EUA

A máscara do Império cai no julgamento de Assange

Por Pepe Escobar, via Asia Times, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Foto por David Cliff.
Foto por David Cliff.

O conceito de “História em construção” tem sido levado ao extremo quando se trata do extraordinário serviço público prestado pelo historiador, ex-diplomata britânico e ativista pelos direitos humanos Craig Murray.

Murray – literalmente, e em escala global – é agora um dos nossos na galeria pública, conforme documenta meticulosamente e em detalhes o que pode ser definido como o julgamento do século, ao menos em relação à prática jornalística: o teatro jurídico contra Julian Assange em Old Bailey, Londres.

Foquemos nos três relatórios de Murray desta semana – com ênfase em dois temas entrelaçados: o que está sendo realmente perseguido pelos Estados Unidos, e como a mídia corporativa ocidental está ignorando os procedimentos da corte.

Aqui, Murray relata o momento exato em que a máscara do Império caiu, não com um estrondo, mas com um suspiro:

“A máscara caiu na terça-feira quando o governo estadunidense argumentou explicitamente que todos os jornalistas estão sujeitos à perseguição sob o Espionage Act (1917) ao publicarem informações confidenciais”.

“Todos os jornalistas” significa cada jornalista legítimo, de todas as nacionalidades, operando em qualquer jurisdição.

Interpretando o argumento, Murray acrescentou, “o governo estadunidense está dizendo agora, de forma completamente explícita, em júri, que aqueles repórteres podem e devem ir para a cadeia e é assim que agirá futuramente. O Washington Post, o New York Times, e toda a “grande mídia liberal” dos Estados Unidos não estão presentes no julgamento e não estão noticiando-o, graças a sua cumplicidade em jogar Assange “de canto” como um sub-humano, cujo destino pode ser ignorado. Eles são tão estúpidos para não perceberem que serão os próximos?

Err, sim.

O ponto aqui não é se os auto-declarados paladinos da “grande mídia liberal” são estúpidos. Eles não estão cobrindo a farsa de Old Bailey pois são covardes. Eles precisam preservar seu valioso “acesso” aos intestinos do Império – o tipo de “acesso” que permitiu Judith Miller “vender” a guerra ilegal contra o Iraque em inúmeras manchetes, e permite o ultra-oportunista e ativo da CIA Bob Woodward escrever seus livros de “bastidores”.

Não há nada para ver aqui

Anteriormente, Murray já havia detalhado como a “mídia hegemônica está fazendo vista grossa. Haviam três repórteres na galeria pública, um deles estagiário e outro representando a NUJ (União Nacional dos Jornalistas). O acesso ao público continua restringido, e grandes ONGs, incluindo a Anistia, PEN e Repórteres sem Fronteiras continuam excluídas tanto fisicamente quanto de participarem online”.

Murray também detalhou como “seis de nós fomos permitidos na galeria pública, e incidentalmente, tivemos que subir 132 degraus para chegar lá, várias vezes ao dia. Como sabem, eu tenho um coração bem duvidoso, estava com o pai de Julian, John, que tem 78 anos, e outro de nós tem um marca-passo”.

E por que ele é “um dos nossos na galeria pública”?

De forma alguma eu desprezo os esforços de outros quando eu explico que me sinto obrigado a escrever isso, e em detalhe, pois caso contrário os fatos mais básicos e vitais do julgamento mais importante do século, e a forma que está sendo conduzido, passaria quase completamente desconhecido do público. Se fosse um processo legítimo, eles iriam querer que todos o vissem, e não minimizariam ao máximo a presença física e online”.

A não ser que as pessoas estejam lendo os relatórios de Murray – e pouquíssimos outros bem menos detalhados – elas ignorarão aspectos importantíssimos, além do chocante contexto geral do que está realmente acontecendo no coração de Londres. O fato principal, ao menos em relação ao jornalismo, é que a mídia corporativa ocidental está ignorando completamente tudo.

Chequemos a cobertura britânica no dia 9, por exemplo.

Não houve nenhum artigo no The Guardian – que não pode de forma alguma cobrir o julgamento, já que o jornal, por anos, esteve afundado na difamação e demonização total de Julian Assange.

Não viu-se nada no The Telegraph – muito próximo ao MI6 – e apenas uma breve reportagem da AP no Daily Mail.

