Internacional

A linguagem e a propaganda

Por Daniel Vaz de Carvalho, via Resistir.info

Pandemonium, Otto Dix, 1914
Pandemonium, Otto Dix, 1914

1 – O conteúdo ideológico da linguagem

Quando os media falam da “comunidade internacional” referem-se a posições da NATO, seus aliados e vassalos, como se a larga maioria da população do mundo não tivesse direito a ter e dar a conhecer a sua opinião, sendo constituída por “bárbaros” no sentido greco-romano ou “estados párias” no sentido do imperialismo atual. Não se trata apenas de uma forma de dizer, mas de uma forma de pensar: a imperialista.

Segundo o marxismo a linguagem é um fenómeno social que permite a comunicação entre os seres humanos, o resultado de um processo mental, a expressão real e prática da consciência. A cada palavra, a cada expressão, corresponde uma ideia. Sendo a linguagem um meio de expressão de ideias e comunicação, quem controla a linguagem controla as ideias. Os interesses das diversas classes sociais não são, pois, indiferentes ou independentes da linguagem procurando utiliza-la em proveito próprio expondo com um léxico próprio as suas prioridades, os seus interesses.

Controlar o sentido das palavras é portanto controlar o pensamento, controlar a perceção das pessoas sobre a realidade, dar às questões que se colocam na sociedade o sentido pretendido por quem a domina. Porém, quando o sentido das palavras corresponde a ideias falsas, as sociedades vivem numa vasta teia de ilusões e inverdades, conduzindo a um agravamento das contradições e à sua decadência.

A propaganda é um dos aspetos da linguagem, diz respeito à propagação ou vulgarização de ideias que determinam comportamentos. Propaganda é uma técnica, ao serviço de determinadas ideias, para as divulgar e incutir, mas também impedir que se estabeleçam outras que se lhe oponham.

Não vale a pena os puristas escandalizarem-se com a propaganda. A propaganda é necessária a qualquer sistema de ideias políticas, religiosas, etc. A questão é o seu conteúdo e em que sentido se exerce: a sua verdade, a conformidade com princípios humanistas, a legítima defesa da soberania dos povos e dos interesses populares. Porém, aquilo a que assistimos nas nossas sociedades é o uso da informação como propaganda instrumentalizada pelos objetivos imperialistas e oligárquicos.

Expressões correntes, como as “reformas estruturais”, intensamente repetidas são eufemismos que mascaram a realidade, funcionando como fórmulas de conteúdo mágico a serem aceites como dogmas sem que se permita o seu exame.

Assim, refere-se o “regime comunista de Havana” (o que é uma falsidade, em termos de definição do que seja o comunismo) ou o “regime populista de Caracas”, como se cumprir promessas eleitorais em benefício da maioria fosse “populismo”, associando as políticas progressistas da Revolução Bolivariana à terminologia aplicada a partidos fascizantes. Porém o sistema capitalista nunca é referido como um regime.

Tirania, ditadura, totalitarismo, significa que, independentemente do apoio popular, o governo não segue o “Consenso de Washington”.

“Levar a liberdade e a democracia” ao Médio Oriente a África ou a qualquer outra parte do mundo, significa que um governo que prejudicaria os interesses das transnacionais está sujeito a ingerência visando o seu derrube ou foram desencadeadas ações de guerra tornando o país um Estado disfuncional e caótico.

“Mais Europa” significa mais burocracia, mais austeridade, mais desigualdades, menos soberania.

“É preciso liberalizar os mercados de trabalho caso contrário o desemprego não se reduzirá” ou “o desemprego resulta de elevados custos laborais e benefícios sociais, relativamente ao que o mercado permite”. Significa que se preparam medidas que provocarão mais desemprego e pobreza.

Na realidade, o desemprego resulta de procura insuficiente e da falta de investimento. A falta de investimento é, designadamente, consequência de sistemas financeiros dedicados à especulação e livre circulação de capitais sem tributação para paraísos fiscais.

