Oriente Próximo

O Irã ‘re-sancionado’: as sanções realmente funcionam?

Por Tim Kirby, via Strategic Culture Foundation, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Trump aparece na capa de um jornal iraniano em Teerã. Foto por Atta Kenare.
Trump aparece na capa de um jornal iraniano em Teerã. Foto por Atta Kenare.

O governo Trump está buscando apoio internacional para prolongar as sanções contra o Irã, apagando as negociações feitas durante o governo Obama. Até agora, a “comunidade internacional” não parece muito empolgada com a idéia, especialmente alguns membros do Conselho de Segurança da ONU, que foram igualmente sancionados por Washington no passado. Trump pode exigir o que quiser da ONU, mas até a remoção das sanções contra a Rússia e o fim da “guerra comercial” contra a China, é improvável que pressionem um parceiro econômico em prol dos sentimentos de Washington.

O Irã tem sido a pedra no sapato americano desde sua revolução em 1979, o que significa que há mais de 40 anos, os iranianos têm sido um grande alvo da força de uma superpotência que se tornou hiperpotência em 1991. E ainda assim, o singular sistema semi-teocrático do Irã continua, de alguma forma, de pé. Talvez eles tenham escolhido a religião certa. Os Estados Unidos são 40 vezes maiores que o Irã em termos do PIB e são de longe a nação mais influente da terra. Então, talvez, punições econômicas direcionadas não sejam tão efetivas? E caso realmente não sejam, então porque os Estados Unidos continuam utilizando essa baioneta de soft power na era da metralhadora?

Historicamente, as sanções funcionam para Washington?

Já houveram muitas emissões de punições econômicas ao longo dos anos. Elas vão de sanções direcionadas a indivíduos, até embargos comerciais totais contra uma nação estrangeira com chamados para que os aliados façam o mesmo. Para evitar que esse artigo se torne um debate terminológico, vamos nos referir a esses casos como ‘sanções/embargos’, ou ‘S/E’.

A Guerra Fria foi certamente um período histórico recheado de S/E. Enquanto os soviéticos eram muito contundentes em exibir a divisão global com o Muro de Berlim e controle de viagens para os cidadãos soviéticos, Washington por outro lado construiu discretamente diversas barreiras econômicas para conter o crescimento dos comunistas. Todos acreditavam que os produtos soviéticos eram inerentemente inferiores, mas a Emenda Jackson-Vanik certamente ajudou a provar isso como “verdade”, já que nenhum deles chegou às prateleiras americanas – a mão “invisível” do livre mercado em ação.

Mas em termos de sanções, a Guerra Fria não foi apenas sobre a luta entre capitalismo e comunismo, mas parece que as S/E eram emitidas para qualquer nação com uma diferença sistêmica em relação ao status quo ocidental. Isso significa que a verdadeira batalha, ao menos quando olhamos as S/E, parece ter sido travada entre o Sistema Americano vs. Tudo Que Não Seja Exatamente Como Ele.

O clube “você não é como nós” da Guerra FriaOcorreu uma mudança de regime?
Comunistas 
Coréia do NorteNão
ChinaNão
VietnãNão
CambojaSim
CubaNão
Rússia (União Soviética)Sim
  
Hierarquia Racial / Fascistas 
Apartheid na África do SulSim
RodésiaSim
  
Teocracia 
IrãNão

Nações baseadas no apartheid e a República Islâmica do Irã, apesar de serem capitalistas, eram tão inaceitáveis quanto os comunistas, e se tornaram grandes alvos não apenas dos Estados Unidos, mas do ocidente em geral. Entretanto, é importante notar que as sanções estiveram longe de serem uma garantia de sucesso na ignição de uma mudança de regime. Muitos dos países que são punidos há décadas por S/E não tiveram nenhuma grande mudança política e sistêmica. Além do mais, é muito difícil provar o quão efetivas foram as sanções nas “operações bem-sucedidas”. A União Soviética foi derrubada, mas foi em grande parte, parcialmente ou incidentalmente devido às sanções?

Poderia-se argumentar que os sucessos das S/E contra os regimes de apartheid na África definitivamente funcionaram. Entretanto, estas eram regiões economicamente patéticas e frágeis. Manter uma sociedade “espartana” com uma minúscula minoria étnica dominando as massas é muito difícil quando a “comunidade internacional” quer te derrubar. Então, talvez, caso sua economia seja minúscula de início, as S/E podem garantir sua derrubada. Mas isso não é uma prova particularmente forte para as S/E.

Quando chegamos às S/E utilizadas após o fim da Guerra Fria, a taxa de sucesso parece ser muito maior sem um grande irmão soviético para ajudar aqueles em necessidade, e com a própria Rússia enfraquecida ao ponto de colapso. Mas aqui vemos uma grande mudança de lógica, já que algumas das nações nessa lista não são particularmente diferentes do ocidente. Na verdade, até o recente Referendo Constitucional Russo de 2020, o documento fundador do país parecia muito uma constituição da Europa ocidental jogada no Google Tradutor. Diferenças sistêmicas já não são mais a questão central após os anos 1990.

