EUA

Por que os EUA possuem a menor expectativa de vida dentre os países ricos?

Por Eric Zuesse, via Strategic Culture Foundation, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Trabalhadores da saúde protestam contra as más condições de trabalho em Bronx, Nova Iorque. Foto por Gregg Vigliotti.
Trabalhadores da saúde protestam contra as más condições de trabalho em Bronx, Nova Iorque. Foto por Gregg Vigliotti.

De acordo com o “Relatório de Desenvolvimento Humano de 2019” da ONU, que é a fonte global de informação mais recente (publicado em 9 de dezembro de 2019), os Estados Unidos são o único país dentre os 15 com maior “desenvolvimento humano” cuja expectativa de vida no nascimento é menor que 80 anos. Os EUA ocupam o 15º lugar em “desenvolvimento humano” dentre 189 países, mas ocupam o 38º lugar quando se trata de expectativa de vida (confira a página 300 para as classificações completas). A expectativa de vida dos estadunidenses é mais de 1 ano mais baixa que o 14º lugar, a Dinamarca, que apresenta uma expectativa de 80,8 anos. O número americano é de 78,9 – quase dois anos inteiros abaixo da Dinamarca, que ocupa a posição seguinte em “desenvolvimento humano”. O Japão, por exemplo, que ocupa a 19º posição (sendo assim, não está no top 15) possui a mais alta expectativa de vida do mundo: 84,5 anos. São 5,6 anos a mais de vida no Japão do que nos Estados Unidos. O que pode explicar uma discrepância tão grande?

Alguns especialistas atribuem essa extraordinário expectativa de vida japonesa ao grande consumo de natto, uma comida de soja fermentada tradicional do Japão, que contém o maior potencial de um grande número de nutrientes que protegem tanto contra doenças cardíacas e câncer, quanto osteoporose, maior do que qualquer outro alimento conhecido – componentes como nattokinase e vitamina MK-7 – ou “K2 (menaquinona-7)” – além de conter outros nutrientes promissores, porém menos explorados, como a pirazina. As pesquisas sobre a nattokinase, em particular, têm se tornado especialmente intensivas, e a substância tem se descoberto tão efetiva quanto medicamentos de estatina (o tratamento padrão para reduzir riscos de ataques cardíacos e AVCs) contra doenças cardíacas e AVCs, além de muito mais barata e totalmente atóxica (todas as drogas são tóxicas, mas a nattokinase é um componente alimentício natural que foi extensivamente testado e nenhuma toxicidade foi encontrada até agora). A nattokinase é tão poderosa que seus efeitos benéficos são mensuráveis já na primeira dose. Mais pesquisas estão em andamento, mas o consumo de natto é a explicação mais provável, até agora, para a extrema longevidade japonesa, ao reduzir a ocorrência de doenças cardíacas, AVCs, cânceres e fracturas ósseas (e talvez outras coisas).

Por outro lado, a dieta estadunidense é considerada uma das maiores razões do porquê os Estados Unidos possuem a menor expectativa de vida dos países industrializados e ricos. Entretanto, o caótico sistema de saúde norte-americano é certamente outra importante razão para a notável vida curta dos estadunidenses comparada ao países industrializados. Por exemplo, os Estados Unidos são o único país industrializado em que menos de 100% de seus cidadãos possuem plano de saúde, e a porcentagem norte-americana é ainda menor do que 90%, ou seja, os EUA realmente se destacam, de longe, em relação aos demais países, todos com sistemas de saúde universais. Na verdade, dois terços das falências pessoais nos Estados Unidos ocorrem devido a custos médicos, situação que não existe em nenhum outro país industrializado, pois o atendimento médico é visto em todos os outros como um direito, e não um privilégio disponível apenas àqueles que podem pagar.

Nos Estados Unidos, esse problema não se limita apenas aos 15% de indivíduos que não possuem plano de saúde, mas se estende também dentre os segurados, que muitas vezes não possuem cobertura para os tratamentos necessários. O atendimento sanitário é talvez a maior incerteza nos Estados Unidos. As seguradoras de saúde maximizam o lucro cobrando o máximo valor pela mínima cobertura, e apenas alguns pacientes realmente lêem e compreendem seus contratos (cada um deles com coberturas e linguagem diferentes). O pressuposto implícito é que cada um é totalmente responsável por si mesmo. O governo não tem responsabilidade nenhuma. Neste sentido, não há “sociedade”: o socialismo é repudiado, indiferentemente se for do tipo democrático – o próprio socialismo é repudiado. Esse tipo extremo de “individualismo” é o estilo americano. E esse contraste reduz sua expectativa de vida, em comparação a outros países industrializados.

Então, estas são as duas grandes explicações possíveis para a relativamente baixa expectativa de vida nos Estados Unidos.

