Oriente Próximo

‘Paz por proteção’

Por Abdel Bari Atwan, via Raialyoum, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o presidente estadunidense Donald Trump e o chanceler dos Emirados Árabes Unidos, Abdullah bin Zayed Al-Nahyan, assinam os Abraham Accords no dia 15 de setembro de 2020. Foto via AFP.
O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o presidente estadunidense Donald Trump e o chanceler dos Emirados Árabes Unidos, Abdullah bin Zayed Al-Nahyan, assinam os Abraham Accords no dia 15 de setembro de 2020. Foto via AFP.

O acordo entre Emirados Árabes e Israel é evidentemente sobre a guerra, não sobre a paz: principalmente contra o Irã – e talvez depois, contra a Turquia.

Não foi nenhuma surpresa escutar o Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, declarar no fim de semana (08/09/2020) que os Emirados Árabes e Israel concordaram em formar uma aliança de segurança e militar contra o Irã para “proteger” os interesses estadunidenses e o Oriente Médio após a normalização das relações através dos chamados Abraham Accords. Os dois países nunca estiveram em estado de guerra, e os Emirados Árabes nunca feriram um único israelense direta ou indiretamente desde seu estabelecimento. Era considerado até recentemente um país “pacífico” – sua única guerra direta foi contra seus irmãos árabes do Iêmen. Mas essa caracterização está prestes a mudar, ao se tornar a linha de frente na Península Arábica da confrontação militar contra seu vizinho oriental, o Irã.

Todos os acordos de paz e normalização árabe-israelense podem ter colocado um fim no estado de guerra e hostilidade, já que foram feitos entre estados em confronto. Mas eles não condenaram qualquer presença militar de Israel nos territórios egípcios e jordanos e limitaram a cooperação de segurança. A exceção foram os Acordos de Oslo, cuja uma das estipulações centrais foi a criação de forças de segurança palestinas (que vieram a ser conhecidas como as “Forças Dayton” após o general americano que as comandou) como um complemento a Israel, para prevenir quaisquer ações contra as ocupações e seus colonos.

O acordo EAU-Israel leva as coisas a outro nível, quebrando todos os tabus anteriores sob o novo disfarce de “paz-por-proteção”. O foco é principalmente nos aspectos militares e de segurança, e em permitir a presença israelense em bases e entrepostos em território dos Emirados. A presença do Conselheiro Nacional de Segurança de Israel, o general Meir Ben-Shabat e do chefe do Mossad, Yossi Cohen, no voo da El Al, que levou Jared Kushner de Tel Aviv a Abu Dhabi deixa isso claro. Os israelenses estão sendo bem-vindos à Península Arábica não apenas como visitantes ou turistas, mas como protetores e aliados.

O mais recente sermão do clérigo oficial saudita, Abdul Rahman al-Sudais, Imã da Grande Mesquita de Meca, louvando a normalização de relações com “os judeus” e defendendo sua posse legítima da terra, é um sinal do que está por vir.

Esse acordo e aqueles que virão significam que haverá um presença militar israelense muito próxima à infraestrutura militar e petrolífera do Irã na costa oriental do golfo, bem nas fronteiras da Arábia Saudita, Qatar e Omã, e no raio de ataque contra o Iêmen. De acordo com Pompeo, esse acordo transformará o conflito no Oriente Médio de arábe-israelense para árabe-iraniano, e talvez árabe-turco no futuro. E ainda que Israel esteja certamente interessado em acordos comerciais e financeiros com os Emirados, as questões militares e de segurança tomam precedência devido à suposta ameaça existencial representada pelo Irã, de acordo com as avaliações tanto estadunidenses quanto israelenses.

Um prioridade central de Israel é controlar as rotas marítimas, e o acordo posiciona as forças israelenses há apenas alguns quilômetros do Estreito de Ormuz e do Mar de Omã. Se os relatos sobre as intenções israelenses de estabelecer bases militares em Adem conjuntamente aos seus novos aliados dos Emirados são verdadeiros, isso implicaria no controle sobre o Estreito de Bab al-Mandeb, que rege o acesso ao Mar Vermelho, ao Canal de Suez e ao Golfo de Aqaba.

O governo Trump não está mais tentando criar um “eixo moderado” reunindo os estados do golfo com o Egito, Jordânia e Marrocos. Estes três países perderam seu entusiasmo pela ideia após ficar claro que essa coalizão seria liderada por Israel, e poderia envolvê-los em guerras para consolidar sua dominância contra o Irã e Turquia, as duas outras potências emergentes do Oriente Médio. Então, Washington resolveu pelo consentimento da maioria (senão de todos) os estados do golfo, ao menos em princípio.

Nós ainda vemos apenas a ponta do iceberg do acordo EAU-Israel. Tudo que temos são vazamentos e notas de autoridades estadunidenses e israelenses, que revelam apenas parte do cenário completo. O espaço aéreo saudita e do Barém foi agora aberto para vôos civis e militares de Israel em rota para os Emirados. No futuro, eles podem fazê-lo para bombardear reatores nucleares e infraestruturas iranianas. Não podemos antecipar a próxima surpresa. Mas não é improvável que Abu Dhabi esteja pressionando Washington para compelir outros estados do golfo como o Qatar, Arábia Saudita e Omã a assinarem também seus próprios acordos de “paz” com Israel, para que os Emirados não fiquem isolados em uma posição que a maioria do povo árabe considera abominável. Isso explicaria o crescente louvor direto e indireto e as críticas reduzidas das mídias estatais árabes em relação ao movimento dos EAU.

O acordo EAU-Israel é ostensivamente sobre paz, porém implicitamente sobre a guerra. Por qual outro motivo os EAU estariam comprando caças F-35 com aprovação estadunidense? As objeções de Israel ao acordo são puramente teatrais. Eles sabem que estes caças nunca serão usados contra eles. Eles serão usados contra o Irã e o Eixo da Resistência, e para garantir maior financiamento ao seu fabricante, Lockheed Martin.

Israel já está engajado na guerra encoberta contra o Irã, bombardeando seus aliados e bases na Síria, Iraque e Líbano, e sabotando suas infraestruturas vitais. Está se preparando atualmente para transferir essa guerra para o território iraniano, e para que seja travada diretamente do solo de seus novos aliados do golfo. Negociações secretas entre Teerã e Washington sobre um novo acordo nuclear poderiam evitar isso. Mas Israel continua sendo o maior vencedor de toda nessa situação, ainda que temporariamente.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

1 resposta »

  1. Com certeza esse acordo mira o Irã, seu objetivo central, mas a Turquia também está inserida nesse contexto, quando o próprio Erdogan vem repetidamente à público desferir ataques ao Estado Sionista. Rússia e China terão papel fundamental para impedir a grande guerra Árabe-sionista contra a resistência xiita e turca.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s