O fator que une essas nações é que elas supostamente e em algum momento “violaram os Direitos Humanos”, que é o Pecado Original da política contemporânea. Já que todas as nações da terra são culpadas por isso em algum nível, a coação seletiva está sempre na manga. Dessa forma, a lista de S/E pós-Guerra Fria é composta por aqueles com “mal comportamento” na opinião de Washington.

O clube dos “mal comportados” do pós-Guerra FriaOcorreu uma mudança de regime?
Violadores de Direitos Humanos de acordo com a Hegemonia Global 
IugosláviaSim, mas com invasão
RuandaSim, mas com guerra civil
AngolaSim
IraqueSim, mas com invasão
SudãoSim
LíbiaSim, mas com guerra civil
AfeganistãoSim, mas com invasão
Rússia (pós-União Soviética)Não

Outra diferença central é que algumas dessa nações sancionadas foram em seguida diretamente invadidas/bombardeadas pelos Estados Unidos e pela OTAN, o que novamente torna difícil afirmar com certeza se foram realmente as sanções que causaram a mudança de regime. As S/E certamente causam efeito na economia da nação vítima. Mas bombardear uma nação até o estado de caos completo é, sem dúvidas, melhor para mudar um regime. Então porque Washington continua jogando este jogo?

Por que as nações ‘malvadas’ continuam sancionadas?

Dado a história das S/E e sua efetividade questionável, pode-se supor as seguintes razões pelas quais elas continuam sendo utilizadas até hoje e vistas como uma estratégia altamente viável:

1. As S/E são burocraticamente fáceis de usar

Sanções simples, amplas e direcionadas à indivíduos podem ser feitas através de ordens executivas em algumas circunstâncias. Para Washington isso é uma tática rápida já que requer poucas assinaturas importantes.

2. As S/E fornecem conquistas ilusórias

Os políticos precisam provar que estão fazendo algo, e as sanções são uma maneira fácil de afagar certos grupos. Ainda que Trump fracasse totalmente em pressionar o Irã, ele tem conseguido uma grande alavancagem com Israel e alguns setores do eleitorado americano que são obcecado com a Terra Prometida. Punir algumas nações segregacionistas provavelmente fez com que alguns políticos europeus se sentissem muito bem com eles próprios, assim como punir os ‘russos malvados’ por tomarem de volta territórios que fazem parte de sua cultura desde antes da existência dos Estados Unidos. Quando se trata de politicagem, a coisa mais importante para a popularidade é parecer bem-sucedido, ainda que você não tenha conquistado nada.

3. Elas amedrontam e submetem as elites das nações-alvo

Washington pode confiscar os ativos imobiliários de um empresário chinês em Seattle, Vancouver ou Mônaco, mas boa sorte tentando confiscar seus apartamentos em Shenzhen. Quanto mais a elite de um país é ligada ao ocidente, mais capacidade Washington possui de ameaçá-la. Caso a elite de uma nação veja melhores garantias para seu futuro a partir do Beltway, a revolução poderia certamente estar no horizonte.

Fazer com que as elites sintam uma falta de segurança pode ser muito efetivo, e é justamente por isso que nações como a Rússia e China precisam manter suas elites presas dentro de casa. Caso elas tenham mais a perder ao irritar Moscou e Pequim, elas se mantêm ‘leais’ como necessidade de autopreservação. Caso o alvo real das sanções seja a elite de dado país, elas funcionam muito melhor do que qualquer propaganda. Ninguém quer perder sua mansão por coisas mesquinhas como ‘patriotismo’.

4. O mundo tem precisado muito mais dos EUA do que os EUA têm precisado do mundo

Para que seja possível utilizar as S/E, o país “agressor” precisa ser largamente menos dependente do que o “agredido”. Enquanto todos dependerem dos Estados Unidos, eles poderão utilizar o acesso a si próprios como poder de barganha. Dessa forma, nações mais fracas não possuem nenhuma forma de retaliação. A Rússia foi capaz de impor contra-sanções que feriram satélites estadunidenses como a Polônia e Finlândia, o que vai muito além do que o Irã é capaz de fazer, mas isso ainda é apenas um ricochete. A Rússia não foi capaz até agora de ferir Washington com nenhuma sanção, pois atualmente os Estados Unidos dependem muito pouco de Moscou.

Por outro lado, caso os EUA estejam realmente em declínio, a ameaça de sanções irá se reduzir ano após ano, até se tornar completamente inviável. Isso justifica os movimentos feitos pelos russos e chineses em favor de uma maior “multipolaridade” em termos de instituições e infraestrutura internacionais. Caso a vasta disparidade de poder em nosso planeta seja quebrada, as S/E se tornarão parte de um passado distante.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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