“É necessário desenvolver o princípio da confiança nos negócios privados, arredando da gestão económica o Estado intrusivo e dirigista”. Significa, privatização de serviços públicos e sectores económicos estratégicos, criando monopólios privados e capital rentista, com ausência de risco e inovação, como as “parcerias publico privadas” (PPP).

“Combater o despesismo nos serviços de saúde, na educação, na cultura, nos transportes públicos e permitir a liberdade de escolha”. Significa, ensino, saúde, cultura, para quem poder pagar. Contudo, o conceito de desperdício e eficiência desaparece do discurso vulgarizado por comentadores quando o lucro privado é garantido por benefícios fiscais, rendas pagas pelo Estado e utilizadores.

Quanto à cultura, que deveria servir para a difusão do mais puro humanismo, foi entregue à disseminação de subprodutos importados das transnacionais do sector ou seus sucedâneos.

2 – Conteúdos da mistificação linguística

FORMA EXPRESSACONTEÚDO
Burocracia prejudicial à competitividade das empresas e aos trabalhadoresMovimento sindical
Reformas estruturaisAumentar a exploração capitalista e a insegurança dos trabalhadores
ArcaísmosDireitos sociais conquistados pelos trabalhadores através de duras lutas ao longo dos anos
Mercado a funcionarDeslocalização de empresas, aumento do desemprego, especulação financeira
Promover a eficiênciaFomentar a monopolização da economia e a penetração das transnacionais
Medidas corajosas e responsáveisEspoliação dos trabalhadores e pensionistas
Flexibilizar e racionalizar o mercado de trabalhoFomentar a arbitrariedade patronal e a concorrência entre os próprios trabalhadores na sua luta pela sobrevivência.
Acabar com os privilégiosReduzir os direitos dos trabalhadores

Exemplos da linguagem usada, para situações idênticas quando o país A é considerado “aliado” dos EUA e o país B simplesmente não.

SITUAÇÃO NO PAÍS ASITUAÇÃO IDÊNTICA NO PAÍS B
Aliado, parceiroSatélite
Manter a ordemRepressão sobre manifestantes pró-democracia
As forças da ordemO aparelho repressivo do regime
As autoridadesAs forças repressivas
Distúrbios criminosos; vandalismoManifestações contra o regime. Lutas pela democracia e direitos humanos
TerroristasRebeldes. Combatentes da liberdade
Oposição irresponsável que se automarginalizaDissidentes que representam a vontade de todo o povo
Critério editorialCensura
Confrontos entre manifestantes e a políciaViolência sobre civis
As manifestações degeneraram em confrontos… As forças policiais viram-se obrigadas…Brutal repressão abateu-se sobre os elementos pró-democracia
Os incidentes provocaram vários feridos nas forças policiais…A repressão causou mortes e feridos entre os manifestantes
Multidão; muitos milhares de pessoasAlgumas centenas de apoiantes

No país A para descrever as situações da primeira coluna a linguagem usada ou a atitude comunicacional é a da segunda coluna:

