Análise Semanal da Conjuntura Brasileira

As queimadas, a crise global e o moralismo ambiental

Por Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

Foto por Mayke Toscano.

Observamos atônitos no último mês o trágico aumento nas queimadas no Pantanal e Amazônia, dois grandes patrimônios nacionais, que seguem sendo destruídos pela sede insaciável da burguesia interna. Para esses parasitas, as belas paisagens brasileiras são um mero combustível a ser queimado, enquanto admiram e aspiram as paisagens estadunidenses e europeias. É uma vergonha.

Entretanto, domina atualmente no país, e principalmente nos setores liberais, uma visão ingênua e moralista da questão ambiental no Brasil. Segundo o liberalismo de esquerda, alinhado ao discurso superficial da Rede Globo, o aumento das queimadas se resume à negligência do governo Bolsonaro, tanto por uma suposta “incapacidade técnica” quanto por uma “maldade intrínseca” aos quadros do atual governo, como o entreguista Ricardo Salles. Não poderiam estar mais enganados.

A destruição do patrimônio ambiental nacional – também atrelada fortemente ao extermínio dos povos indígenas e o roubo de suas terras – é uma consequência estrutural do desenvolvimento do capitalismo dependente. Uma de suas características principais é o rentismo do agronegócio: a venda de enormes quantidades de produtos agrícolas primários como fonte de renda para a compra de produtos industrializados. Esse rentismo determina a forma de ocupação do território brasileiro, que terá necessariamente uma estrutura agrária infinitamente desigual, já que a exportação massiva destes produtos, em uma circunstância de baixa tecnologia e, consequentemente, uma baixa produtividade, exige enormes fatias de terra para elevar as taxas de produção e lucro.

Na atual conjuntura, o mercado internacional de produtos agrícolas teve uma queda nos preços, além de uma brutal desvalorização cambial no caso brasileiro. A consequência disso, para o agronegócio, é uma necessidade de grande expansão da fronteira agrícola, aumentando a área cultivada de forma a compensar a queda dos preços através do aumento da produção. A desvalorização cambial, por outro lado, abre uma janela para que esse setor da burguesia enriqueça ainda mais, incentivando não só o aumento da produção, mas o próprio aumento da exportação – fato esse também ligado ao recente pico no preço de alguns alimentos.

Essa expansão da fronteira agrícola é, em grande medida, a função das recentes queimadas. É um pico que reflete a fome por lucro da burguesia agrária. E obviamente, com seu forte teor de classe em favor das elites antinacionais e do imperialismo estadunidense, o governo Bolsonaro atua nesse sentido com uma agressividade acima do normal, porém não inédita.

Vejamos: o pico no número de queimadas é o mais alto da série histórica desde 1998, como mostra o gráfico com dados do Inpe:

Imagem via globo.com
Imagem via globo.com

Pode-se ver que os recordes de números de queimadas ocorreram, com exceção dos anos de governo Bolsonaro, entre 2005 e 2010, justamente no período de aumento vertiginoso dos preços das commodities no grande ciclo de crescimento chinês. É evidente que existe uma relação muito próxima entre a expansão da fronteira agrícola e ciclos de crescimento do mercado e exportação do agronegócio, que no caso no período atual, atua no sentido inverso: a expansão da fronteira ocorre tanto pela desvalorização cambial, quanto pela necessidade de se aumentar a produção em resposta à queda de preços.

E o discurso moralista, que não toca no tema da dependência e do subdesenvolvimento, pode muito bem ser veiculado pela Rede Globo, acompanhado logo em seguida por propagandas do agronegócio. Enquanto tudo se explicar por ação simplesmente de Bolsonaro e seu “sadismo” e “despreparo”, a burguesia agrária seguirá enchendo os bolsos às custas de nosso patrimônio natural.

Denunciar os crimes ambientais e as queimadas recentes sem apontar seus determinantes estruturais – a estrutura fundiária e econômica às quais estamos submetidos como nação na divisão internacional do trabalho – representa um discurso alienante e sem força real de transformação do mundo.

Sem a libertação nacional brasileira, em prol da reforma agrária e do desenvolvimento industrial do país, não há forma de preservar o Pantanal e a Amazônia. Somente o povo trabalhador – e não a burguesia antinacional e imperialista – reconhece o valor e a beleza de nossas riquezas naturais!

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