África

Seria o Boko Haram uma operação da CIA para dividir e conquistar a África?

Por Julie Lévesque, via Global Research, tradução de Eduardo Pessine, revisão pro Flávia Nobre

Soldados nigerianos escoltam um homem escravizado pelo Boko Haram em Gwoza. Foto por Lekan Oyekanmi.
Soldados nigerianos escoltam um homem escravizado pelo Boko Haram em Gwoza. Foto por Lekan Oyekanmi.

Os objetivos da presença militar estadunidense em África são bem documentados: contestar a influência chinesa e controlar localidades e recursos naturais estratégicos, incluindo reservas de petróleo. Isso foi confirmado pelo Departamento de Estado dos EUA há mais de 8 anos atrás.

Em 2007, o conselheiro do Departamento de Estado Dr. J. Peter Pham comentou sobre os objetivos estratégicos do AFRICOM de “proteger o acesso a hidrocarbonetos e outros recursos estratégicos, os quais África possui em abundância, uma tarefa que inclui prevenir contra as vulnerabilidades dessas riquezas naturais e garantir que quaisquer terceiros, como China, Índia, Japão ou Rússia, não obtenham monopólios ou tratamentos preferenciais”1.

No início de fevereiro de 2015, o general do AFRICOM, David Rodriguez, “solicitou uma campanha de ‘contra-insurgência’ de larga-escala liderada pelos Estados Unidos contra grupos na África Ocidental, durante uma declaração no Center for Strategic and International Studies em Washington, DC:

“Em declarações similares na academia de West Point do exército estadunidense na última semana, o chefe do Comando de Operações Especiais dos EUA (SOCOM, em inglês), General Joseph Votel, afirmou que as equipes estadunidenses devem se preparar para novas mobilizações contra o Boko Haram e o Estado Islâmico”2.

Mark P. Fancher destacou a hipocrisia e a “arrogância imperialista” dos países ocidentais, que “apesar da condenação universal do colonialismo”, estão cada vez mais dispostos a “declarar publicamente (sem desculpas) seus planos de expandir e coordenar sua presença militar em África”3.

Agora, mais tropas do Benim, Camarões, Níger, Nigéria e Chade estão sendo enviadas para lutar contra o Boko Haram.

Essa nova guerra contra mais uma entidade terrorista sombria em África é reminiscente da fracassada campanha de propaganda disfarçada com ideais humanitários, a “Kony 2012”. Ela foi utilizada como cortina de fumaça para evitar fazer face à questão das vítimas da guerra ao terror, as causas reais do terrorismo e para justificar outra invasão militar. É verdadeiro que o Boko Haram produz vítimas, mas o objetivo da intervenção ocidental em África não é resgatá-las.

O conflito mais letal do mundo desde a Segunda Guerra Mundial continua sendo travado no Congo, e a elite e a mídia ocidentais não poderiam se preocupar menos. Somente isso já demonstra que as intervenções militares não visam salvar vidas.

Para compreender por que a mídia foca no Boko Haram, nós precisamos saber o que é e quem está por trás dele. Qual é o contexto estrutural, quais interesses estão sendo atendidos?

Seria o Boko Haram mais uma operação clandestina dos EUA?

O Boko Haram é radicado no nordeste da Nigéria, o país mais populoso e a maior economia de África. A Nigéria é o maior produtor de petróleo do continente, possuindo 3,4% das reservas mundiais de petróleo bruto.

Em maio de 2014, a African Renaissance News publicou uma reportagem meticulosa sobre o Boko Haram, questionando se o grupo poderia ser mais uma operação secreta da CIA para controlar a Nigéria:

“O grande prêmio para o AFRICOM e seu objetivo de semear uma pax americana em África seria o sucesso no país mais estratégico do continente, a Nigéria. É lá que a questão dura do Boko Haram e a amplamente divulgada previsão do Conselho de Inteligência estadunidense sobre a desintegração da Nigéria até 2015 entram em perspectiva…”4

Nos anos 1970 e 1980 a Nigéria prestou assistência a diversos países africanos “em uma clara oposição e enfrentamento aos interesses dos Estados Unidos e seus aliados ocidentais, o que resultou em um recuo das iniciativas do ocidente neste período”5.