TorturaCombate à subversão
Ausência de medidas de defesa da produção nacionalAbertura aos mercados
Poder político subordinado ao poder económicoDemocracia
Voos da CIA com presos sem julgamento para centros de torturaIgnorar. Cortar a palavra se o tema for mencionado na rádio ou TV. No limite considerar hipótese não confirmada lançada por inimigos do mundo livre
Repressão e crimes políticos na Colômbia, Peru, Honduras, Guatemala, etc.Ignorar, nunca mencionar
Ditadores mascarados de democratasIgnorar, nunca mencionar
Golpes de Estado contra governos que defendem a soberania nacionalAções para salvar a democracia e contra o populismo
Corrupção, especulação e fuga de capitaisLivre empresa, mercado livre
Capitalismo neoliberal, regressão socialDemocracia, sociedade aberta e competitiva
Austeridade, redução de impostos para a finança e grandes grupos económicosPolíticas salutares e responsáveis. Fazer o que tem de ser feito.
Matar civisDanos colaterais
Bombardear cidades indefesas (como os nazis em Guernica)Intervenção humanitária. Derrotar a ditadura; exercer pressão para o povo ficar em segurança.
Perseguições políticas, milhares de pessoas torturadas, assassínios em massa por governos apoiados pelos EUA e UEIgnorar, nunca mencionar
Jornalistas, sindicalistas, ativistas sociais, assassinados em países da América LatinaIgnorar, afirmar repetidamente que em Cuba não há liberdade1
Neocolonialismo, dependência política e económicaIntegração económica, comércio livre
Quando amigos assumem o poder após golpe de Estado, conduzindo uma política de perseguições e repressão.A democracia venceu
Seita criminosa que governou o Camboja até ser derrubada em 1979 por soldados da República Popular do Vietname e exilados principalmente do Partido Comunista.Os “Khmers Vermelhos” comunistas2
Massacre de civis palestinianos pelo exército israelense.Confrontos na faixa de Gaza
Disponibilizar informação revelando a face ocultada da política interna e externa dos EUA.Atitude criminosa suspeita de apoiar e proporcionar ajuda a terroristas (caso de Julian Assange, Chelsea (Bradley) Mannig, Edward Snowdown, por ex.)
Tratamento cruel, injusto, supressão de direitos legais, aplicado a Julian Assange (ex. Chelsea Manning)Ignorar, nunca mencionar

No pais B para descrever as situações da primeira coluna a linguagem usada é a da segunda coluna:

Ações imperialistas de ingerência e aplicação de sançõesPromover a democracia
Defesa da soberania nacionalIsolacionismo reacionário e arcaico
Planeamento económico democrático. Controlo do poder económico pelo poder políticoTotalitarismo
Preocupações sociais postas em práticaEsquerda radical e populista
Manifestações de apoio ao governoIgnorar. No limite, selecionar imagens que desqualifiquem o acontecimento.
Indivíduos pagos por organismos de países estrangeiros para conspirarem contra governos com apoio popularDissidentes, lutadores pela democracia
País que não faz o que os EUA pretendemAmeaça aos interesses do “ocidente”
Nacionalização dos recursos naturais do pais, com o apoio da maioria esmagadora da população e cumprindo promessas eleitorais.País que se encaminha para a ditadura. Estado pária.
Mortes de civis em países atacados ou em consequência de sanções económicasIgnorar, nunca mencionar ou culpar o “regime”
Destruição e matanças cometidas por terroristas financiados pelo impérioSectores moderados, em luta pela liberdade e a democracia.
Bombas de fragmentação e de urânio empobrecido. Morte de centenas de milhares pessoas, na esmagadora maioria civis. O total é avaliado em dois milhões, incluindo os danos causados pelas sanções3.Intervenções humanitárias (ex. Jugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Somália, Iémen, etc.)

3 – Linguagem como estratégia de propaganda e manipulação

As estratégias de manipulação coletiva, visam deturpar os significados, bloquear o espírito crítico e condicionar mentalmente o ouvinte. Vejamos algumas destas estratégias:

Eufemismos – induzir ideias contrárias ao significado original das palavras, fazendo passar por desejável o que seria recusado. (ex. Reformas Estruturais).

Oximoros – Com objetivo idêntico, colocar na mesma expressão conceitos contraditórios.

Repetição – Bloquear o pensamento crítico através da intensidade repetitiva. “Nos EUA a repetição de ecos (ecolalia) chama-se debate” (Paul Craig Roberts)

Veemência e indignação – Mentiras, ditas desta forma, condicionam a procura da verdade. Particularmente relevante quando se pretende um processo de desumanização e diabolização, estabelecendo um clima de paranoia coletiva contra um designado inimigo. A opinião pública foi desta forma preparada para aceitar as agressões levadas a cabo contra a Jugoslávia, Líbia, Iraque, Afeganistão, Síria, a russofobia, etc.

Dissociação – Exacerbar as consequências escamoteando as causas. Serve de álibi para o “populismo” das várias direitas.

Distração – Desviar a atenção do que é socialmente importante com informações irrelevantes.

Crise como oportunidade – Deixar desenvolverem-se ou provocar problemas para concretizar soluções que seriam recusadas de outra forma (caso da austeridade e das privatizações).

