Ásia

Revisitando o ‘jogo de sombras’: como a Eurásia está sendo remodelada

Por Pepe Escobar, via Asia Times, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

O heartland eurasiano na interpretação do teórico estrategista Halford John Mackinder em sua obra The Geographical Pivot of History de 1904.
O heartland eurasiano na interpretação do teórico estrategista Halford John Mackinder em sua obra The Geographical Pivot of History de 1904.

Temos visto como a China tem planejado meticulosamente todos seus movimentos geopolíticos e geoeconômicos cruciais até e para além de 2030.

O que você está prestes a ler vem de uma série de discussões privadas e multilaterais entre analistas de inteligência, e pode ajudar a traçar os contornos do panorama geral.

Na China, está claro que o caminho aponta para o aumento da demanda interna e para o deslocamento da política monetária, visando a criação de crédito para consolidar a construção de indústrias domésticas de excelência.

Paralelamente, há um sério debate em Moscou de que a Rússia deve seguir o mesmo caminho. Como coloca um analista, “A Rússia não deve importar nada além de tecnologias que necessita até que possa ela própria criá-las, e deve exportar apenas o petróleo e gás necessários para cobrir as importações, que devem ser severamente restritas. A China ainda precisa de recursos naturais, o que torna Rússia e China aliados insubstituíveis. Uma nação deve ser o mais auto-suficiente possível”.

Isso reflete exatamente a estratégia do Partido Comunista Chinês (PCCh), como delineada pelo presidente Xi na reunião do Comitê Central, no dia 31 de julho.

E isso também vai contra uma expressiva ala neoliberal do PCCh – colaboracionistas? – que sonha com uma conversão do partido à democracia ocidental, além de uma subordinação aos interesses do capital ocidental.

Comparar a atual potência econômica da China com os Estados Unidos é como comparar um Maserati GranTurismo Sport (equipado com um motor Ferrari V8) com um Toyota Camry. A China possui, proporcionalmente, um reservatório maior de jovens de ótima formação; uma migração rural-urbana acelerada; uma maior erradicação da pobreza; maior poupança; um senso cultural de gratificação a longo prazo; maior disciplina – confuciana – social; e um respeito infinitamente maior pelas mentes racionalmente educadas. O processo da China comercializar cada vez mais consigo mesmo será mais do que suficiente para manter o momentum necessário de desenvolvimento sustentável.

O fator hipersônico

Enquanto isso, na frente geopolítica, o consenso em Moscou – do Kremlin ao Ministério de Relações Exteriores – é que o governo Trump não é “aberto a acordos”, um eufemismo diplomático para ‘um bando de mentirosos’; e não é também “aberto à legalidade”, um eufemismo para, por exemplo, o lobby pela renovação de sanções enquanto Trump já abandonou o JCPOA.

O presidente Putin já afirmou recentemente que negociar com a equipe de Trump é como jogar xadrez com um pombo: o demente pássaro sobe e anda por todo o tabuleiro, defeca indiscriminadamente, derruba as peças, declara vitória e foge.

Em contraste, o lobby sério nos mais altos níveis do governo russo está investido em consolidar a aliança eurasiana definitiva, unindo a Alemanha, Rússia e China.

Mas isso só seria possível com uma Alemanha pós-Merkel. De acordo com um analista estadunidense, “a única coisa contendo a Alemanha é que podem perder as exportações de automóveis para os Estados Unidos, mas eu os digo que isso já pode ocorrer, graças à taxa de câmbio dólar-euro, com o euro se tornando mais caro”.

No âmbito nuclear, e indo muito além do drama belarusso – não haverá nenhum Maidan em Minsk – Moscou deixou muito claro, em termos precisos, que qualquer ataque vindo da OTAN será interpretado como um ataque nuclear.

O sistema russo de mísseis defensivos – incluindo os já testados S-500, e em breve os já projetados S-600 – tem possivelmente 99% de efetividade. Isso significa que a Rússia ainda teria que absorver algum dano. E é por isso que a Rússia construiu uma extensiva rede de bunkers nucleares nas grandes cidades para proteger ao menos 40 milhões de pessoas.

Os analistas russos interpretam a abordagem defensiva da China nesta mesma linha. Pequim visará desenvolver – caso já não o tenham feito – um escudo defensivo, ainda mantendo a capacidade de retaliar um ataque nuclear estadunidense.

Os melhores analistas russos, como Andrei Martyanov, sabem que os três melhores armamentos para uma próxima guerra serão mísseis ofensivos e defensivos e submarinos, combinados com capacidade de guerra cibernética.

A arma chave hoje – e os chineses compreendem isso muito claramente – são os submarinos nucleares. Os russos estão observando como a China está construindo sua frota de submarinos – carregando mísseis hipersônicos – mais rápido que os Estados Unidos. Frotas de superfície já são obsoletas. Uma matilha de submarinos chineses pode facilmente afundar um porta-aviões. Aqueles 11 porta-aviões estadunidenses são, de fato, inúteis.