Apesar do relatório da ONU esconder as classificações de expectativa de vida, e apresentar apenas os números, a Wikipédia mostra as nações diretamente por sua posição neste quesito. O Japão possui aqui a 2º posição, já que os inimigos da China (especialmente os EUA) tratam-a como inimiga, visando fragmentá-la e abocanhar qualquer pedaço que conseguirem, caso consigam, o que inclui a mais rica cidade da China, Hong Kong. Por isso preferem contar aqui Hong Kong como um país separado, ao invés de uma cidade chinesa (o que de fato é).

O Reino Unido invadiu Hong Kong em 1842 para vender ópio, e assim, a China foi obrigada a cedê-la por 99 anos, até 1º de julho de 1997, para que os ingleses pudessem continuar o extremamente lucrativo tráfico de ópio, centralizado na cidade. Os imperialistas fingiram, então, que sua devolução em 1997 para a China foi um ato da generosidade britânica. “Aqui, eu lhe devolvo o que lhe roubei – olhe como sou generoso!” Esse é o mito, e ele continua, ainda que de forma diferente, até hoje. A CIA editou e produziu as listras negras da Wikipédia, com sites que não podem aparecer por lá, então, é esperado que trate Hong Kong como uma nação, e não como uma cidade chinesa. Enquanto a expectativa de vida em Hong Kong no relatório de 2019 (baseado em dados de 2018) era de 84,7 anos, no Japão era de 84,5 anos, apenas dois décimos de vantagem: é uma jogada de propaganda, visando separar Hong Kong da China novamente.

Aqui está a lista (controlada pelos EUA e Reino Unido) dos 38 países com maior expectativa de vida:

  Expectativa de vida ao nascer (em anos)  
PosiçãoPaíses e RegiõesGeralFemininaMasculina
1Hong Kong84.787.681.8
2Japão84.587.581.1
3Singapura83.885.881.5
4Itália83.685.581.7
5Espanha83.486.180.7
 Suíça83.485.381.1
7Austrália83.385.381.3
8Islândia82.984.481.3
9Israel82.884.481.1
 Coreia do Sul82.885.879.7
11Suécia82.784.480.9
12França82.585.479.6
13Malta82.484.180.5
14Canadá82.384.380.3
 Noruega82.384.380.3
16Grécia82.184.579.6
 Irlanda82.183.780.4
 Luxemburgo82.184.280.0
 Países Baixos82.183.880.4
 Nova Zelândia82.183.980.4
21Portugal81.984.778.8
22Andorra81.8  
23Finlândia81.784.678.9
25Bélgica81.583.879.1
26Áustria81.483.879.0
27Alemanha81.283.678.8
28Eslovênia81.283.978.4
29Reino Unido81.283.079.5
 União Européia81.283.878.6
30Ciprus80.882.978.7
31Dinamarca80.882.877.8
32Liechtenstein80.5  
33Costa Rica80.182.777.5
34Chile80.082.477.6
35República Tcheca79.281.876.6
36Barbados79.180.477.7
37Líbano78.980.877.1
38Estados Unidos78.981.476.3

A China estava posicionada no 59º lugar, com 76,7 anos. (A China possui um PIB per-capita muito menor, de $9.800, do que de sua cidade mais rica, Hong Kong, com $49.000. No Japão, é de $39.290).

A Rússia se encontrava na 106º posição, com 72,4 anos. (Seu PIB per-capita é de $11.290).

A média global era de 72,6 anos.

Os 12 últimos países eram todos de África Subsaariana, e todos abaixo dos 60 anos, e variam entre 52,8 e 59,4 anos de expectativa de vida.

Os países subsaarianos com maior expectativa de vida foram Botsuana, com 69,3 anos, e Ruanda, com 68,7 anos. Em 2001, a expectativa de vida na Botsuana era de apenas 50 anos, o mesmo número que possuía em 1962.

Ruanda possuia uma expectativa de cerca de 50 anos em 2001, mas foi reduzida para apenas 22 anos em 1993 e 28 anos em 1994, no ano que ocorreu o genocídio, subindo estavalmente desde então, possuindo agora a segunda maior longevidade da África negra.

A longevidade na Rússia era de 65 anos em 2001. Na China era de 72 anos.

As maiores melhoras ocorreram em Botsuana e Ruanda, e, desde que Ruanda esteve abaixo dos 30 anos durante 1991-1994, sua ascensão daquele inferno tem sido a mais notável do mundo, triplicando sua expectativa de vida entre 1993 e 2018 – em apenas 25 anos. A Ruanda também é o país menos corrupto do mundo. Isso mostra o que é possível ser feito e conquistado. Não é impossível.

