Europa

Irá Belarus se tornar a próxima Síria?

De certa maneira, o que ocorreu na Síria poderá ocorrer em Belarus: a Rússia irá fornecer seu total apoio à Lukashenko, mas apenas em troca de amplas reformas em todos os níveis.

Via The Saker, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Lukashenko se junta à guarda policial no Palácio da Independência em Minsk, carregando um rifle Kalashnikov, em 23 de agosto de 2020. Foto via Cia. Estatal de Rádio de TV de Belarus.
Lukashenko se junta à guarda policial no Palácio da Independência em Minsk, carregando um rifle Kalashnikov, em 23 de agosto de 2020. Foto via Cia. Estatal de Rádio de TV de Belarus.

Tudo bem, eu admito: o título é deveras hiperbólico. Mas o que quero dizer é o seguinte: existem sinais de que a Rússia está intervindo na crise de Belarus (finalmente!).

Primeiramente, podemos observar uma mudança radical na atuação de Lukashenko: se o seu instinto inicial foi lançar uma repressão brutal tanto contra os desordeiros violentos quanto contra os manifestantes pacíficos, ele deu agora uma meia-volta e o resultado é impressionante: neste domingo houveram grandes manifestações anti-Lukashenko, entretanto nenhuma pessoa foi detida. Nenhuma. E o mais incrível é o seguinte: o canal do Telegram Nexta, mantido pelos poloneses (que é o principal meio utilizado pelo Império para derrubar Lukashenko), inicialmente convocou protestos pacíficos, mas no fim das contas realizou um chamado para a tomada do principal prédio presidencial. Quando os desordeiros (neste ponto já estamos falando de uma tentativa ilegal e violenta de derrubada do estado – então não denomino essas pessoas de manifestantes) chegaram ao local, se depararam com uma verdadeira “muralha” de tropas de choque totalmente equipadas: essa visão (bem assustadora) foi suficiente para impedir os desordeiros por um tempo, que tiveram então que se retirar.

Segundo, Lukashenko fez algo relativamente estranho, mas que faz todo o sentido no contexto belarusso: ele vestiu um traje de combate completo, apanhou um rifle de assalto AKSU-74, vestiu também seu filho (de 15 anos!) em traje de combate e voou em seu helicóptero até Minsk, pousando no palácio presidencial. Eles então caminharam até as tropas de choque, onde Lukashenko agradeceu-os calorosamente, o que resultou em aplausos por parte de toda a força policial. Para a maioria de nós esse comportamento pode parecer consideravelmente estranho, senão absurdo. Mas no contexto da crise belarussa, que é uma crise travada principalmente no campo informacional, faz total sentido.

• Na semana passada, Lukashenko afirmou que nenhuma eleição ou golpe irá acontecer enquanto ele estiver vivo.

• Lukashenko decidiu desta vez mostrar, simbolicamente, que ele está no comando e que morrerá lutando ao lado de seu filho caso necessário.

A mensagem aqui é clara: “Eu não sou nenhum Yanukovich, e caso necessário, morrerei assim como Allende morreu”.

Evidentemente, a máquina de propaganda anglo-sionista imediatamente declarou que a aparição de Lukashenko carregando uma Kalashnikov é um sinal claro de que ele enlouqueceu. No contexto ocidental, caso isso ocorresse, digamos, em Luxemburgo ou na Bélgica, essa acusação seria certeira. Mas no contexto belarusso, estas acusações não têm muita força, graças às diferenças culturais.

Para compreender o quão poderosa é essa mensagem, precisamos ter em mente os dois principais rumores que a operação psicológica do Império visava transmitir à população de Belarus:

• De que existem diferenças profundas entre as elites dominantes (especialmente as chamadas siloviki – os “grandes ministérios”, como o de Assuntos Internos e a KGB).

• Que Lukashenko havia fugido do país ou estava a ponto de fazê-lo (cada vez que um helicóptero sobrevoa Minsk, a mídia ocidental rotula como imagens de Lukashenko “fugindo do país”).

Eu tenho uma grande suspeita de que o que ocorreu entre Putin e Lukashenko é muito similar ao que ocorreu entre Putin e Assad: inicialmente, tanto Assad quanto Lukashenko aparentemente acreditaram que pura violência resolveria o problema. Essa crença profundamente equivocada resultou em uma situação na qual as autoridades legítimas foram quase derrubadas (e isso ainda é possível em Belarus). Em ambos os casos, os russos disseram claramente algo parecido com “nós o ajudaremos, mas você precisará mudar radicalmente seus métodos”. Assad acatou. Lukashenko aparentemente também, ao menos em certo grau (esse processo acabou de começar).

