África

O golpe no Mali e como a OTAN desestabilizou o Sahel

Por Ben Morken, via In Defense of Marxism, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Ismael Wague, porta-voz do Comitê Nacional pela Salvação do Povo, fala durante coletiva de imprensa em Kati, em 19 de agosto de 2020. Foto por Annie Risemberg.
Ismael Wague, porta-voz do Comitê Nacional pela Salvação do Povo, fala durante coletiva de imprensa em Kati, em 19 de agosto de 2020. Foto por Annie Risemberg.

O caos no Mali se aprofundou esta semana, após um grupo de soldados e oficiais subalternos sediados na capital Bamako prenderem o presidente Ibrahim Boubacar Keita, o primeiro-ministro Boubou Cissé e outras altas autoridades do governo, forçando-as a renunciar.

Isso ocorreu após várias semanas de grandes protestos e manifestações contra o governo de Keita. Dezenas de milhares de manifestantes tomaram as ruas para celebrar quando notícia da prisão do ex-presidente veio a público. Houveram amplas comemorações em Bamako, com manifestantes e soldados disparando tiros para o alto em celebração à derrubada do odiado governo apoiado pela França. Então, próximo da meia-noite, Keita apareceu em rede nacional para anunciar sua renúncia e a dissolução do parlamento.

As manobras falham em conter os protestos

Em março, o governo avançou com as eleições parlamentares apesar dos riscos colocados pela pandemia de Covid-19. De maneira fraudulenta, o partido de Keita acabou conquistando mais 10 cadeiras. Ao mesmo tempo, o principal líder de oposição, Soumaila Cissé, foi sequestrado por homens armados desconhecidos. Ele não foi mais visto desde então.

Se seguiram protestos massivos, que forçaram a Corte Constitucional do país a revogar o resultado das eleições. Mas esta decisão falhou em pacificar o movimento de massas. Ao contrário, encorajou os manifestantes a pressionarem por uma remoção completa do governo. Todo esse ódio foi alimentado ao longo de junho, quando centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas de Bamako para protestar contra o colapso da economia, a inépcia do governo em relação à pandemia e o agravamento da crise nas regiões norte e central do país, onde uma grave insurgência islamista têm desestabilizado todo o Sahel.

Inicialmente, Keita recusou a deixar o cargo. Então, todo seu gabinete renunciou durante a intensificação da guerra civil que tem sido travada desde 2012. O então presidente formou um novo gabinete ao final de julho, em uma tentativa de sair da crise. Mas isso apenas demonstrou o quão frágil sua base de apoio havia se tornado.

O regime buscou então canalizar o movimento para uma coalizão conhecida como Movimento 5 de Junho (M5-RFP), liderada pelo clérigo Mahmoud Dicko. O objetivo era salvar o regime de um colapso total. Mas essa coalizão de opositores “leais” fracassou em pacificar o movimento. Cada pequena demanda que faziam a Keita impulsionava as massas, forçando-os a exigir ainda mais, o que se tornou uma situação muito perigosa ao regime.

Agora que ficou claro que o regime apodrecido de Keita é incapaz de ceder quaisquer concessões, a última linha de defesa, o corpo militar, agiu para salvar o regime de sua derrocada.

O caos causado pela intervenção da OTAN

Este é o segundo golpe no Mali em oito anos. Um motim ocorreu na mesma base militar em 2012, quando o ex-presidente Amadou Toumani foi derrubado após a desastrosa resposta à insurgência dos rebeldes tuaregues no norte do país, que receberam armamentos vindos da Líbia, após a intervenção da OTAN para derrubar Gaddafi em 2011.

A intervenção liderada pela OTAN na Líbia visava dar um fim às revoluções árabes. Isso desestabilizou completamente a situação e jogou-a no caos, com milícias islâmicas dominando o país e cometendo diversas atrocidades, incluindo sequestros, massacres, bombardeios, tráfico de pessoas, e dando início a um crescente comércio de escravos. Esse foi o preço pago pela Líbia por sua “libertação” assegurada pelo ocidente.