Houve um pequeno artigo no The Independent apenas por que uma das testemunhas, Eric Lewis, é um dos diretores do Independent Digital News and Media Ltd., que publica o jornal.

Por anos, o processo de degradação de Julian Assange a níveis desumanos foi baseado na repetição de diversas mentiras tantas vezes até se tornarem verdades. Agora, a conspiração do silêncio em relação ao julgamento expõe maravilhosamente a verdadeira face dos “valores” liberais ocidentais e da “democracia” liberal.

Daniel Ellsberg fala

Murray forneceu o contexto absolutamente essencial para o que Daniel “Pentagon Papers” Ellsberg deixou bem claro na cabine de testemunhas.

Os registros da Guerra do Afeganistão publicados pelo Wikileaks eram muito similares aos relatos escritos pelo próprio Ellsberg sobre o Vietnã. A estrutura geopolítica é a mesma: invasão e ocupação, contra os interesses da absoluta maioria dos invadidos e ocupados.

Murray, ilustrando Ellsberg, escreve que “os registros da guerra expuseram um padrão de crimes de guerra: torturas, assassinatos e esquadrões da morte. A única coisa que havia mudado desde o Vietnã era que essas coisas foram tão normalizadas que foram classificadas abaixo do top secret”.

Esse é um ponto muito importante. Todos os Pentagon Papers eram na verdade top secret. Mas, crucialmente, os documentos do Wikileaks não eram: estavam abaixo do top secret, e não estavam sujeitos à distribuição restrita. Então eles não eram realmente sensíveis – como alega agora o governo dos Estados Unidos.

Sobre o já lendário vídeo Collateral Murder, Murray detalha o argumento de Ellsberg:

Ellsberg afirmou que ele definitivamente retratava assassinatos, incluindo os disparos deliberados de metralhadora contra um civil ferido e desarmado. Aquilo era sem dúvidas assassinato. A palavra dúbia era “collateral”, que implica algo acidental. O que foi realmente chocante foi a reação do Pentágono, de que esses crimes de guerra estavam dentro das Normas de Engajamento. Que permitem assassinatos”.

A acusação não consegue explicar por que Julian Assange detinha nada menos que 15.000 arquivos; como ele demorou um tempo considerável para redigir aqueles que foram publicados; e por que tanto o Pentágono quanto o Departamento de Estados se recusaram em colaborar com o Wikileaks. Segundo Murray:

Dez anos depois, o governo estadunidense ainda não conseguiu nomear um único indivíduo que foi lesado pelos vazamentos do Wikileaks”.

A prisão de Prometeu 2.0

O presidente Trump fez duas notórias referências públicas ao Wikileaks: “Eu amo o Wikileaks” e “Eu não sei nada sobre o Wikileaks”. Isso pode não revelar nada sobre como um hipotético segundo governo Trump agiria caso Assange seja extraditado para os Estados Unidos. O que sabemos é que as facções mais poderosas do deep state o querem “neutralizado”. Para sempre.

Eu me senti compelido a retratar o flagelo de Assange como “a prisão de Prometeu 2.0”. Nesta tocante tragédia pós-moderna, os sub-enredos centrais focam em um golpe mortal ao jornalismo verdadeiro, no sentido de confrontar os poderosos.

Julian Assange continua sendo tratado como um criminoso extremamente perigoso, conforme sua companheira Stella Moris descreve em um tweet.

Craig Murray entrará para a História como o personagem principal de um seleto grupo que nos alerta sobre as ramificações da tragédia.

É também bastante apropriado que a tragédia também seja um comentário sobre uma era anterior, que estrelou, ao contrário do poema de William Blake, o casamento do inferno e do inferno: a Guerra ao Terror de George W. Bush, e as Operações de Contingência Internacional de Barack Obama.

Julian Assange está sendo condenado por revelar crimes de guerra do Império no Iraque e no Afeganistão. Ainda assim, toda a fúria pós-11 de setembro acabou não significando nada.

Ela metastatizou, na verdade, no pior pesadelo do Império: a emergência de um competidor potencializado a sua altura, a parceria estratégica entre Rússia e China.

“Not here the darkness, in this twittering world” (T.S. Eliot, Burnt Norton).

O futuro aguarda um exército de Assanges.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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