Assim, no caso – horripilante – dos oceanos tornarem-se inavegáveis em uma guerra, com os Estados Unidos, Rússia e China bloqueando todo o tráfego comercial, esta é a razão estratégica central levando a China a obter a maioria de seus recursos naturais através da Rússia, via terra firme.

Mesmo caso dutos sejam bombardeados, eles podem ser reparados rapidamente. Daí vem a importância da Power of Siberia para a China – assim como o vertiginoso leque de projetos da Gazprom.

O fator Ormuz

Um segredo muito bem guardado em Moscou é que logo após as sanções alemãs impostas em relação à Ucrânia, um grande operador global de energia abordou a Rússia com uma oferta de redireccionar para a China nada menos de 7 milhões de barris por dia de petróleo e gás natural. Aconteça o que for, a chocante proposta continua na mesa de Shmal Genady, um grande conselheiro do presidente Putin em matéria de petróleo e gás.

Caso isso ocorra, garantiria à China todos os recursos naturais que precisam através da Rússia. Nesta hipótese, a linha de raciocínio russa seria contornar as sanções alemãs ao deslocar suas exportações de petróleo para a China, que no ponto de vista russo, é mais avançada em matéria de tecnologia de consumo do que a Alemanha.

É claro, tudo isso mudou com a conclusão iminente da Nord Stream 2 – apesar do descontrole da equipe Trump em sancionar tudo que vê pela frente.

Discussões de bastidores da inteligência deixaram claro aos industriais alemães que caso a Alemanha perca sua fonte russa de petróleo e gás, somado a um bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã no evento de um ataque americano, a economia alemã pode simplesmente entrar em colapso.

Têm ocorrido discussões sérias de inteligência entre países sobre a possibilidade de uma “surpresa de outubro” patrocinada pelos EUA envolvendo uma falsa-bandeira atrelada ao Irã. A “pressão-máxima” do governo Trump contra o Irã não tem nenhuma relação com o JCPOA. O que importa é que mesmo indiretamente, a parceria estratégica Rússia-China deixou bem claro que Teerã será protegida como um ativo estratégico – e um nó central da integração eurasiana.

Considerações inter-inteligência focam em um cenário supondo um – improvável – colapso do governo em Teerã. A primeira coisa que Washington faria neste caso é apertar o botão de liquidação do SWIFT. O alvo seria esmagar a economia russa. É por isso que Rússia e China estão ativamente ampliando a integração do Mir russo e do CHIPS chinês, além de buscar contornar o dólar no comércio bilateral.

Já tem sido considerado em Pequim que, caso esse cenário se concretize, a China poderá perder seus dois aliados principais de uma só vez, e terá que enfrentar Washington sozinha, em um estágio em que ainda não é auto-suficiente em todos os recursos naturais. Seria uma verdadeira ameaça existencial. E explica o raciocínio por trás da interconexão cada vez maior da parceria estratégica Rússia-China e do acordo de 25 anos entre China e Irã, estimado em US$ 400 bilhões.

Bismarck está de volta

Outro acordo secreto possível já discutido nos mais altos níveis de inteligência é a possibilidade de um novo Tratado de Resseguro bismarckiano entre Alemanha e Rússia. A consequência inevitável seria uma aliança de facto entre Berlim-Moscou-Pequim abrangendo a Nova Rota da Seda (BRI), juntamente à criação de uma nova moeda – digital? – para toda a aliança da Eurásia, incluindo atores importantes porém periféricos, como a França e Itália.

Bem, Pequim-Moscou já está consolidada. Berlim-Pequim é um trabalho em andamento. O elo perdido é Berlim-Moscou.

Isso representaria não apenas o pior pesadelo para as elites anglo-americanas mergulhadas em Mackinder, mas uma verdadeira passagem da tocha geopolítica dos impérios marítimos de volta ao heartland eurasiano.

Não é mais uma ficção. Ela está sobre a mesa.

Somando a isso, façamos uma viagem no tempo de volta ao ano de 1348.

Os mongóis da Horda Dourada estão na Criméia, cercando Kaffa – um porto comercial no Mar Negro, controlado pelos genoveses.

Subitamente, o exército mongol é consumido pela peste bubônica.

Eles começam a catapultar corpos contaminados sobre o muros da cidade.

Imagine então, o que ocorreu quando os navios começaram a navegar novamente de Kaffa à Génova.

Transportaram a peste para a Itália.

Em 1360, a Peste Negra estava literalmente em todo lugar – de Lisboa à Novgorod, da Sicília à Noruega. Cerca de 60% da população européia pode ter morrido – mais de 100 milhões de pessoas.

Pode-se dizer que o Renascimento, devido à peste, foi postergado por um século.

A Covid-19 está certamente longe de uma peste medieval. Mas é aceitável perguntar: que Renascimento pode estar sendo postergado?

Pode estar, na verdade, adiantando o Renascimento da Eurásia. E está acontecendo justamente quando a hegemonia, o “fim da história”, está implodindo internamente, “distraído da distração por distração”, citando T.S. Eliot. Atrás da neblina, no excepcional terreno do “jogo de sombras”, os movimentos vitais para reorganização do território eurasiano já começaram.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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