Faseamento – Políticas impopulares que seriam recusadas de imediato, são aplicadas de forma gradual, à medida que vão sendo apresentadas como realistas e sem alternativa. Promovendo a resignação pela “habituação”.

Evidenciação – Tornar evidente o que é falso através de erros do raciocínio silogístico; tomar como verdades absolutas axiomas dogmáticos e imagens que deturpam o real, etc. (ex. o Estado como “boa dona de casa”)

4 – A linguagem da calúnia

A linguagem da calúnia é de todas a mais perversa ao nível da intoxicação mental, utilizada para diabolizar os que não se submetem totalmente ao império. Boatos são promovidos à categoria de notícia, notícias falsas passam a factos com base nos quais “comentadores” desenvolvem as suas arengas sem contraditório.

Os criminosos golpes na Indonésia, no Chile, foram precedidos da calúnia: “os comunistas preparavam-se para assassinar os militares”, na Argentina ativadas pela AAA (Aliança Anticomunista Argentina). As guerras no Iraque, na Síria, na Líbia, na Jugoslávia foram precedidas de calúnias. Tal como as sanções contra a Venezuela e outros Estados. Fidel Castro teria sido um assassino, tal como Nicolas Maduro, Kadafi, Milosevitch, etc., promovendo a repulsa do cidadão desinformado por políticas progressistas e os ódios de que se alimenta a extrema-direita.4

Contra a China considerada o inimigo principal do império (com a Rússia) procura-se desencadear no Xinjiang uma revolta da etnia uigure. Alguns exemplos da calúnia em curso:

Uma uigure ensanguentada a quem um carrasco Han arranca as unhas. Vídeo filmado em 2004 em Chicago com uma atriz.

Um bebé uigure com coleira, comendo de uma gamela para cão. Foto divulgada em 2015 nas Filipinas pela (indigna) mãe da criança.

Um uigure nu espancado no chão por um soldado. Espancamento de um delinquente por um soldado indonésio em maio de 2017.

Viu-se uma uigure um pouco embaraçada para justificar a sua gravidez depois de ter sido esterilizada à força; “desaparecidos” foram encontrados risonhos nas suas casas.5

A cobertura internacional de notícias nos media ocidentais é fornecida na quase totalidade por apenas três agências noticiosas com sede em Nova York, Londres e Paris, definindo o tipo da linguagem e da propaganda globais, ao serviço da oligarquia e do imperialismo.

Só o esclarecimento e a elevação da consciência social do povo trabalhador, permitirão superar os efeitos da mentira e da ininterrupta propaganda caluniosa. Só assim se desenvolverão as raizes da esperança num futuro diferente e melhor.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  O último jornalista assassinado pelo poder político em Cuba, foi-o no tempo do ditador Batista, apoiado pelos EUA. Assassinatos de jornalistas deram-se em países apoiados pelos EUA (por ex. Colômbia, Honduras). Situações ignoradas pela Amnistia Internacional e pelos “Reporters sem fronteiras”.

2  Os “khmers vermelhos” foram apoiados pelos EUA que os mantiveram como guerrilha na Tailândia para derrubar o novo governo de salvação e reconstrução nacional. Na ONU os EUA não reconheceram o novo governo como representante do país, apoiando a representação dos criminosos Khmers.

3  No caso da Líbia o mandato da ONU para garantir a exclusão do espaço aéreo das hostilidades entre governo e rebeldes e proteger a população civil, resultou na morte de 40 a 60 000 civis devido aos bombardeamentos da NATO.

4  No caso da Jugoslávia o Tribunal Penal Internacional ilibou postumamente o presidente da Sérvia, Milosevic, cujos alegados crimes serviram de justificação para uma sementeira de ódios e bombardeamentos que vitimaram milhares de civis.

5  Théophraste R. (editor de www.legrandsoir.info/ ) Et si le mensonge photographique devenait trop difficile?, 17/08/2020 A deteção da falsidade das imagens foi feita com a aplicação InVID (In Video Veritas).

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