Europa

Uma encruzilhada da Guerra Fria para a União Europeia

Por YJ Liao, via Qiao Collective, tradução de Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

Jean-Claude Juncker, Emmanuel Macron, Angela Merkel e Xi Jinping. Foto por Philippe Wojazer.

Conforme os Estados Unidos intensificam uma postura de Nova Guerra Fria contra a China, a União Europeia tem uma escolha a fazer: adotar o caminho beligerante dos EUA em direção ao conflito, ou perseguir relações independentes e igualitárias com a China.

Após meses de escaladas inéditas dos Estados Unidos, restam poucas pretensões de normalidade nas relações entre China e EUA. Em julho, o Secretário de Estado Mike Pompeo declarou que a era de compromissos bilaterais inaugurada pelo governo Nixon foi um “fracasso”. Estas graves declarações coincidem com maiores atos de agressão por parte dos Estados Unidos, que incluem a exclusão de companhias chinesas de tecnologia, maior controle sobre estudantes e cientistas chineses no estrangeiro, e um aumento vertiginoso dos crimes de ódio contra pessoas de descendência asiática.

Muitos analistas comparam essa situação a uma Nova Guerra Fria. E assim como a anterior, tal empreitada depende da capacidade dos Estados Unidos em reunir aliados com interesses semelhantes em oposição à China. Algo dessa natureza já existe com o Five Eyes (EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia), embora Washington certamente visa construir uma aliança ainda mais ampla.

Dentre os possíveis aliados está a União Europeia, que desempenha um papel central na consolidação ou na fratura da aliança estadunidense vis-a-vis a China. Entretanto, as aspirações por um aliança liderada pelos americanos se complicam devido ao fato da China ter gozado de relações florescentes com a União Europeia nos últimos anos. De fato, a União Europeia é agora oficialmente o segundo maior parceiro comercial da China, após a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, em inglês).

Os parlamentares estadunidenses acreditam que estes laços econômicos serão superados pela presumida solidariedade ideológica das desenvolvidas democracias liberais. O papel histórico da Europa de alinhamento aos Estados Unidos contra a União Soviética estabelece um precedente natural para repetir-se contra um inimigo de veia ideológica semelhante. Mas alianças são naturalmente fluidas, com os países reorientando suas políticas externas com base em fatores econômicos, ideológicos e de segurança, todos em constante mutação. Dessa forma, os Estados Unidos poderão encontrar na União Europeia um aliado relutante em sua cruzada contra a China.

A União Europeia é um gigante econômico e uma união política notavelmente bem-sucedida, tendo efetivamente encerrado conflitos entre estados no que foi anteriormente o continente mais destruído pela guerra no mundo. Entretanto, sua burocracia decisória dificulta a projeção externa de poder, apesar de seu poder econômico. Consequentemente, embora os planos para organizar a União em uma força geopolítica estejam em constante discussão, a realidade de sua posição global atual é se encontrar esmagada entre os interesses estadunidenses, russos e chineses em competição.

Consciente desta realidade, os Estados Unidos tomaram a dianteira novamente para impor à Europa sua visão estratégica para as próximas décadas, na qual “conter” a China é o objetivo central. Resgatando a geografia familiar da Guerra Fria, os Estados Unidos pintam Rússia e China como potências revanchistas que formam a principal ameaça à segurança europeia, que tem sido mantida pelos EUA desde o final da Segunda Guerra Mundial na esperança de conservar seu alinhamento estratégico.

Quando se trata das alegações estadunidenses, de que os interesses russos e chineses são diametralmente opostos aos da União Europeia, é importante examinar as posições de cada uma das três grandes potências em relação às suas respectivas relações estratégicas com o bloco europeu.

Até recentemente, a Rússia tem sido identificada pelas lideranças da OTAN como a mais imediata ameaça à União Europeia. O consenso da OTAN é que a política externa de Putin é projetada para restabelecer as esferas de influência da era soviética através de intervenções na guerra da Síria e no Leste Europeu. Movimentações geopolíticas a mando dos interesses russos são ocorrências anuais na Europa, mas até que ponto elas realmente representam uma ameaça tangível aos interesses europeus? Quando observamos os dados factuais envolvidas nas discussões sobre a ameaça russa à Europa, sobra pouca credibilidade ao fomento do medo. Diversos membros da OTAN já fortaleceram seus esforços de cibersegurança em meio alegações de guerra cibernética e de desinformação por parte da Rússia. O formidável poderio militar russo é, no entanto, atenuado pela economia petro-dependente do país, que provavelmente se mostraria insuficiente como principal fonte de renda para uma grande campanha terrestre de restabelecimento da influência dos tempos soviéticos. Sendo assim, a ameaça geopolítica da Rússia tem sido efetivamente inflada por Washington.

