EUA

A campanha de Biden e a tentativa de ‘resgatar’ a hegemonia americana

Por Andre Damon, via World Socialist Web Site, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Joe Biden e sua companheira de chapa Kamala Harris participam de um evento virtual de campanha em Wilmington, Delaware, em 12 de agosto de 2020. Foto por Carlos Barria.
Joe Biden e sua companheira de chapa Kamala Harris participam de um evento virtual de campanha em Wilmington, Delaware, em 12 de agosto de 2020. Foto por Carlos Barria.

Ao longo da última semana, a população estadunidense foi submetida a um ‘infomercial’ de oito horas, oficialmente apelidado pelo Partido Democrata de “convenção”, no qual o reacionário de longa data Joe Biden foi rotulado simultaneamente como o grande americano ordinário e uma cura milagrosa para os problemas dos Estados Unidos.

Em meio a aparições de celebridades, clichês vazios, e anedotas “pessoais” pouco convincentes, a maior parte da “teletona” dessa semana foi desprovida de qualquer discussão real de programas e políticas. Por trás da festa, entretanto, existem conflitos significativos dentro da classe dominante, principalmente em matéria de política externa.

Estes conflitos foram revelados parcialmente na terça-feira a noite, quando a convenção transmitiu uma gravação de um grupo de sete autoridades militares, diplomáticas e de inteligência, que alegaram que o governo Trump não trava as guerras estadunidenses no Oriente Médio e não persegue os conflitos com Rússia e China de maneira suficientemente agressiva.

Ao comentar sobre a política de Trump em relação ao Oriente Médio, Brett McGurk, responsável pelas operações dos EUA na região durante o governo Obama, afirmou: “Nossas forças armadas tinham uma política de manter nossa presença na Síria”, a qual Trump “abandonou”. Ele concluiu: “Isso é vergonhoso”.

Rose Gottemoeller, ex-vice-secretária-geral da OTAN, concluiu que Trump “não têm enfrentado” a Rússia e a China “de forma alguma”. Outra autoridade do Departamento de Estado acrescentou: “Graças a Donald Trump, nossos adversários estão mais fortes e aguerridos”.

Após a gravação, o General Colin Powell afirmou que Biden “trabalhará para reconhecer qualquer ameaça contra nós, e irá enfrentar nossos adversários com força e experiência. Eles saberão que ele não brinca em serviço”. O “serviço” pelo qual Powell é melhor conhecido é a destruição do Iraque e a morte de um milhão de seus habitantes, baseado em alegações falsas sobre “armas de destruição em massa”.

Estes temas foram expandidos em uma carta publicada na sexta-feira por um grupo de 72 altas-autoridades militares e de inteligência – e criminosos de guerra – liderado pelo ex-diretor da CIA e da NSA Michael Hayden, declarando seu apoio a Biden.

O primeiro dos dez pontos principais da carta afirma que Trump “chamou a OTAN de ‘obsoleta’, taxou a Europa como “inimiga”, zombou de lideranças dos aliados mais próximos dos Estados Unidos, e ameaçou terminar antigas alianças estadunidenses”. Como resultado, a carta conclui, “Donald Trump tem danificado gravemente o papel dos Estados Unidos como um líder mundial”.

Em outras palavras, o atual governo tem sabotado os objetivos geoestratégicos fundamentais que levaram os Estados Unidos a três décadas de guerras: o esforço de controlar a Eurásia, incluindo o Oriente Médio.

Nos quatro anos desde que Trump se tornou o candidato Republicano, se tem travado um conflito feroz dentre a classe dominante, principalmente em termos de política externa, e em particular sobre a “guerra quente” travada entre o governo ucraniano e as forças pró-russas nas regiões orientais, após o golpe apoiado pelos Estados Unidos em 2014.

Ao invés de focar no conflito com a Rússia que tem sido a principal preocupação de grande parte do establishment da política externa, o governo Trump tem se preocupado em impedir o crescimento econômico da China, enquanto fortalece a capacidade militar dos Estados Unidos para travar uma guerra no Pacífico.

Mas, também neste aspecto, as figuras militares e de inteligência alinhadas com a campanha de Biden sentem que a Casa Branca tem sido ineficaz. Como dois signatários da carta escreveram em um artigo na Foreign Policy, “Trump tem confrontado a China começando guerras comerciais com todos” ao contrário de envolver outros estados imperialistas. “Grandes potências democráticas, incluindo o Japão, França e Canadá, estão desesperadas para cooperar com os Estados Unidos no combate às políticas tecnológicas predatórias da China”.

Do ponto de vista da classe dominante, são principalmente essas diferenças, em termos de política externa, e não interna, que estão sendo disputadas nas eleições. Frente a maior crise econômica e social desde a Grande Depressão, a política interna tem sido conduzida amplamente de forma bipartidária. O CARES Act, que sancionou o resgate multi-trilionário de Wall Street enquanto atrofiou a testagem e o rastreio de contato da Covid-19, passou unanimemente no Senado e em uma votação secreta por aclamação na Câmara.

