Oriente Médio

Repetindo o roteiro da Síria no Líbano

Por Abdel Bari Atwan, via Raialyoum, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Macron ofereceu uma ‘cenoura’ às elites do Líbano. Foto por Thibault Camus.
Macron ofereceu uma ‘cenoura’ às elites do Líbano. Foto por Thibault Camus.

Os Estados Unidos e seus vassalos tentam explorar a crise no Líbano para avançar seus planos de destruição do Hezbollah. Mas deveriam pensar duas vezes.

Comecemos pelo final, sem nos enrolarmos nos detalhes e análises que ocuparam a mídia libanesa e árabe nos últimos dias: a atual circunstância no Líbano, que resultou na renúncia do governo de Hassan Diab devido à explosão no Porto de Beirute, irá eventualmente levar ao esfacelamento da corrupta elite governante do país e do Acordo de Taif de 1989, que levou-a ao poder e estabeleceu o sectário sistema que a sustenta.

O povo libanês quer genuínas reformas democráticas sem que isso danifique o estado em si. Mas o povo, infelizmente, não é o decisor principal neste assunto. As questões principais estão sendo definidas por forças externas, especialmente os Estados Unidos e Israel, e seus vassalos locais. Eles visam replicar no Líbano o roteiro colocado em prática na Síria há dez anos atrás – que fracassou na Síria e está fadado ao fracasso também no Líbano, o que seria evidente caso aprendessem com o erro.

O roteiro sírio foi, e ainda é, voltado a derrubar o regime em Damasco. O roteiro que se desdobra no Líbano visa derrubar o ‘estado’ do Hezbollah, ou seja, desarmar, em benefício do estado colonial, o movimento que libertou o sul do país da ocupação de Israel, que passou a vê-lo como uma ameaça existencial.

Na Síria, o roteiro iniciou-se com raivosas manifestações em Deraa, e o mesmo irá ocorrer no Líbano. Os protestos odiosos que observamos em Beirute (que irão em breve se espalhar a Trípoli) e a simulação do enforcamento do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, apontam para isso. É a cabeça de Nasrallah que eles querem: colocar também outros políticos no meio como distração, para dar a impressão de que toda a elite política irá se defrontar com a forca.

Sempre que protestos e manifestações populares se tornam violentas e causam guerras civis, elas invariavelmente começam de maneira pacífica e expressam demandas legítimas por mudanças democráticas, reformas políticas e justiça social. E então, elas são sequestradas, e produzem resultados completamente opostos. Isso ocorre por que as demandas dos manifestantes estão totalmente alinhadas com os interesses das forças externas que as exploram. A Síria, Líbia e Iraque são grandes exemplos.

Mas as condições na região mudaram nos últimos dez anos. Os estados que interviram na crise Síria – militar, política e financeiramente – enfrentam agora suas próprias crises: financeiras (devido à queda dos preços do petróleo) e socioeconômicas e sanitárias (devido à pandemia de coronavírus). Eles também se enrolaram em outras guerras regionais (a Arábia Saudita e os Emirados Árabes no Iêmen, e – ao lado do Egito, Qatar e Turquia – na Líbia). No entanto, quando as ordens chegarem de Washington para que comece o confronto sangrento no Líbano, os fundos necessários são imediatamente disponibilizados e priorizados, juntamente à necessária cobertura ideológica (principalmente na forma de incitações sectárias).

O governo de Hassan Diab era como um bebê prematuro desde quando nasceu. Nunca foi permitido a ele que governasse. E foi descartado pois seu primeiro-ministro propôs a saída mais rápida para a crise: eleições antecipadas – em dois meses – para dar uma chance ao povo libanês de tomar a iniciativa através das urnas, e não em protestos violentos. Isso poderia ter derrubado a maioria da elite corrupta. Por isso os ministro começaram a renunciar sob pressão dessa mesma elite, e o por isso também Hassan Diab foi forçado a uma renúncia preventiva antes de ser derrubado. O pretexto para rejeitar sua proposta foi que uma nova legislação eleitoral deveria ser aprovada antes, uma verdadeira impossibilidade no atual estado de elevadas tensões políticas.