É nesse contexto que a China se tornou o ponto central da visão do governo americano sobre uma aliança revitalizada da OTAN. Nos últimos anos a China se tornou o maior importador de bens da União Europeia, um relação que tem gerado temores de uma maior influência chinesa no continente. Entretanto, apesar das acusações de intenções subversivas da China em relação à União Europeia, o histórico do gigante asiático exibe um cenário muito diferente. Embora a União Europeia ecoe muitas alegações estadunidenses sobre violações de direitos humanos na China, a relação entre ambos ainda é largamente comercial e, como tal, uma relação sobre a qual os europeus têm demonstrado bastante entusiasmo.

O fomento ao medo por parte dos Estados Unidos não apenas esconde seu desejo de manter sua hegemonia sobre os estados europeus. Ele também carrega uma certa ironia, já que de diversas formas as próprias ações diretas e indiretas dos Estados Unidos nos últimos anos têm contribuído para o agravamento da crítica política que afeta a União Europeia.

Sendo o país mais poderoso do mundo, os Estados Unidos projetam mais do que poder financeiro e militar. É também um ditador de tendências, culturais e políticas. Apresentando-se como a cidade dourada no topo da colina, os Estados Unidos têm usado suas instituições para projetar seu papel de democracia exemplar ao mundo. Este tipo de soft power tem o efeito ostensivo de inspirar “dissidentes” e revoluções coloridas no Sul Global, porém, ainda mais importante, ele também perpetua a legitimidade dos Estados Unidos dentre seus aliados. Da União Europeia à Coreia do Sul ao Japão, chefes de estado sentem-se confiantes em usar as instituições financeiras americanas e abrigar as Forças Armadas dos EUA, principalmente por seu sistema político semelhante e pela crença – moldada através do soft e hard power estadunidense – de que os Estados Unidos se mantém firmes na defesa de seus valores.

Em nenhum outro lugar os valores na política são mais importantes do que na União Europeia, um bloco cuja função desde o início foi garantir que as catastróficas Guerras Mundiais nunca ocorressem novamente. E nenhum outro país sente mais o peso desse fardo do que a Alemanha, o país que foi o principal agressor em ambos os conflitos e detém a atual hegemonia na União. Até hoje, o patriotismo pode ser expressado no continente apenas em jogos de futebol ou em festivais. Mas as demonstrações abertas de orgulho nacional que galvanizaram o país para o cometimento de genocídios deixaram marcas profundas na Alemanha que influenciam a política até hoje. Uma política que coloca a defesa dos valores liberais não apenas como uma questão de governança, mas categoricamente primordial para a segurança do continente.

Evidentemente, a confiança do bloco no liberalismo estadunidense tem se abalado com a eleição de Trump em 2016 e a onda de populismo que tem permeado o mundo. Em vez de depender dos donatários tradicionais, e por extensão, de sua influência na mídia estadunidense, Trump tem apostado nas organizações de base da extrema-direita, lideradas por figuras notáveis como Steve Bannon. Para autoridades europeias que já lidavam com um ressurgimento da extrema-direita engendrado pela imigração muçulmana e os efeitos da crise financeira de 2008, seu trabalho em conter o avanço do populismo foi dificilmente facilitado pelos efeitos da vitória de Trump. (É importante notar que a crise financeira de 2008 e a crise migratória foram igualmente consequências da irresponsabilidade militar e financeira dos Estados Unidos).