A última edição da Foreign Affairs, um dos principais jornais sobre geopolítica estadunidense, dispõe algumas das preocupações das facções dominantes do estado. “Após cerca de quatro anos de turbulência”, afirma o editorial, “os inimigos do país estão fortalecidos, seus aliados estão enfraquecidos, e os próprios Estados Unidos estão cada vez mais isolados e debilitados.”

Sua preocupação é que Trump tem se provado um comissário inconfiável dos interesses externos da classe dominante. “Arrastando seu partido juntamente ao poder executivo, o presidente tem reformulado a política nacional a sua própria imagem: focada na vantagem de curto-prazo, obcecado por dinheiro, e desinteressado por todo o resto”.

A manchete da revista declara que a política externa errática e instável de Trump tem resultado em uma situação na qual “a China está mais rica e mais forte, a Coreia do Norte tem mais armas nucleares e mais mísseis… e Nicolás Maduro está mais consolidado na Venezuela, assim como Bashar al-Assad na Síria”.

Segundo a campanha de Biden, a solução para todos essas crises é reafirmar a dominação e “liderança” americana sobre seus aliados tradicionais na Europa e Japão para perseguir uma política mais agressiva contra a Rússia e China. Os Estados Unidos devem deter novamente a hegemonia mundial.

O foco principal do novo governo será “reconquistar o lugar dos Estados Unidos no mundo” através a reafirmação do “excepcionalismo americano”, afirmou o conselheiro de Joe Biden, Jake Sullivan, no The Atlantic.

No início deste ano, Biden publicou um artigo intitulado “Rescuing U.S. Foreign Policy After Trump” (“Resgatando a Política Externa Estadunidense Após Trump”) na edição de março/abril da Foreign Affairs. Neste artigo, ele declara que, “para combater a agressão russa, nós devemos manter afiadas as capacidades militares de nossas alianças”. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos devem “ser mais duros com a China”. A “maneira mais efetiva de atingir esse objetivo é construir uma frente unificada de aliados e parceiros estadunidenses para confrontar a China”.

Mas enquanto a última edição da Foreign Affairs é intitulada “The World Trump Made” (“O Mundo Criado Por Trump”), o fiasco político enfrentado pelos Estados Unidos não surgiu da cabeça de Trump. Trump não criou o “mundo”. Ao contrário, o “mundo” – e especificamente, a crise do imperialismo americano – criou Trump.

O declínio da posição hegemônica dos Estados Unidos se estende ao longo de décadas e já estava evidente antes do colapso da União Soviética em 1990-91. A dissolução do adversário do imperialismo americano na Guerra Fria foi tomada pelos estrategistas da classe dominante estadunidense para declarar um “momento unipolar”. Os Estados Unidos poderiam utilizar seu poderio militar incontestável para contrabalancear sua decadente posição econômica através da força.

A série interminável de guerras lançadas pelos Estados Unidos nas últimas três décadas destruíram sociedades inteiras – no Iraque, Iugoslávia, Afeganistão, Líbia, Síria, Ucrânia, Iêmen, entre outros. Mas ela fracassou em reverter o destino do imperialismo estadunidense. Por outro lado, ela distorceu e brutalizou profundamente a própria sociedade americana: um processo do qual o governo fascistóide de Trump é uma expressão.

Antes mesmo da posse de Trump, já haviam tensões crescentes entre os Estados Unidos e seus antigos aliados na Europa. A pandemia de coronavírus e desastrosa resposta da classe dominante – que tem sido uma política bipartidária – têm erodido ainda mais a posição global do capitalismo americano.

O imperialismo estadunidense enfrenta problemas intratáveis, e o primeiro deles é o aumento da oposição social dentro do próprio país. Dentre as considerações que motivam o apoio à campanha de Biden por parte da classe dominante é a esperança de que ele podem estabelecer de alguma forma uma base mais ampla para a agressão imperialista no exterior. A promoção de políticas identitárias visa integrar ainda mais setores privilegiados da classe média-alta em apoio ao projeto de dominação global. É que isso Kamala Harris representa.

Um governo Biden/Harris não irá inaugurar um novo despertar da hegemonia americana. Ao contrário, a tentativa de afirmar essa hegemonia ocorrerá através de uma violência sem precedentes. Caso assuma o poder – com o apoio do conjunto de reacionários responsáveis pelos piores crimes do século XXI – estará comprometido com uma vasta expansão das guerras. Trump e Pompeo estão avançando de cabeça em direção a um conflito com a China. A crítica de Biden a esse plano desastroso é que os Estados Unidos devem ser mais “duros”, seja contra a Rússia, a China, o Afeganistão, a Síria, ou qual lugar no meio do caminho.

Além disso, a classe dominante americana enfrenta, no acirramento da luta de classes, a mais séria ameaça às suas ambições geopolíticas.

Independente do caminho definido pelas eleições, o imperialismo estadunidense tem, como alertou o World Socialist Web Site nas vésperas da Guerra do Iraque, um “encontro com o desastre”. Todas as facções do estado americano estão unidas em um plano de ação que levará a milhões de mortes. A luta contra a guerra não avançará pela escolha entre Trump ou Biden, mas apenas através da luta independente da classe trabalhadora.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s