A Nigéria exerceu influência na região através da liderança no Grupo de Monitoramento da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOMOG, em inglês), um exército constituído de soldados de diversos países africanos e organizado pela Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS, em inglês), que interveio na guerra civil liberiana na década de 1990. A Libéria foi fundada em 1821 pelos Estados Unidos e governada por liberianos-americanos por mais de um século.

As potências ocidentais, acima de tudo os Estados Unidos, são obviamente contrários a que os africanos possuam um exército plurinacional no qual o ocidente não tenha nenhum papel de liderança. O ACRI, que se tornou posteriormente o AFRICOM, foi formado em 2000 para conter a influência nigeriana e combater o ECOMOG, e assim evitar a emergência de uma força militar africana liderada pelos próprios africanos.

De acordo com vazamentos do Wikileaks mencionados no artigo de Mavengira, mencionado acima, a embaixada estadunidense na Nigéria serve como

uma base operacional de amplo e longo alcance contra a Nigéria, que incluem mas não são limitados a espionagem na comunicação do governo nigeriano, espionagem financeira na elite nigeriana, apoio e financiamento a grupos insurgentes e subversivos, patrocínio a propagandas divisivas dentre grupos na Nigéria e o uso de chantagem para induzir e coagir alto funcionários nigerianos a agirem em favor dos interesses estadunidenses6.

Mavengira é parte da coalizão Greenwhite, “uma vigia cidadã voluntária composta de nigerianos de todos os grupos étnicos e religiosos”. Ele escreve que o objetivo final das operações clandestinas estadunidenses neste país é “eliminar a Nigéria como um potencial rival estratégico dos Estados Unidos no continente africano”7.

Uma investigação sobre o Boko Haram feita pela coalizão Greenwhite revelou que a “campanha do Boko Haram é uma operação secreta organizada pela CIA, e coordenada pela embaixada estadunidense na Nigéria”. Os Estados Unidos já utilizaram sua embaixada para operações secretas antes. A de Benghazi foi provada como uma base para uma operação de tráfico de armas para equipar os mercenários contra Bashar Al-Assad na Síria. Quanto a embaixada da Ucrânia, um vídeo de novembro de 2013 surgiu recentemente com um parlamento ucraniano expondo-a como o ponto central de outra operação clandestina projetada para fomentar o caos social e derrubar o governo democraticamente eleito.

A investigação da coalizão Greenwhite sobre o Boko Haram revela um plano de três estágios do Conselho Nacional de Inteligência dos Estados Unidos para “paquistanizar” a Nigéria, internacionalizar a crise e dividir o país sob mandato e uma força de ocupação da ONU. O plano “previa” a desintegração da Nigéria até 2015. Vale a pena citá-lo extensamente:

Todo o relatório do Conselho Nacional de Inteligência é na verdade uma declaração de intenções cifrada de como os Estados Unidos visam utilizar planos de desestabilização para eventualmente desmembrar a Nigéria […]

Estágio 1: Paquistanizando a Nigéria

Com a chaga do Boko Haram como uma realidade existencial, a série de bombardeios e ataques contra prédios públicos provavelmente aumentará nos próximos meses.

O objetivo é exacerbar as tensões e suspeições mútuas dentre os adeptos das duas religiões da Nigéria, levando à violência sectária […]

Estágio 2: Internacionalizando a crise

Haverá apelos dos Estados Unidos, União Européia e Nações Unidas por uma trégua na violência […]. Assim, haverá cobertura bombástica da mídia internacional sobre a crise nigeriana com os ditos especialistas discutindo todas as ramificações que irão empenhar-se em criar a impressão de que apenas uma benevolente intervenção estrangeira poderá resolver a crise.

Estágio 3: A Grande Conquista sob mandato da ONU

Haverá inicialmente propostas para que uma força de paz internacional intervenha e separe os grupos beligerantes e/ou para um mandato da ONU para que várias partes da Nigéria sejam governados por potências ocupantes. É claro, nos bastidores os Estados Unidos e seus aliados já haverão acordado secretamente quais áreas da Nigéria ocupar de acordo com seus interesses econômicos […]8

Em 2012, Nile Bowie escreveu:

O Nigerian Tribune publicou que o Boko Haram recebe financiamento de diversos grupos da Arábia Saudita e do Reino Unido, especificamente do Al-Muntada Trust Fund, sediado na United Kingdom and Saudi Arabia’s Islamic World Society. Durante uma entrevista conduzida pela Al-Jazeera com Abu Musab Abdel Wadoud, o líder da AQIM declarou que organizações sediadas na Argélia forneceram armamentos ao movimento Boko Haram na Nigéria ‘para defender os muçulmanos da Nigéria e conter o avanço de uma minoria de cruzados’.