Este caos se espalhou em África Ocidental e na região do Sahel, desestabilizando o Níger, Burkina Faso e particularmente o Mali, para onde guerreiros tuaregues que lutaram como mercenários para Gaddafi retornaram, alimentando uma ampla rebelião no norte do país. O fluxo de armas para a região também fomentou a insurgência do Boko Haram na Nigéria, Camarões e Níger.

Keita assumiu o poder em 2013. Um acordo firmado em 2015 com alguns grupos rebeldes, garantindo maior autonomia ao norte, esparsamente populoso. Isso inclui grupos islamistas extremistas ligados à al-Qaeda e ao Estado Islâmico, que usaram a antiga insurgência tuaregue para lançar seus próprios ataques. Keite se manteve no poder em 2018 em uma eleição fraudulenta, mas suas concessões não impediram a insurgência. A situação piorou para os cidadãos comuns e criou um profundo ressentimento dentro do exército.

Tendo desestabilizado a Líbia, as forças imperialistas seguiram os grupos jihadistas ao Sahel, instalando mais de 20.000 tropas locais e internacionais na região. Isso incluiu 4.500 soldados franceses, 13.000 das Nações Unidas, e cerca de 5.000 tropas ligadas ao “G5 Sahel”, financiado pela França, que inclui Burkina Faso, Chade, Mali, Mauritânia e Níger. Essa “guerra ao terror” foi bem-sucedida apenas em desestabilizar ainda mais o Sahel. Operando na região através de sua subsidiária, o Estado Islâmico do Grande Saara (ESGS) acelerou suas operações no Mali e Burkina Faso, e agora em Níger.

A hipocrisia

A resposta da chamada “comunidade internacional” é hipócrita ao extremo. Moussa Faki Mahamat, o chefe da Comissão da União Africana (CUA), condenou “qualquer tentativa de mudanças anti-constitucionais” e fez um apelo aos insurrectos para que “encerrem qualquer uso de violência”.

O estatuto da União Africana (UA) sobre “Democracia, Eleições e Governança” proíbe qualquer emenda ou revisão constitucional que constitua “uma violação dos princípios de mudança democrática de governo”. Mas a UA nunca invocou essa provisão e silenciou-se após diversas tomadas de poder “inconstitucionais” ao redor do continente africano recentemente. Na Guiné, o presidente Alpha Condé deveria deixar o cargo este ano, mas orquestrou um golpe constitucional que permitiu seu quarto mandato. O mesmo ocorreu no Egito, Uganda, Comores, Congo, Camarões, Chade, Djibuti, Costa do Marfim, Ruanda e Togo.

Há então as forças imperialistas, que também condenaram o golpe. Mas elas são diretamente responsáveis pela crise. Os manifestantes em Bamako protestaram legitimamente contra a presença de forças estrangeiras, exigindo a saída das tropas francesas do país, que são diretamente ligadas aos corruptos líderes locais.

Quais são os próximos passos?

O Sahel está entre as regiões mais pobres do mundo. Suas grandes riquezas minerais não beneficiaram seu povo. Agora, a presença militar estrangeira e os grupos jihadistas estão aprofundando o sofrimento das populações locais. Mas os protestos no Mali demonstram claramente que as massas estão cansadas desta situação. O mesmo é verdadeiro em Burkina Faso, onde os manifestantes exigiram o fornecimento de armas por parte do estado, para que combatam eles próprios os grupos armados.

A diferença entre esse golpe e aquele de 2012 é o papel do movimento de massas no processo. O exército está intervindo para conter o ódio revolucionário que se fortalece na sociedade. Em Burkina Faso, observamos uma situação revolucionária de larga escala se desenvolvendo em 2014, com a queda de Blaise Compaoré, além da derrota de um golpe contra-revolucionário em seguida. Para que as massas do Mali sejam bem-sucedidas, elas devem abandonar quaisquer ilusões em relação aos militares e à oposição clerical de Mahmoud Dicko. Apenas com sua própria força e em aliança com as massas de Burkina Faso e Níger elas poderão varrer os regimes apodrecidos, os grupos terroristas e as forças imperialistas da região.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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