre Reino Unido e União Europeia, pois só assim a China veria intactas as oportunidades que Londres representa como porta de entrada para a Europa e o ocidente em geral. A segunda tem a ver com o papel desempenhado pelos Estados Unidos em toda essa história. Até agora, o Reino Unido tem conseguido razoavelmente manter boas relações comerciais com a China sem receber demasiadas pressões por parte de Washington. Isso, conforme as contradições entre China e Estados Unidos se agudizam cada vez mais, começará a mudar. Já está mudando, na verdade. O Reino Unido, como muito outros países, se verá cada vez mais obrigado a escolher um lado.

Em resumo, só o tempo dirá que inserção geopolítica acabará tomando o Reino Unido pós-Brexit, que lugar terá a China em seus futuros planos (e vice-versa), e por último, como repercutirá tudo isso sobre os esforços do Gigante Asiático para impulsionar sua moeda como instrumento de hegemonia econômica. A dinâmica história da política exterior britânica até agora faz pensar que, a priori, sua tendência natural é que acabe se virando ao Atlântico. Apesar disso, seria ingênuo pensar que o peso econômico global adquirido pela China nos últimos anos não pese na balança. Os tempos de convulsão e incerteza que vão marcar a geopolítica mundial dos próximos anos não são, quiçá, a melhor das circunstâncias para que ambas potências tomem decisões deste tipo, pois estarão cercadas de riscos. Entretanto, os ricos também estão cheios de oportunidades, e pode ser que, por elas, acabem escolhendo a opção de uma aproximação mútua.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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