Continua extensamente documentado que membros da Al-Qaeda (AQIM) e do Grupo de Combate Islâmico Líbio (LIFG, em inglês) que lutaram ao lado de rebeldes líbios receberam diretamente armamentos e apoio logístico de países da OTAN durante o conflito na Líbia em 2011 […]

E já que o apoio clandestino a organizações terroristas para atingir objetivos políticos parece ser o pré requisito principal das operações de política externa do governo Obama, o Boko Haram existe como outro braço do aparato de desestabilização estadunidense, mirado na fragmentação da nação mais populosa e do maior mercado potencial de África9.

Relatos também indicam que alguns comandantes nigerianos podem estar envolvidos no fomento à insurgência.

De acordo com o relato, um soldado nigeriano em Borno confirmou que o Boko Haram atacou Gamboru Ngala na sua presença, mas seu comandante ordenou para que não repelissem o ataque. O soldado afirmou à BBC que helicópteros sobrevoavam a área durante a ofensiva. Trezentas pessoas foram mortas, casas e um mercado foram incendiados enquanto soldados assistiam e foram ordenados a não prestar assistência às vítimas. O soldado afirmou que a insurgência do Boko Haram irá acabar quando os oficiais superiores cessarem de fomentá-la.

Sobre o sequestro de meninas Chibok, um soldado afirmou ao SaharaReporters em uma entrevista:

‘…nós fomos ordenados a deter veículos carregando as meninas, mas assim que iniciamos a missão, outra ordem foi expedida para recuar. Posso te garantir, não nos deram qualquer diretiva para que buscássemos seja quem for’.

Alguns soldados suspeitam que seus comandantes revelam as operações militares ao Boko Haram.10

Será que esses comandantes foram coagidos por elementos da embaixada estadunidense, como sugerido pela investigação da coalizão Greenwhite, citada anteriormente?

Boko Haram: o próximo capítulo da fraudulenta, custosa, nefasta e assassina guerra ao terror?

Já foi demonstrado claramente que a chamada guerra ao terror aumentou o terrorismo. Como explicou Nick Turse:

Dez anos após Washington coneçae a jogar dólares de seus contribuintes no combate ao terrorismo e nos esforços de estabilização de África, e de suas forças começarem a operar no Campo Lemonnier em Dijbute, o continente tem sofrido mudanças profundas, não apenas aquelas que visavam os Estados Unidos. Berny Sèbe, da Universidade de Birmingham, destaca a Líbia pós-revolucionária, o colapso do Mali, a ascensão do Boko Haram na Nigéria, o golpe na República Centro-Africana, e a violência na região dos Grandes Lagos de África como evidências da crescente volatilidade. ‘O continente está certamente mais instável hoje do que estava no ínicio dos anos 2000, quando os Estados Unidos começaram a intervir mais diretamente’, ele afirmou.11

O que exatamente os Estados Unidos buscam em África?

Quando se trata de intervenções no estrangeiro, décadas de história mostraram que as intenções declaradas pelo exército estadunidense nunca são suas intenções reais. O objetivo verdadeiro nunca é salvar vidas, mas sempre salvar lucros e poder. As intenções dos Estados Unidos e da OTAN não salvam. Elas matam.

As intervenções lideradas pelos EUA desde o início do século mataram centenas de milhares, senão mais de um milhão de pessoas inocentes. É difícil estimar, pois a OTAN não quer realmente saber quantos civis ela assassina. Como notou o The Guardian em agosto de 2011, exceto por um período muito breve, não havia “nenhum projeto internacional de alto-nível dedicado a registrar as mortes no conflito na Líbia”.

Em fevereiro de 2014, “estimou-se que ao menos 21.000 civis haviam sofrido mortes violentas em decorrência da guerra” no Afeganistão de acordo com Cost of War. Quanto ao Iraque, até maio de 2014, “ao menos 133.000 civis haviam sido mortos por violência direta desde a invasão”.