A longevidade nos Estados Unidos variou entre 78 e 78,84 desde 2008 até 2018 – uma década inteira sem nenhum progresso. Talvez esse limite seja o ponto de virada, quando os Estados Unidos se tornarão, mais claramente, um país subdesenvolvido. Talvez a melhor coisa que poderia acontecer agora para os americanos – especialmente porque a longevidade do país poderá diminuir em breve – seria o estabelecimento de uma indústria nacional de natto, competindo com o Japão ao menos em questão de nutrição (ainda que não em sistema de saúde). É claro, socializar o sistema de saúde também ajudaria enormemente, ampliando o acesso ao atendimento à norma global de 100%. Isso certamente melhoraria o sistema de saúde americano, além de reduzir muito seu custo.

O primeiro relatório de desenvolvimento humano da ONU foi de 1990. Naquele ano, o Japão ocupava a primeira posição. Agora se encontra no 19º lugar. Naquele ano, os Estados Unidos marcaram o 19º lugar, e tinha uma expectativa de vida de 75 anos, enquanto a do Japão era de 79 anos. Na China era de 69 anos, assim como na Rússia, que ocupava o 26º lugar em “desenvolvimento humano”, ainda como União Soviética. Mas em 1995, o “desenvolvimento humano” da Rússia já havia caído vertiginosamente, de 26º para a 52º posição. Os Estados Unidos dispararam para o 2º lugar, logo abaixo do Canadá e acima do Japão (o Canadá ocupava a 5º posição em 1990), subindo 17 posições em apenas 5 anos. No ano 2000, a Rússia já havia despencado para a 62º posição, muito abaixo do atual 49º lugar. Ou seja, a Rússia atual ainda possui uma posição mais baixa do que ao final da União Soviética, ainda que tenha melhorado significativamente sua expectativa de vida desde então.

A longevidade na Rússia estagnou durante os anos 1980, entre 67 e 69 anos. É exatamente o que ocorreu com os Estados Unidos durante 2008 e 2018, com números entre 78 e 78,9 anos. A expectativa de vida na Rússia despencou para 65 anos em 1993, e não se recuperou até 2006, quando atingiu os 67 anos novamente, chegando aos 72,4 anos em 2018. A Rússia levou aproximadamente 16 anos para recuperar sua expectativa de vida de 67 anos, devido ao colapso econômico que seguiu o fim da União Soviética. E já cresceu mais de 5 anos desde então. Mas os Estados Unidos estão estagnados.

Quem será então, o Mikhail Gorbachev estadunidense? O teto de longevidade da União Soviética acabou se tornando um ponto de virada histórico para aquele país. Será a estagnação americana um ponto de virada histórico também para os Estados Unidos?

A expectativa de vida é um indicador dependente de diversos outros fatores, mas ele pode também ser um indicador de outros eventos históricos extremamente importantes. Eventos como, talvez, o fim de um império. Talvez uma indústria de natto surja nos EUA, como um truque para preservar o Império americano, ao contrário de um meio de aumentar a longevidade dos americanos. Um país que é controlado por seus bilionários pode comportar-se dessa maneira – fazendo algo bom por motivos ruins, o que ocorre com frequência. Isso não significa que a coisa é ruim, ou que o agente é bom. Por outro lado, talvez aqueles que controlam a economia e o governo estadunidense nem mesmo liguem com o aumento da expectativa de vida. Caso não liguem, poderá ocorrer com os EUA o que ocorreu com a URSS? É possível. O último debate entre Donald Trump e Joe Biden não parece refletir uma potência mundial em ascensão. Talvez a estagnação da expectativa de vida estadunidense seja uma previsão de seu declínio.

Seguindo adiante, agora, na era do coronavírus, os Estados Unidos possuem a 12º maior porcentagem de infectados dentre 213 países. São 22.484 casos por milhão de habitantes, enquanto o Japão possui 657 casos por milhão. A média global é de 4.389 casos por milhão, 6,7 vezes mais alta que a japonesa. A taxa estadunidense é 5,1 vezes mais alta que a média global, e 34,2 vezes mais alta que a japonesa. A China apresenta 59 casos por milhão, o Vietnã, 11 casos por milhão. A Finlândia possui 1.823 por milhão, mas passa por uma segunda onda, que iniciou em 17 de julho. A Nova Zelândia possui 369 casos por milhão. A taxa de mortalidade nos EUA é de 639 por milhão, enquanto a média global é de 131, no Japão é 12, na China é 3, no Vietnã é 0,4, e na Nova Zelândia é 5. Esses números refletem não apenas a qualidade do sistema de saúde do país, mas a qualidade de seu sistema público, que é outro fator importante para determinar a expectativa de vida.

A perspectiva futura dos Estados Unidos, comparada a outros países, certamente não parece melhor na era do coronavírus do que no período anterior. As perspectivas estadunidenses parecem, na verdade, ter piorado ainda mais.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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