A verdadeira ameaça, entretanto, vem do fato de que os mesmos movimentos de base que impeliram a vitória de Trump focaram suas atenções nos últimos anos em fortalecer a influência de suas contrapartes europeias. Meios de propaganda, sejam plataformas oficiais de notícias como Breitbart ou canais independentes do YouTube, espalham assiduamente teorias da conspiração baseadas em crenças da extrema-direita. Teorias da conspiração como, por exemplo, a noção de que a imigração muçulmana irá substituir a população europeia nativa até 2050, incentivo para países abandonarem o bloco e a promoção de sentimentos preconceituosos contra LGBTs. E embora seja uma tática comum da extrema-direita disfarçar seu fomento ao ódio sob o véu da liberdade de expressão, líderes europeus, especialmente na Alemanha, têm total consciência dos verdadeiros efeitos que determinadas palavras que apelam aos medos e preconceitos populares podem ter. Especialmente se a população sofre para encontrar emprego e, portanto, estão mais propensas ao extremismo e a bodes expiatórios. Os efeitos dessa onda de propaganda de extrema-direita têm se manifestado como violência, radicalismo e separatismo reais.

A União Europeia liderada pela Alemanha tem conseguido resistir, mas a unidade do bloco e sua devoção às idéias “liberais” estão por um fio. O fomento estadunidense ao antiliberalismo de direita na Europa poderá rompê-lo e afundar o continente em crise. A desagregação neste momento não é um cenário realista, considerando a dominância militar e financeira dos Estados Unidos sobre a União. Mas ao longo dos anos a posição dos americanos no continente tem decaído dramaticamente. Na verdade, alguns países europeus, como a Alemanha, tem começado a expressar um desejo de priorizar as relações com a China sobre as com os Estados Unidos. A desastrosa resposta estadunidense à Covid-19 tem agravado esse sentimento, mas a quebra da confiança transatlântica começou muito antes da atual pandemia.

Quando observadores caracterizam a relação China-UE, ela é quase sempre codificada como uma de pura conveniência. Os europeus querem fazer negócio com a segunda maior economia do mundo mas sempre serão alienados pelo sistema supostamente antiliberal da China. Porém, de muitas formas, a relação só tem se aprofundado, devido ao fato de que a China constantemente apresenta-se como uma ameaça menor à segurança da União Europeia do que os EUA. Isso ocorre em última instância ao fato de que a China, em comparação à Rússia e os Estados Unidos, é quem menos deseja a desunião da Europa. Ainda que pelos princípios da realpolitik os chineses não se importem com uma briga perpétua entre os países da UE, o que a torna mais maleável, a China é acima de tudo uma potência comercial no cenário internacional, e não militar ou política.

Contrariamente ao temor dos Estados Unidos de que a China visa suplantar a ordem ocidental, faz parte da política do Partido Comunista Chinês a não-exportação de seu sistema político. Além disso, como uma potência comercial, os objetivos da China são induzidos por acordos e blocos comerciais, e a existência da União Europeia como um bloco de mercado unificado avaliado em US$ 18 trilhões torna-a um parceiro inestimável. Seria uma decisão sábia sua reciprocidade aos chineses, já que o comércio será necessário para garantir a estabilidade econômica, e assim, controlar a influência dos partidos de extrema-direita. A pandemia de Covid-19 também ressaltou a importância da China como força estabilizadora na Europa. Enquanto os Estados Unidos acumularam suprimentos médicos e correram para comprar as primeira levas de vacinas alemãs, a China ofereceu apoio constante, equipes e suprimentos médicos independentemente de linhas ideológicas.

Apesar do que difundem as narrativas ocidentais, a União Europeia pode encontrar um grande parceiro na China. Embora seja verdade que nenhum dos lados simpatize com o sistema político do outro, a UE não enfrenta nenhuma ameaça por parte da China em relação aos seus assuntos internos. A cooperação econômica com a China irá alavancar os mercados estagnados da Europa e, mais importante, ampliará os benefícios materiais para seus cidadãos para que não sejam facilmente engolidos por ideologias de extrema-direita. Dessa maneira, a legitimidade dos existentes governos da esquerda ao centros seriam preservados, assim como a próprio existência do bloco. Para a China, os benefícios seriam ainda mais simples – acesso de mercado para absorver o choque da ameaçada desvinculação econômica com os Estados Unidos, e uma potencial proteção diplomática contra a beligerância estadunidense. Assim, as relações políticas do século XXI poderão ser definidas por parcerias frutíferas, nas quais todas as partes colherão os benefícios da cooperação intercontinental em prol do progresso humano.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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