Quanto à Líbia, a mídia hegemônica inicialmente mentiu sobre o fato de Gaddafi ter iniciado a violência ao atacar manifestantes pacíficos, uma narrativa falsa que visava demonizar Gaddafi e galvanizar a opinião pública em favor de outra intervenção militar. Como relatou o Belfer Center for Science and International Affairs, “a violência foi, na verdade, iniciada pelos manifestantes”.

E foi além:

O governo respondeu aos rebeldes militarmente mas nunca mirou intencionalmente em civis ou recorreu ao uso ‘indiscriminado’ da força, como alegou a mídia ocidental […]

A maior incompreensão sobre a intervenção da OTAN é de que ela salvou vidas e beneficiou a Líbia e seus vizinhos. Na realidade, quando a OTAN interveio em meados de março de 2011, Gaddafi já havia retomado o controle da maioria do país, e os rebeldes recuavam rapidamente em direção ao Egito. Além disso, o conflito estava próximo do fim, apenas seis semanas depois de seu início, com um total de cerca de 1000 mortos, incluindo soldados, rebeldes e civis pegos no fogo cruzado. Ao intervir, a OTAN permitiu que os rebeldes retomassem o ataque, o que prolongou a guerra por mais sete meses e causou mais de 7.000 mortes.12

Apesar destes números, a mídia irá novamente tentar nos convencer de que a maior necessidade mundial nesse momento é livrar-se do Boko Haram, e que uma intervenção militar é a única solução, ainda que a chamada guerra ao terror tenha, na verdade, aumentado o terrorismo no mundo. Como o Washington Blog apontou em 2013, “o terrorismo global estava decaindo de 1992 até 2004… mas tem crescido exponencialmente desde 2004”.

O The Guardian publicou em novembro de 2014:

O Global Terrorism Index registrou quase 18.000 mortes no último ano, um aumento de 60% em relação ao ano anterior. Quatro grupos foram responsáveis pela maioria delas: o Estado Islâmico no Iraque e Síria; o Boko Haram na Nigéria; o Talibã no Afeganistão; e a Al-Qaeda em várias partes do mundo.13

O que o Guardian omite é que todos estes grupos, incluindo o Boko Haram e o Estado Islâmico, foram, de uma maneira ou outra, armados, treinados e financiados pela aliança EUA-OTAN e seus aliados no Oriente Médio.

Graças ao apoio encoberto dos países ocidentais, de traficantes de armas e de banqueiros que lucram com a morte e destruição, a guerra ao terror continua viva como nunca. O ocidente advoga por intervenções militares intermináveis, fingindo ignorar as reais causas do terrorismo e a razão pela qual se expande, escondendo seu papel nisso tudo e assim, mostrando suas verdadeiras intenções: alimentar o terrorismo para desestabilizar e destruir nações, justificando assim intervenções militares e conquistando as riquezas naturais de África, sob o pretexto de salvar o mundo do terrorismo.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  Nile Bowie, CIA Covert Ops in Nigeria: Fertile Ground for US Sponsored Balkanization, Global Research, 11 de abril de 2012.

2  Thomas Gaist, US AFRICOM Commander Calls for “Huge” Military Campaign in West Africa, World Socialist Web Site, 2 de fevereiro de 2015.

3  Mark P. Fancher, Arrogant Western Military Coordination and the New/Old Threat to Africa, Black Agenda Report, 4 de fevereiro de 2015.

4  Atheling P Reginald Mavengira, “Humanitarian Intervention” in Nigeria: Is the Boko Haram Insurgency Another CIA Covert Operation? Wikileaks, African Renaissance News, 8 de maio de 2014

5  Ibid.

6  Ibid.

7  Ibid.

8  Ibid.

9  Nile Bowie, CIA Covert Ops in Nigeria: Fertile Ground for US Sponsored Balkanization, Global Research, 11 de abril de 2012.

10  Audu Liberty Oseni, Who is Protecting Boko Haram. Is the Nigerian Government involved in a Conspiracy?, africanexecutive.com, 28 de maio de 2014.

11  Nick Turse, The Terror Diaspora: The U.S. Military and Obama’s Scramble for Africa, Tom Dispatch, 18 de junho de 2013.

12  Alan Kuperman, Lessons from Libya: How Not to Intervene, Belfer Center for Science and International Affairs, setembro de 2013.

13  Ewen MacAskill, Fivefold increase in terrorism fatalities since 9/11, says report, The Guardian, 18 de novembro de 2014.

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