Agora, o governo de Diab está fora do caminho. O próximo alvo será o presidente Michel Aoun e então o porta-voz do parlamento, para criar assim um vácuo governamental e constitucional que escancare as portas para a intervenção estrangeira e para a guerra por procuração. Essa “alternativa” está pronta e em espera, e tem sido preparada há meses, senão anos, o motivo pelo qual cresce o medo de um futuro sangrento.

O Líbano está rapidamente escorregando em direção à gestão por supostas “organizações não-governamentais” sob a justificativa de que não possui governo. Quem sabe talvez, os “Capacetes Brancos” poderão fazer aqui uma aparição precoce, dado que estão sediados nas proximidades, na província síria de Idlib.

Além disso, o Líbano está há uma semana de enfrentar outra bomba-relógio cuja detonação poderá também ser altamente destrutiva. O desmoralizado Tribunal Especial para o Líbano (STL, em inglês) está prestes a anunciar seu veredito sobre o caso do assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik al-Hariri, em 2005. Isso poderá fornecer ainda mais combustível para os protestos violentos. Os vereditos seriam divulgado na semana passada, mas foram adiados. E isso não ocorreu por simpatia às vítimas da explosão, mas para maximizar seu potencial político após o terrível palco ter sido montado.

Assim como o regime sírio, o Hezbollah se provará incólume às pressões de desarmamento ou de saída do cenário político. Ao contrário da maioria de seus oponentes, ele está bem armado (mais do que o exército libanês, apesar de não ser sua responsabilidade), possui uma ampla e coesa base de apoio (não teve nenhuma divisão significativa nos cerca de 40 anos desde que se formou), e tem apoio de uma forte e confiável aliança regional (o chamado “Eixo da Resistência”). E mais importante, foi bem-sucedido em construir alianças internas que ultrapassam os sectarismos no Líbano, abarcando os xiitas, cristãos, sunitas, drusos e outros. O Hezbollah seria um grande beneficiário de uma anulação do Acordo de Taif, já que nunca se beneficiou do estabelecido sistema sectário de poder. O grupo sempre demonstrou que não aspira tomar o poder por si, e constantemente faz concessões intragáveis às outras forças políticas para evitar o confronto e preservar o estado libanês.

Não há falta de habilidade e experiência no Líbano, e existem pessoas íntegras e sábias em todos os grupos. Eles podem rapidamente se unir para poupar o país da desgraça a que americanos, israelenses e franceses querem levá-lo, e formar um governo de salvação nacional. Ele poderia ser liderado pela incorruptível ex-primeiro-ministro Salim al-Hoss, ou, dado sua idade avançado, alguém nomeado por ele. O ex-comandante do exército e ex-presidente Emile Lahoud poderia liderar uma investigação nacional adequada, incluindo generais do exército, para a explosão do porto, evitando uma investigação internacional, que muitos temem por manipulação em benefício dos interesses políticos estadunidenses.

Os políticos e partidos tentados a se aliarem aos planos dos Estados Unidos, Israel e França, visando ganhar vantagens políticas, deveriam pensar duas vezes. Devem considerar as lições das experiências da Síria, Líbia e Iraque antes de condenarem seu povo a um inferno semelhante.

As sequelas das guerras-civis duram por muito tempo. Ainda se pode sentir o impacto do conflito de 15 anos nas terras e na mentalidade do povo libanês. Isto cega muitos ao fato de que o Hezbollah é parte integrante do tecido social do Líbano, e não pode simplesmente ser expulso ao Chipre ou à Tunísia, como ocorreu com a resistência palestina em território libanês, após a invasão israelense em 1982, sob um duvidoso acordo mediado pelos americanos. Os tempos mudaram radicalmente desde então.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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