Análise Semanal da Conjuntura Brasileira

A suposta contradição entre Guedes e Bolsonaro é uma farsa

Por Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Foto por Sérgio Lima.
Foto por Sérgio Lima.

Para qualquer observador atento da política nacional, é claro e evidente o fato de que os partidos hegemônicos da esquerda liberal abandonaram há tempo qualquer análise crítica da realidade brasileira. A consequência direta disto, somada a completa ingenuidade política, são conclusões que não duram semanas ou dias ao escrutínio da realidade material – pois são meros palpites a partir das manchetes dos jornalões burgueses, que utilizam, naturalmente, seu poder de manufatura da opinião pública em prol de seus interesses. Essa é natureza, por exemplo, do suposto antagonismo entre Bolsonaro e a Rede Globo, que pressiona e pressionará qualquer presidente em direção ao aprofundamento do rentismo. Isso não significa de forma alguma que a Globo cumpre um papel “democrático” ou de “imprensa” – significa que a emissora em questão detém um enorme poder político e o utiliza em seu favor.

Na última semana, Bolsonaro declarou que está “proibido falar de Renda Brasil até 2022”. A esquerda liberal correu para reafirmar a suposta contradição entre Guedes e Bolsonaro, cujo centro agora se tornou a disputa pela administração dos recursos públicos e a destruição de direitos sociais: principalmente a redução das aposentadorias. Mas há, de fato, alguma contradição entre ambos?

Logo de cara surge o problema central desta narrativa: Bolsonaro é o chefe do executivo, e possui prerrogativa para demitir qualquer ministro – como já o fez diversas vezes. Se houvesse alguma contradição entre ambos, o presidente poderia simplesmente substituí-lo por outro lacaio do capital financeiro internacional, que existem aos montes no país. Mas misteriosamente, Bolsonaro se acanha, como se Paulo Guedes tivesse poderes mágicos sobre a máquina estatal.

Obviamente, Paulo Guedes não é nenhum “zé-ninguém”. É um membro proeminente da burguesia financeira. Entretanto, a centralidade aqui é a agenda de destruição nacional, que pode muito bem ser lavada a cabo por qualquer outro, até mesmo de forma mais eficiente do que alguém que supostamente entra em embates constantes com o atual presidente.

Para além disso, vejamos o conteúdo da recente declaração de Bolsonaro. Em momento algum ele negou o cerne do Renda Brasil – que é a ampliação dos programas sociais. A negação é em relação aos supostos prejuízos colaterais, como a redução de aposentadorias. Ademais, já afirmamos exaustivamente em análises anteriores que é impressindível para o atual governo a ampliação desses programas, dado o cenário de completo colapso da economia nacional e internacional. Não só isso, mas a ampliação da distribuição de renda seria a base de um “social-liberalismo de direita” que, como também já afirmamos anteriormente, fará a manutenção – ou até mesmo a ampliação – da base social para o projeto de destruição nacional atualmente em curso.

Não parece haver saída: um “Renda Brasil” é uma imposição do cenário econômico e político atual, seja lá qual for seu nome. Dessa forma, a declaração de Bolsonaro serve a dois propósitos: primeiro, jogar quaisquer prejuízos colaterais do endividamento público nas costas do tecnocrata Paulo Guedes, livrando-o de uma provável perda de popularidade. Segundo, alimenta as ilusões “republicanas” de todos os campos políticos, de que há contradições na condução política e que isso demonstra uma “normalidade democrática”; A esquerda liberal bebe diretamente desta fonte, apesar dos oportunismos que apontavam golpes e fraudes até a derrota em 2018.

Para muito além do Renda Brasil, façamos um questionamento: qual parte da agenda antinacional de Paulo Guedes sofreu qualquer tipo de revés, não só por parte do presidente, mas de todas as instituições políticas brasileira – incluindo a “imprensa”? Nenhuma!

A reforma da previdência, as privatizações, as reformas tributária e administrativa, a entrega da base de Alcântara, a desindustrialização, a ampliação do fraudulento esquema da dívida dita “pública”, etc… Tudo isso seguiu e segue a todo vapor, seja nas tramitações legais e políticas, seja no debate manufaturado pelos monopólios da mídia burguesa. Espera-se um único dia em que a agenda de Paulo Guedes não é defendida a ferro e fogo pela Globo, Record, Band, SBT… Enfeitada, é claro, com falsas contradições de ordem moral.

Precisamos ter clareza, as diversas contradições falsas que são levantadas dia após dia pela mídia burguesa e pela esquerda liberal servem a uma única função: salvar a República Rentista e encobrir sua podridão generalizada. Serve apenas para dar um verniz “democrático” e de “normalidade” a um regime político falido. É a gestão do profundo ódio de classe de nosso povo – que segue desorganizado e difuso.

E de maneira direta e prática, serve aos interesses da esquerda liberal em pleno ano eleitoral: consolidar cada vez mais a elite burocrática dos partidos em guetos institucionais – pequenas bancadas legislativas e prefeituras irrelevantes para a economia nacional – em um momento muito desfavorável eleitoralmente, como também já discutimos anteriormente.

O momento atual exige radicalidade política e a superação do apodrecido regime político fundado após a “redemocratização”. E para isso, é preciso abandonar as ilusões – como por exemplo, todas essas falsas contradições impulsionadas pelos monopólios da mídia burguesa.

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