A verdade é que a oposição está em uma situação difícil: a ampla maioria da população belarussa claramente não quer um golpe violento, seguido de uma sangrenta guerra civil, uma total desindustrialização do país e uma submissão total ao Império – em outras palavras, eles não querem seguir o “caminho ucraniano”. Mas como se derruba “legalmente” um governo, especialmente se ele transmite a mensagem clara de que “morreremos antes de cair”?

Existe também o enorme problema de Tikhanovskaya: enquanto poucos acreditam que ela obteve apenas 10% dos votos e Lukashenko 80% – ninguém acredita que ela tenha vencido as eleições. Então, enquanto o ocidente quer pintar Lukashenko como o “próximo Maduro”, é praticamente impossível convencer qualquer um de que “Tikhanovskaya é o próximo Guaidó”.

Então, para onde vamos a partir daqui?

Bem, Lukashenko não demitiu o Ministro de Assuntos Internos, Makei, nem o chefe da KGB, Vakulchik. Verdade seja dita, eu tendo a acreditar com alguns analistas russos que dizem que Makei não é o problema, e que o principal russófobo em Minsk é o próprio Lukashenko (um exemplo: foi ele quem removeu os quatro Sukhois russos enviados para ajudar Belarus no controle de seu espaço aéreo). É verdade que Lukashenko controla todos seus ministérios com punho de ferro, e dizer que Makei é o malvado enquanto Lukashenko é uma vítima inocente não é muito crível. No entanto, mesmo que Makei e Vakulchik estivessem apenas seguindo ordens de Lukashenko, eles devem deixar seus cargos como um sinal de reparação em relação à Rússia. Ainda assim, os russos provavelmente darão indicações de que o Kremlin não irá trabalhar com estes traidores.

Temos também as declarações públicas do Ministro da Defesa belarusso, Viktor Khrenin, que diz todas as coisas certas e que parece seguir uma linha dura contra as forças ocidentais por de trás desta última tentativa de revolução colorida. É sabido na Rússia que enquanto os diplomatas belarussos preferem, digamos, trocar apenas sorrisos do que uma colaboração substantiva com os russos, o caso das Forças Armadas de Belarus é muito diferente. As tropas russas e belarussas não apenas treinam conjuntamente, mas também compartilham informações regularmente. Além disso, sem a Rússia as Forças Armadas belarussas se encontrariam completamente isoladas, incapazes de obter apoio técnicos ou peças, desconectadas dos sistemas de alerta russos e removidos do suporte informacional da Rússia.

O exército belarusso é dramaticamente diferente do ucraniano, que já havia perdido sua capacidade de combate há décadas e sofrido um expurgo dos verdadeiros patriotas, além de ser profundamente corrupto. Em contraste, o relativamente pequeno exército belarusso é, ao que parece, muito bem treinado, decentemente equipado e comandado por oficiais muito competentes. Acredito que é seguro dizer que as Forças Armadas são leais a Lukashenko e que provavelmente apoiariam uma reunificação completa com a Rússia.

Em relação ao próprio Lukashenko, ele permitiu, pela primeira vez, o registro de um partido abertamente pró-russo (no passado, os movimentos, organizações e partidos pró-russos eram sistematicamente perseguidos e reprimidos). Ele também declarou publicamente que “seu amigo Putin” o aconselhou sobre como reagir aos protestos.

Então, irá Belarus se tornar a próxima Síria?

Não, é claro que não – os dois países são muito diferentes. Mas em outro sentido, o que ocorreu na Síria poderá ocorrer em Belarus: a Rússia irá fornecer seu total apoio, mas apenas em troca de amplas reformas em todos os níveis. E ainda que Lukashenko agora declare que o ocidente apenas quer destruir Belarus como o primeiro passo para destruir toda a Rússia, eu não acredito que existe qualquer chance de um conflito militar, a não ser que ocorra uma destas três coisas:

• Algum maluco de qualquer um dos lados abra fogo e cause um incidente militar (e mesmo isso talvez não seja suficiente).

• Os poloneses fiquem realmente desesperados e façam algo fantasticamente estúpido (a história da Polônia demonstra que isso é uma possibilidade real).

• Lukashenko seja assassinado e o caos se espalhe (não é muito provável).

Nós devemos nos lembrar que, quando a Rússia interveio na Síria, o exército sírio estava em frangalhos e praticamente derrotado. Esse não é o caso em Belarus, que possui Forças Armadas excepcionais (do tipo “curta e grossa”) que podem garantir a segurança do país, especialmente quando apoiadas pela KGB e pelas forças do Ministério de Assuntos Internos.

Assim, ainda que Lukashenko seja parte da solução no curto-prazo, no longo-prazo ele precisa ser substituído por um líder confiável, com quem o povo belarusso e o Kremlin possam contar – e a principal tarefa deste líder será reintegrar totalmente Belarus à Rússia. Novamente, uma grande diferença em relação à Síria.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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