Oriente Médio

O que significa o acordo EAU-Israel para o Oriente Médio

Por Simon Watkins, via Global Research, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Manifestantes palestinos queimam imagens de Benjamin Netanyahu, Mohammed bin Zayed al-Nahyan e Donald Trump, em um protesto contra o acordo EAU-Israel em Nablus, no dia 14 de agosto de 2020. Foto por Jaafar Ashtiyeh.
Manifestantes palestinos queimam imagens de Benjamin Netanyahu, Mohammed bin Zayed al-Nahyan e Donald Trump, em um protesto contra o acordo EAU-Israel em Nablus, no dia 14 de agosto de 2020. Foto por Jaafar Ashtiyeh.

O anúncio no dia 13 de agosto de que Israel e os Emirados Árabes Unidos (EAU) normalizariam as relações, justamente quando o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou a suspensão dos planos de anexação de mais áreas da Cisjordânia que foram ocupadas durante a “Guerra dos Seis Dias” de 1967, tem naturalmente levantado questões sobre o que esse acordo significa para as duas potências do Oriente Médio: a Arábia Saudita e Irã. Assim como muitas questões relacionadas ao Oriente Médio, a resposta não é tão simples quanto muitos imaginariam, mas está esboçada abaixo. Para começar, o acordo Israel-EAU é muito mais complexo do que o simples anúncio sugere, o que significa que a resposta dos sauditas e iranianos é igualmente multifacetada.

“Mais do que quaisquer outros efeitos deste acordo, os EAU visavam se colocar firmemente dentre os aliados mais privilegiados dos Estados Unidos para receber acordos futuros de comércio e financiamento – já que sofreu muito com a recém encerrada guerra de preços do petróleo liderada pela Arábia Saudita – e para serem incluídos na rede de inteligência e segurança estadunidense-israelense para se proteger do Irã”, afirmou uma fonte, que trabalha com segurança energética junto à União Européia, ao OilPrice.com na última semana.

“Esse acordo formal, entretanto, só oficializa o que tem ocorrido entre Israel e os EAU já há algum tempo no campo de cooperação em inteligência para combater o crescente poder do Irã na região, que tem se tornado mais militarizado, dada a maior dominância da Guarda Revolucionária Iraniana em Teerã”, declarou.

Uma parte central dessa iniciativa conjunta de inteligência entre os EAU e Israel (e, por extensão, os Estados Unidos) tem sido o aumento dramático nos últimos dois anos da compra de propriedades comerciais e residenciais na província de Cuzistão, no sul do Irã – uma região chave para suas reservas de petróleo e gás – por empresas registradas nos EAU, particularmente aquelas sediadas em Abu Dhabi e Dubai, apontou a fonte.

“Cerca de 500.000 iranianos saíram do país no período da Revolução Islâmica de 1979 em direção a Dubai, primeiramente, e depois a Abu Dhabi, e eles nunca foram favoráveis a Guarda Revolucionária ter um papel central no Irã. Então, alguns deles têm sido usados para encabeçar negócios e projetos comerciais no Cuzistão, que estão sendo financiados por empresas registradas nestes dois emirados”, acrescentou.

“Entretanto, essas empresas aparentemente de Abu Dhabi e Dubai são financiadas na verdade por uma grande empresa israelense, que por sua vez é financiada por uma operação estadunidense-israelense especificamente montada para esse projeto, com um orçamento de US$ 2,19 bilhões”, disse à OilPrice.com. “Essas empresas, e as aquisições de propriedade adicionais para seus funcionários no Cuzistão, significa que não apenas está a população iraniana nativa sendo diluída por árabes não-iranianos (ainda que majoritariamente persa em termos demográficos, os árabes nativos compõem cerca de 2% da população do Irã), a capacidade de coleta de inteligência in loco tem sido dramaticamente otimizada”, sublinhou. “Basicamente, Israel está fazendo através da presença dos EAU no sul do Irã exatamente o que o Irã tem feito com Israel através de sua presença no Líbano e na Síria”.

Dadas as óbvias oportunidades para maior coleta de inteligência e desestabilização econômica e política dentro do território iraniano resultantes do novo acordo EAU-Israel, o Irã tem sido esperadamente hostil. O porta-voz de Assuntos Internacionais do Parlamento, Amir-Abdollahian, fez uma aparição pública logo após o anúncio, encontrando-se com o embaixador palestino em Teerã, Salah Zavavi, e declarou:

“O ato dos EAU de normalizar relações com o regime sionista é um erro estratégico, e seu governo deverá assumir a responsabilidade por todas as suas consequências”.

Ele acrescentou que o Irã continua apoiando firmemente o povo palestino. Zavavi clamou a todos os porta-vozes de todos os parlamentos dos países muçulmanos que condenem a ação dos EAU e apoiem os “direitos inalienáveis do povo palestino”.

