África

Luuanda: a tensão colonial e a construção de uma identidade

Por Flávia Nobre

Os musseques de Luanda, Angola. Foto por mbrand85.
Os musseques de Luanda, Angola. Foto por mbrand85.

Luuanda é um livro de contos escrito pelo autor luso-angolano José Luandino Vieira enquanto esteve preso em diversas cadeias na capital angolana e foi originalmente publicado em 1963. Devido a suas características de enredo, espaço, personagens e linguagem se faz cada vez mais uma leitura imprescindível para aqueles que vivem hoje abaixo da tirania colonial e imperial.

O livro é constituído de três histórias: “Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos”, “A estória do ladrão e do papagaio” e “A estória da galinha e do ovo”. O primeiro conto do livro narra a vida dura e miserável de uma mulher idosa que vive em uma cubata com seu neto, come raízes e comida do lixo, e não possui perspectivas para além da pobreza extrema. O segundo, trata do encontro de dois angolanos e um cabo-verdiano na cadeia: Xico Futa, o mais sabido, Garrido Fernandes, aleijado, e Lomelino dos Reis, ladrão pois não era autorizado ao trabalho honrado. Por fim, a terceira história relata a disputa entre duas vizinhas, nga Bina e nga Zefa, por um ovo, que acaba por ter envolvimento também de duas crianças, Beto e Xico, e da polícia.

Todo o texto da obra apresenta descrições do espaço angolano, sempre contrastando o espaço do homem negro, o colonizado, e o do homem branco, o colonizador. Retrata o dia a dia dos musseques, seus habitantes, seu modo de falar, seus conflitos e confrontos. E por isto, ao falar deste dia a dia propriamente angolano, da perspectiva do colonizado e para o colonizado, que Luuanda marca o início do estabelecimento de uma norma literária voltada a Angola, e não mais voltada a Portugal. A obra contém em si uma potência emancipatória gigante, marcando o início da construção de uma identidade literária – e nacional – para o país.

A oposição entre o universo do colonizador e do colonizado prevalece ao longo de toda a obra, e começa já no título, nome alterado da então cidade capital da colônia. Tal título é um anúncio para o universo que o autor constrói na obra, totalmente voltado a cidade da perspectiva do negro colonizado e pobre, não mais da perspectiva do colonizador sobre o espaço angolano. Esta escolha de mudança de ponto de vista fica também explícita a partir das personagens, todas seres à margem da ordem reguladora da sociedade, excluídos.

Da mesma forma que Fanon escreveu sobre e para seus irmãos, Luandino faz o mesmo. Produz uma escrita tipicamente angolana, voltada aos angolanos, não só em tema, mas também em forma, utilizando de uma linguagem onde o português se mistura com palavras e expressões em quimbundo. Linguagem essa que demonstra a assimilação forçada da cultura ocidental européia pelo negro colonizado, mas que, ao mesmo também, nos mostra que tal cultura homogênea não é, de fato, a angolana, por mais fortemente imposta que fosse.

A linguagem, da maneira como foi desenvolvida por Luandino na obra, também demonstra o contraste e as relações entre brancos e negros: os brancos dominam e utilizam da língua em sua forma européia, os negros utilizam a linguagem dos musseques. Tal apropriação literária da linguagem de suas personagens demonstra o lado leitor do escritor, que diz que João Guimarães Rosa o ensinou que “era necessário aproveitar literariamente o instrumento falado dos personagens”, e que “um escritor tem a liberdade de criar uma linguagem que não seja a que os seus personagens utilizam”.

Esta perspectiva profundamente angolana dos temas, personagens e linguagem de certo dificulta a leitura para um estrangeiro, mas é provável que isto não importava ao autor, que escrevia pensando em seus conterrâneos e sua emancipação, já que Luandino foi uma figura importantíssima da construção da revolução angolana. Enquanto estrangeiros brasileiros, e de outros países colonizados do Terceiro Mundo, tal dificuldade é possível e necessária de se superar, pois a obra, devido a suas características e temas voltados ao próprio país, nos serve como uma grande inspiração e lição na construção de uma identidade cultural e literária própria, emancipada do pensamento colonizador.

O caminho mais fácil para superar tais dificuldades de leitura para nós, demais habitantes do Terceiro Mundo, é o caminho da identificação e transposição do universo da obra ao de nossos países, ao lermos Luuanda lembramos de nossos próprios personagens a margem, nossos próprios espaços e nossas próprias relações racializadas e colonizadas.

Em Luuanda, e ao longo de toda obra de Luandino, que está inserida num contexto de guerra pela independência Angolana, a literatura, o contexto político e social e o projeto de construção da identidade nacional estão profundamente articulados e interligados. É por isto que Luandino e sua obra devem ser considerados – e lidos – não apenas pela sua grandiosidade em contribuição para a literatura universal e para a literatura de língua portuguesa, mas também pela sua enorme contribuição para a formação de uma cultura e literatura revolucionária, anti-colonial e libertadora.

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