América Latina

Pompeo na América Latina e o cerco à Venezuela

Por Tamara Lajtman e Aníbal García Fernández, via CELAG, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Mike Pompeo, Secretário de Estado norte-americano, e Mohamed Irfaan Ali, presidente da Guiana, no dia 18 de setembro. Foto via AFP.
Mike Pompeo, Secretário de Estado norte-americano, e Mohamed Irfaan Ali, presidente da Guiana, no dia 18 de setembro. Foto via AFP.

• Mike Pompeo esteve em viagem pelo Suriname, Guiana, Brasil e Colômbia do dia 17 a 20 de setembro. Estreitou relações com os governos recém eleitos de Suriname e Guiana (países com potencial petroleiro e que se somaram à Iniciativa “América Cresce”), mas a viagem foi centrada no cerco contra a Venezuela.

Suriname e Guiana

• Pompeo é o primeiro Secretário de Estado a visitar o Suriname desde sua independência. Se reuniu com o presidente Chan Santoki e o Secretário de Relações Exteriores, Albert Ramdin, para fortalecer as relações bilaterais e de segurança, assim como temas de energia, democracia e “assuntos regionais”. O novo governo tem reiterado que não está a favor das sanções, e se inclina por “convocar os líderes venezuelanos para encontrar soluções”.

• Um aspecto que vincula os interesses dos Estados Unidos ao Suriname e Guiana é o petróleo. O triunfo de Claver-Carone no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a incorporação de Suriname e Guiana à Iniciativa “América Cresce” facilitaria o financiamento de infraestruturas energéticas.

• A Guiana vive um auge do petróleo e espera-se que a produção em plataformas submarinas se ampliem no Suriname. A ExxonMobil anunciou (2015) a descoberta de enormes reservas petrolíferas em águas guianas, correspondentes em parte ao território de Essequibo, reivindicado pela Venezuela. A viagem de Pompeo ocorre no momento em que a Guiana está revisando seu acordo com a Exxon após problemas com as regulações do país.

• No marco da visita de Pompeo, firmou-se o acordo-quadro para fortalecer o financiamento de infraestrutura em energia e a cooperação na construção de mercados no contexto da Iniciativa “América Cresce”. O objetivo é estimular o investimento do setor privado estadunidense em infraestrutura vinculada a energias renováveis e não-renováveis. Think-tanks como o Council of Americas (AS/COA), com forte financiamento petroleiro estadunidense, celebraram a reunião de Pompeo.

• A importância geopolítica da Guiana também tem relação com a disputa dos Estados Unidos com a China. Em 2018, se uniu à iniciativa da Nova Rota da Seda, que inclui investimentos em portos e rodovias. O projeto de conexão viária tem importância geoestratégica, já que reduziria os tempos de transporte ao norte do Brasil com uma rota mais rápida até o Canal do Panamá. Ademais, a petroleira chinesa, CNOOC, possui uma participação de 25% no bloco Starbroek da Exxon, onde se concentram as mencionadas disputas legais.

Brasil e Colômbia

• Pompeo esteve em Roraima (Brasil) visitando um dos centros da Operação Acolhida, coordenada pelo exército, agências da ONU, ONGs e pela Polícia Federal, que atende imigrantes venezuelanos desde 2018, e anunciou US$ 348 milhões adicionais em assistência humanitária para venezuelanos, além de fundos adicionais para o Brasil na casa dos US$ 30 milhões.

• Na reunião com o chanceler Araújo, também falou-se sobre a excelente perspectiva de relações com o novo governo da Guiana (país vizinho ao estado de Roraima), destacando a conexão por rodovias de Roraima a Georgetown, que permito o acesso ao Caribe.

• Pompeo confirmou que o governos dos Estados Unidos se comprometeu com US$ 13,8 milhões ao país em resposta à pandemia. Empresas estadunidenses que operam no Brasil se comprometeram com aproximadamente US$ 55 milhões. Pompeo destacou a nova cooperação técnica como o Brasil para o desenvolvimento de recursos minerais de energia e a boa governança no setor, que tem por objetivo diversificar as cadeias de fornecimento de minerais críticos. Também reforçou-se a operação da USAID na Amazônia com o Fundo de Biodiversidade. O último ponto de discussão da agenda foi a segurança nacional e “a importância de manter as redes futuras do Brasil a salvo do Partido Comunista Chinês”.

• Em 19 de setembro, Pompeo se reuniu pela terceira vez desde abril de 2019 com Iván Duque, para fortalecer as ações contra o narcotráfico, tratar do tema dos grupos terroristas, da resposta à pandemia e abordar o tema da Venezuela. Destacaram a estratégia “Colômbia Cresce”, uma continuação do Plano Colômbia, anunciado em agosto.

Pompeo e o cerco à Venezuela

• A opinião dos think-tanks estadunidenses vem consolidando a idéia de que os Estados Unidos poderiam utilizar melhores relações com a Guiana como “arma secreta” em sua campanha contra a Venezuela, substituindo o petróleo do “regime petropolítico regional de Caracas” por um fornecedor mais estável. Também assinalam que existe atualmente no país uma forte concorrência com Rússia e China. “Uma Guiana em crescimento e mais próspera poderá se tornar um eixo de estabilidade para a Grande Bacia do Caribe”.

• Na Guiana, o presidente Mohamed Irfaan Ali reiterou seu compromisso com o Grupo de Lima, particularmente sua preocupação com a “crise humanitária” na Venezuela. Também anunciou o aprofundamento da cooperação com os Estados Unidos na área de segurança, cibersegurança, transferência de tecnologia e medidas anticorrupção no país.

• No Brasil, foi enviada ao Congresso uma nova versão dos documentos sobre Defesa. Pela primeira vez desde a Guerra do Paraguai (1864-1870), considera-se oficialmente a possibilidade de envolver as Forças Armadas brasileiras na solução de crises regionais, e ainda que não cite a Venezuela, ela é assinalada como um ponto crítico da região.

• Na Colômbia, Duque chamou a comunidade internacional para atuar contra o regime venezuelano por crimes “contra a humanidade”, enquanto que, na fronteira colombo-venezuelana, um confronto entre dissidências das FARC e o exército venezuelano deixou diversos mortos. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos voltam a anunciar assistência humanitária para a Venezuela e a reativar as sanções contra o Irã, sócio estratégico da Venezuela. Vale a pena mencionar que Elliot Abrams é o novo representante especial para o Irã (era anteriormente para a Venezuela), o que indicaria o objetivo de vincular ambas estratégias.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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