Análise Semanal da Conjuntura Brasileira

Por que a mídia hegemônica brasileira tem pavor de Stalin?

Por Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

Foto por Iuri Kadobnov.
Foto por Iuri Kadobnov.

Recentemente se acendeu uma polêmica – um tanto quanto tosca e desqualificada, diga-se de passagem – na mídia hegemônica brasileira, após algumas declarações de Caetano Veloso sobre o liberalismo, partindo da revisão histórica do autor italiano Domenico Losurdo. Os liberais midiáticos ficaram horrorizados com a exposição, em rede nacional, da podridão completa de sua história, ainda que de maneira brevíssima e relativamente simplista.

É inaceitável para os meios hegemônicos que qualquer discurso minimamente alternativo tenha qualquer espaço no debate público brasileiro. E isso não é novidade: aconteceu com Leonel Brizola, por exemplo, que era completamente invisibilizado pela Rede Globo. O episódio atual só expõe a completa falsidade do discurso comumente difundido pelo liberalismo de esquerda em relação à mídia brasileira e seu papel “democrático”: nunca houve liberdade de imprensa no Brasil, e não haverá enquanto nosso país continuar subordinado ao imperialismo e seus agentes internos que atuam em seu favor – que é o caso da grande mídia brasileira.

Mergulhada na mediocridade e ignorância típica das elites dependentes e lacaias do Império, e incapaz de refutar a revisão histórica de Losurdo, a mídia hegemônica invocou o fantasma de Josef Stalin, demonizado líder soviético que liderou a vitória sobre o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, reproduzindo todo o discurso anticomunista inalgurado pelo Relatório Khrushchov em 1956, comprovadamente recheado de mentiras como demonstram diversas obras historiográficas recentes. A Folha de São Paulo cometeu o ato risonho de publicar em capa a manchete “Josef Stalin volta à vida”, expondo o completo pavor da burguesia nacional do antigo líder comunista. Qualquer referência ao “bigodudo” é, para eles, como um apocalipse, como uma encarnação do demônio!

Como esperado, todo um setor anticomunista do marxismo ocidental logo correu para combater o suposto “neostalinismo”, principalmente setores trotskistas. Deixemos claro que essa falsa polêmica não nos interessa. A disputa entre Stalin e Trotsky durante a década de 30 na União Soviética é irrelevante para a atual condição brasileira e além disso, já teve sua conclusão e repercussões históricas que nos servem apenas como objeto de análise. A questão central não é essa: é compreender o que podemos aprender com a experiência soviética que nos serve para a realidade brasileira atual. E nesse sentido, as contribuições teórico-políticas de Stalin nos dão pistas do porquê a mídia hegemônica e a burguesia brasileira têm pavor do “bigodudo”.

O Brasil passa atualmente por um período trágico: a ofensiva imperialista contra a nação brasileira, frente ao declínio sócio político dos Estados Unidos e seu modelo civilizatório, representa uma ameaça real ao Brasil como experiência nacional. O objetivo final desse projeto – que já foi conquistado em grande medida – é a completa supressão do país como ator relevante no cenário internacional. O Brasil sempre foi uma ameaça gigantesca à hegemonia estadunidense: é o outro gigante das Américas, e uma libertação brasileira das garras do subdesenvolvimento significaria, necessariamente, perdas gigantescas ao Império. Por isso, um dos principais objetivos geopolíticos dos Estados Unidos hoje é manter o Brasil de joelhos – objetivo esse que tem sido, até agora, e por demérito da degenerada esquerda brasileira, um grande sucesso.

E o que Stalin tem a ver com isso?

O “bigodudo” da Geórgia foi um grande teórico e defensor da questão nacional durante sua carreira política. Para Stalin, as nacionalidades apresentavam um enraizamento popular que ultrapassava o próprio sistema capitalista, inclusive com características que até mesmo antecedem os projetos nacionais da burguesia européia: como a língua, por exemplo. Ao contrário de querer exportar o modelo soviético aos demais países, Stalin acreditava que cada nação oprimida pelo imperialismo deveria seguir seu próprio caminho de libertação nacional e construção do socialismo.

Suas reflexões derivam diretamente da teoria leninista do imperialismo que, sendo a fase superior do desenvolvimento capitalista, apresenta uma característica essencial: cada vez mais gera vínculos e destrói as barreiras entre as fronteiras nacionais, criando uma unidade internacional do capital e da vida econômica em geral. É a dita “globalização” – exceto pela ingenuidade liberal que ignora que essa “globalização” ocorre sob hegemonia da grande potência capitalista, gerando uma unidade internacional que não é construída com base na confiança mútua e na relação fraternal entre os povos e nações, mas sim através da subjugação brutal e sangrenta das nações oprimidas. Este último caso é o caso brasileiro.

Stalin comenta sobre a contradição entre a formação dos estados nacionais e o imperialismo gerada pelo desenvolvimento capitalista:

Para o imperialismo, essas duas tendências são irreconciliavelmente contraditórias, uma vez que o imperialismo não pode viver sem explorar e sem subjugar pela força as colônias, nos limites de um ‘todo único’; o imperialismo não pode aproximar as nações senão mediante as anexações e as conquistas coloniais, sem o quê, em linhas gerais, ele seria inconcebível.

Para o comunismo, ao contrário, essas tendências não são mais do que dois aspectos de uma mesma causa, da causa de libertar do jugo imperialista os povos oprimidos, pois o comunismo sabe que a unificação dos povos numa única economia mundial só é possível na base da confiança mútua e do livre consentimento e que o caminho para a formação da união voluntária dos povos passa através da separação das colônias do ‘todo único’ imperialista e através da sua transformação em Estados independentes.

Aí se encontra um dos maiores temores da burguesia interna do Brasil e seus lacaios da mídia hegemônica: Stalin aponta para a construção de uma esquerda profundamente nacionalista, que compreende a relação dialética entre o nacionalismo revolucionário e o internacionalismo proletário e a necessidade de dar conteúdo concreto à mediação entre o universal (a união proletária internacional) e o particular (as opressões nacionais derivadas do imperialismo).

A construção – ou reconstrução, já que esse movimento estava em ascensão até o golpe de 1964, quando ocorreu o expurgo dos nacionalistas principalmente dentro das Forças Armadas – de uma esquerda com este tipo de consciência significa a cova dos parasitas que atuam no Brasil em favor dos interesses imperialistas. A “esquerda” majoritária, entretanto, está mergulhada em ilusões cosmopolitas e liberais, tratando a questão do imperialismo como “teoria da conspiração” e a questão do nacionalismo como algo “ultrapassado” e “autoritário”, enquanto nosso povo é condenado à miséria ao longo dos anos dourados da “globalização”.

Por isso a mídia hegemônica tem pavor de Stalin: o “bigodudo” da Geórgia aponta um caminho onde o nacionalismo e o socialismo se encontram como a via da libertação nacional brasileira. E nossa liberdade é, para eles, inaceitável!

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