Mais indicativo de ações futuras para além de meras palavras foi o encontro entre o Ministro da Defesa do Irã, Amir Hatami, e sua contraparte russa, Sergey Shoygu. Mesmo publicamente, Hatami aludiu aos novos acordos militares firmados com a China e Rússia – revelados exclusivamentes na OilPrice.com – referindo-se aos objetivos e interesses estratégicos, regionais e internacionais conjuntos entre Teerã e Moscou, sublinhando a “cooperação mútua de defesa em desenvolvimento” entre os dois lados. Hatami também condenou as tentativas recentes dos Estados Unidos de invocar uma renovação de sanções internacionais totais contra o Irã através do Conselho de Segurança da ONU:

“Nos últimos anos, o Irã e a Rússia têm lançado um esforço conjunto e ostensivo contra o unilateralismo e as políticas de coerção dos Estados Unidos e do governo Trump na região”, ele apontou. “A resposta realista do Conselho de Segurança da ONU e a rejeição da recente resolução estadunidense anti-Irã para a extensão dos embargos, novamente, marcou uma enorme derrota aos Estados Unidos e seus aliados regionais, e provou a oposição global ao unilateralismo”, destacou.

“A garantia do apoio da China e Rússia como dois dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança foi uma das razões principais pela qual o Irã aceitou os componentes militares do acordo de 25 anos que firmou com a China”, afirmou a fonte da União Europeia. De fato, com o anúncio oficial do novo acordo Israel-EAU, a Guarda Revolucionária Iraniana (com a benção do Aiatolá Khamenei) está totalmente pronta para permitir a presença naval da China e Rússia nos arredores dos principais portos iranianos em Chabahar, Bandar-e-Bushehr e Bandar Abbas, em linha com o componente militar do acordo, a partir de 9 de novembro, afirmou uma fonte que trabalha próximo ao Ministério do Petróleo iraniano à OilPrice.com, na semana passada.

Esses destacamentos serão acompanhados pela extensão das capacidades de guerra eletrônica russa e chinesa, que irá englobar cada uma de suas três áreas principais – apoio eletrônico (incluindo alertas rápidos de uso de armas inimigas), ataques eletrônicos (incluindo sistemas de obstrução) e proteção eletrônica (também contra obstrução inimiga). Baseada originalmente em torno da neutralização dos sistemas C4ISR (Command, Control, Communications, Computers, Intelligence, Surveillance e Reconnaissance) da OTAN, parte do novo software e hardware chinês e russo no Irã serão os sistemas anti-mísseis S-400 da Rússia (“para interceptar ataques estadunidenses e/ou israelenses”) e os sistemas Krasukha-2 e -4 (“já que provaram sua efetividade em interceptar radares de ataque, reconhecimento e aeronaves não-tripuladas na Síria”).

Mas então, qual será a posição da Arábia Saudita frente ao acordo Israel-EAU?

“A Arábia Saudita, particularmente, poderá dar apoio discretamente, mas é improvável que normalize as relações”, afirmou Jon Alterman, diretor do Middle East Program do Center for Strategic and International Studies em Washington, à OilPrice.com, na última semana. “O establishment clerical tem tido um papel privilegiado no reino desde o século XVIII, o rei tem sob custódia as duas mesquitas sagradas, e a Arábia Saudita é fundadora da Organização para a Cooperação Islâmica”, ele acrescentou.

“Discretamente” é a palavra decisiva aqui, já que, de acordo com a fonte iraniana, atualmente 62% dos mencionados US$ 2,19 bilhões do fundo Israel-EAU para novos assentamentos no Cuzistão vem de “organizações com conexões sauditas”.

Isso encaixa com a visão amplamente mantida por muitos analistas dedicados à Arábia Saudita, de que o príncipe Mohammed bin Salman (MBS) é muito mais simpático ao acordo – e ao principal objetivo estratégico dos Estados Unidos e de Israel, sabotar o poder da Guarda Revolucionária no Irã – do que seu pai, Rei Salman, que afirmou à Organização para a Cooperação Islâmica no ano passado que a causa palestina continua central e que o reino “recusa quaisquer medidas que toquem na posição histórica e legal de Jerusalém Oriental”. Por outro lado, ele já tem 84 anos e más condições de saúde, e até mesmo o chanceler saudita, o príncipe Faisal bin Farhan, cautelosamente acolheu o acordo Israel-EAU, afirmando: “Pode ser visto como algo positivo”. Também é pertinente notar que em 2002 – há não muito tempo atrás em termos geopolíticos – foram os sauditas que lançaram o “Plano de Paz do Príncipe Abdullah” na Cúpula Árabe de Beirute, oferecendo reconhecimento total de Israel em troca de retornar às fronteiras pré-1967.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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