EUA

Por que não votarei em Joe Biden

Gerações de pensadores críticos - de Rosa Luxemburgo a Aimé Césaire, Frantz Fanon, Edward Said e Arundhati Roy - não viveram, pensaram e escreveram para que nós déssemos um voto estratégico em um liberal reacionário.

Por Hamid Dabashiby, via Al Jazeera, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Sim, Trump é um monstro estadunidense, mas Biden também. Foto por Matt Rourke.

Mais uma vez é o período eleitoral nos Estados Unidos, e mais uma vez, pensadores progressistas que se preocupam com o futuro de nossa humanidade se encontram em um dilema – se deveriam ou não, para se livrar do perverso Donald Trump e de seus comparsas corruptos, votar em outro liberal corporativista, Joe Biden. É um deja vu; é a reprise de um filme antigo; é o Groundhog Day: na última vez era entre Trump e Hillary Clinton, agora é entre Trump e um ainda pior Biden.

Eu simpatizo completamente com os grandes intelectuais públicos dos Estados Unidos que foram pegos por este dilema.

Cornel West, o eminente filósofo afro americano, por exemplo, afirmou que pensa em dar um voto “antifascista” para Biden em novembro, apesar de suas preocupações em relação às ligações do ex-vice-presidente com “Wall Street e o militarismo”. West sabe muito bem que Biden irá trair cada um dos ideais e princípios ocidentais, mas ele está tão enojado com Trump – justificadamente – que está fazendo o que nós persas chamamos de “pular de uma coluna ruindo à outra, com esperança”.

O mesmo pode-se dizer de Noam Chomsky, o linguista e ativista político mundialmente renomado que também está incentivando as pessoas “a votarem por Joe Biden e em seguida assombrar seus sonhos” – seja o que isso signifique. Políticos como Trump ou Biden não têm sonhos para que assombremos. Eles são a definição de pesadelos. Nem Trump nem Biden são confiáveis, e Chomsky sabe disso. Ele está pulando de um coluna ruindo à outra – mas o faz com esperança ou por desespero?

A militante e pensadora revolucionária Angela Davis também afirmou que apoiará Biden para presidência, alegando que é crucial apoiar o candidato “que pode ser pressionado mais efetivamente”. Mas será mesmo? Como? Biden não tolerou uma única ativista palestina do BDS, Linda Sarsour, participando de sua campanha, e rapidamente agiu para removê-la. Este é o tipo de fanático que é Biden. Que tipo de “pressão” será possível de ser exercida sobre ele?

Entre a cruz e a espada

A presidência aterrorizante de Trump e a Idade das Trevas de ignorância e racismo desencadeada nos Estados Unidos, entretanto, tornam perfeitamente compreensível que estes e muitos outros pensadores, que jamais seriam vistos ao lado de Biden, corram agora para apoiá-lo. Estão pulando de uma coluna ruindo à outra para formar uma aliança tática, na esperança de que assim que Trump seja eliminado, possam avançar para além das promessas perigosas de Biden.

Mas eu escrevo este ensaio para discordar dessas imponentes figuras e abertamente declarar que não votarei em Biden. Isso não significa que tenho melhores princípios do que eles ou me importo menos com as consequências de outro calamitoso mandato de Trump. Pelo futuro das minhas próprias e de outras milhões de crianças americanas eu espero e torço pelo dia que ele seja retirado da Casa Branca e levado diretamente à prisão ou ao manicômio – seja qual esteja mais próximo.

Mas ainda assim, eu nunca votarei em Biden, já que acredito que a função de pessoas como eu é completamente diferente até mesmo daqueles entre a esquerda americana, com os quais eu sinceramente me identifico. A tarefa do pensamento crítico neste momento não é se afobar em declarar apoio a Biden – um racista impenitente e um sionista autodeclarado com um aterrorizante histórico de misoginia, que apoiou ativamente a Guerra do Iraque. Nós tínhamos uma opção muito superior com Bernie Sanders, mas nas duas vezes, o Partido Democrata fez de tudo para sabotá-lo.

A tarefa atual é sustentar uma linha de pensamento crítico que não pode aceitar Biden de forma alguma. Votar em Biden é votar pela consolidação de uma cultura política que está recheada de Trumps e Bidens prontos para virem à tona. Se escolhemos entre Trump e Biden hoje, logo estaremos escolhendo entre Ivanka Trump e Chelsea Clinton. Este ciclo vicioso só pode ser interrompido através de uma linha de pensamento crítico persistente e intransigente, que contrarie as bases da cultura política que demoniza as rebeliões do Black Lives Matter, saúda neonazistas e canoniza Hillary Clinton e Biden como salvações divinas contra essa bárbara banalidade.

Um momento decisivo

Foi o discurso de Barack Obama que selou minha decisão de nunca votar em Biden. Até lá, eu pensava comigo mesmo que o voto em Biden não era de fato um voto para ele, mas um voto contra Trump, além de outras ilusões de desculpas ruins. Mas quando Obama subiu ao palco emocionado e começou a clamar para que as pessoas votasse em Biden, eu decidi, naquele instante, que seria obsceno de minha parte fazê-lo, especialmente com este vigarista hipócrita ao seu lado.

Toda vez que Obama começa a chorar, eu lembro de seu choro em público pelas crianças que morreram vítimas de violência por armas de fogo nos Estados Unidos, logo antes de retornar ao Salão Oval e enviar ainda mais armas para Israel, com as quais crianças palestinas seriam massacradas, ou vendê-las para Arábia Saudita ou para os Emirados Árabes, com as quais ainda mais crianças iemenitas seriam mortas. Não são crianças as crianças palestinas e iemenitas? Cada ser humano faz parte da totalidade de nossa humanidade. Como pode este covarde ser tão abertamente cruel e desumano quando se trata das crianças no Iêmen, Palestina, Afeganistão e além, e ainda assim fingir preocupação com as crianças americanas?

Biden é ainda pior que Obama em relação ao seu sionismo obstinado – seu apoio ao estado de apartheid de Israel, e sua negligência categórica em relação aos palestinos. Votar em Biden significa perdoá-lo de todas as vezes que ajudou a armar Israel para assassinar palestinos. Votar nele significa, caso seja eleito, ficar ao seu lado todas as vezes que ele assinar – e ele com certeza assinará várias vezes – um novo acordo militar em apoio a Israel e sua tirania assassina.

Por que qualquer ser humano decente faria algo desse tipo? Sim, Trump é um monstro estadunidense, mas Biden também. Pessoas como eu não possuem nenhum candidato nesta eleição.

A ética da responsabilidade última

A tarefa dos pensadores críticos como eu não é surfar na onda e correr para, relutantemente, votar em Biden e sua companheira de chapa, Kamala Harris. Gerações de pensadores críticos – de Rosa Luxemburgo a Aimé Césaire, Frantz Fanon, Edward Said e Arundhati Roy – não viveram, pensaram e escreveram para que nós déssemos um voto estratégico em um liberal reacionário, um belicoso impenitente, um sionista linha-dura, com histórico de racismo e suposto abuso sexual. Nossa tarefa é outra.

Em seu famoso ensaio, Política como Vocação (1919), o importante sociólogo alemão Max Weber fez uma distinção crucial entre a “ética da responsabilidade” e a “ética dos fins últimos”, que até hoje continua como uma marca das escolhas morais na política: “Nós devemos ser claros”, afirmou ele para seu público na Universidade de Munique, “sobre o fato de que toda conduta eticamente orientada deve ser guiada por uma de duas máximas fundamentalmente opostas e irreconciliáveis: a conduta pode ser orientada por uma ‘ética dos fins últimos’ ou por uma ‘ética da responsabilidade’”. Ambos são ações éticas, porém em direções diametralmente opostas.

Weber continuou: “Isso não significa que uma ética dos fins últimos é sinônimo de irresponsabilidade, ou que uma ética da responsabilidade é idêntica ao oportunismo sem princípios. Naturalmente, ninguém diria isso”. Seja como for, ele insistiu: “Existe um contraste abismal entre uma conduta que segue a máxima da ética dos fins últimos… e a conduta que segue a máxima da ética da responsabilidade, caso no qual deve-se prestar contas sobre os resultados previsíveis de sua ação”.

Mas entre as duas escolhas que Weber nos deixou, emerge uma terceira: uma ética da responsabilidade última. Nossa responsabilidade principal e última atualmente não é votar no mal menor, assim como defendi há quatro anos atrás quando a escolha era entre Trump e Clinton, mas sustentar uma linha de pensamento crítico que visa superar ambos os males. Mais de 300 milhões de seres humanos, presos na escolha entre a Coca-Cola e a Pepsi, merecem e devem ambicionar uma escolha melhor. Um planeta inteiro a mercê do militarismo e da beligerância dos Estados Unidos certamente tem tudo a perder com qualquer uma dessas duas calamidades americanas.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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